Lanternas Verdes na TV e a nova fase dos heróis nos quadrinhos: caminhos opostos
Lançada esta semana pela HBO, Lanternas chega como um dos projetos mais ambiciosos do ano — e também como um contraponto direto ao rumo que a DC Comics vem dando à franquia no papel. Produzida pelo showrunner Chris Mundy ao lado de Damon Lindelof e Tom King, a trama de oito episódios traz Kyle Chandler como o veterano Hal Jordan e Aaron Pierre como o recruta John Stewart. Com um tom investigativo que remete a True Detective e Slow Horses, a dupla se envolve na apuração de um homicídio em Rushville, no Nebraska. Ao optar por esse caminho, a HBO retoma a ideia fundadora da franquia, criada por John Broome e Gil Kane em 1959: a de que os Lanternas Verdes são, antes de tudo, os patrulheiros e policiais do universo.
É dessa premissa que a série extrai sua força dramática. Hal Jordan aparece como o soldado cansado, à beira da aposentadoria, encarregado de treinar John Stewart que, por sua vez, foi diretamente indicado pelos Guardiões do Universo. Essa parceria de temperamentos opostos ganha ainda mais peso com elementos consagrados da mitologia, como a ameaça conspiratória dos Caçadores (Manhunters) — antigos agentes robóticos que falharam no passado e agora se infiltram disfarçados entre os humanos — e as participações de Sinestro (Ulrich Thomsen) e Guy Gardner (Nathan Fillion). O resultado é um equilíbrio raro entre o rico folclore espacial da franquia e um drama humano denso.

Enquanto a televisão homenageia a Tropa clássica, os quadrinhos seguiram na direção oposta. Lançada nos EUA em abril de 2025 dentro do selo Absolute Universe, a HQ mensal Absolute Green Lantern — escrita por Al Ewing e desenhada por Jahnoy Lindsay — parte de uma proposta ousada: nada de anéis, nada de Tropa, nada de força de vontade. Nessa versão, a Lanterna Verde é um objeto colossal, semelhante a uma nave, que desaba sobre uma cidade pacata de Nevada e espalha paranoia entre a população. A protagonista é Jo Mullein, cujos poderes de luz se manifestam de forma instável, através de rachaduras luminosas na própria pele. Hal Jordan, por sua vez, torna-se uma figura trágica e desfigurada, com o braço esquerdo corrompido pela energia do Mão Negra (Black Hand), que o transforma em uma criatura movida pelo medo. Até Abin Sur, o alienígena moribundo do cânone original, reaparece como uma espécie de juiz cósmico de lógica quase incompreensível.

A recepção a essa reinvenção, porém, tem sido bastante dividida. O primeiro encadernado, Absolute Green Lantern Vol. 1: Without Fear, lançado no fim de 2025 nos EUA, foi descrito pela crítica especializada como uma reinterpretação irregular, com problemas de ritmo e capítulos iniciais sobrecarregados de diálogos expositivos. A escolha de Jo Mullein como protagonista também irritou parte do público, que reclama do apagamento de nomes queridos como Kyle Rayner e Jessica Cruz. Por aqui, o desconforto parece seguir tom semelhante, ainda que não haja, até o momento, dados de vendas locais que permitam confirmar o mesmo grau de rejeição observado no mercado americano.
O contraste entre as duas mídias expõe um dilema atual das grandes editoras de super-heróis: a fórmula clássica dos “policiais do espaço” mostrou, na tela, que ainda é capaz de sustentar uma narrativa madura e envolvente sem abrir mão de sua identidade; nos quadrinhos, a tentativa de romper radicalmente com essas mesmas bases tem custado parte da confiança do público tradicional. Resta saber se o sucesso de Chandler e Pierre na HBO servirá de lembrete para a DC de que, às vezes, honrar o juramento clássico ainda é o caminho mais seguro para manter os Lanternas na luz.
