Uma outra tarde no museu – agora com Matisse, Duchamp e os craques da França
Outro dia mesmo, em Nova York, sem jogo no estádio de Nova Jersey, onde o Brasil foi atropelado pelo popstar Erling Haaland, decidi dar uma volta no Museu Guggenheim e de lá preparar uma brincadeira, uma tabelinha entre obras ali expostas e algumas das seleções na Copa do Mundo. Em jornada sem jogo, à espera das quartas de final, ontem fui ao Moma, o Museu de Arte Moderna. Não demorou para que Dance I, um óleo sobre tela de Henri Matisse, pintado em 1909, remetesse ao ataque francês de Olise, Dembélé e Mbappé. É aquele famoso quadro de quatro mulheres dançando nuas. Há este do Moma e um primo próximo no Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. Vê-lo é comovente, um sopro de leveza. E parece não haver dúvida, como ilumina a montagem fotográfica que abre essa postagem: é ou não é como o ataque da França, que já marcou 14 gols no torneio? É. A jornalista Ruth de Aquino, nas redes sociais, chegou a ensaiar o casamento de Matisse com a turma brasileira de Carlo Ancelotti, numa das comemorações ao modo surfe de Matheus Cunha, mas qual o quê, eles foram embora, só para estragar a comparação, estilhaçados como uma pintura cubista. Matisse, e não apenas por ser também da Gália, combina com a velocidade, a habilidade – e a leveza, insista-se – do escrete de Didier Deschamps.
Logo mais a partir de 17 horas, horário de Brasília, França enfrenta o Marrocos. Pode dar zebra, sim, mas é mais provável que os franceses tenham uma outra atuação primorosa, porque jogam com facilidade, pé em pé, extrema rapidez e agressividade. Não seria heresia dizer que os bleus, se passarem, entrarão para a história de mãos dadas com uma outra equipe de ataque azeitado, gostoso de ver, eterna: a do Brasil de Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino, no tri de 1970, no México. Ok, não há um Pelé na França – embora ao menos no gosto pela vitória, na concentração e inteligência Mbappé possa conversar de igual para igual com o rei. Talvez não haja nem mesmo um Tostão ou um Rivellino, mas e daí? A França de agora é uma maravilha, uma piscadela ao futebol como era uns anos atrás, sem exagerados passes de lado, o “tiki-taka” burilado pelo Barcelona de Guardiola, competente, mas aborrecido. O estilo exagerado de toquinhos deixaria Matisse chateado – o que ele queria mesmo era a vida alargada, sorridente, aberta, ampla – tal qual promove o trio de Olise e seus dois amigos de acento agudo, o “é”, que no idioma de Voltaire se pronuncia com a vogal fechada, representada foneticamente pelo símbolo /e/. Mas eles jogam mesmo, para não perder o tom da prosa e não deixar de lado o maior de todos os tempos, em vontade infinita, como a vogal aberta de Pelé.
Quatro andares para cima, no Moma, há uma espetacular retrospectiva de Marcel Duchamp, com 300 obras do artista dadaísta. A mostra é organizada ordem cronológica. Começa com pinturas acadêmicas, naturezas mortas e paisagens do início dos anos 1900, com um quê de impressionismo – e, sim, Duchamp sabia desenhar, e como. Passa pelo Nu Descendo uma Escada nº 2, que os cubistas consideraram ousado demais em 1912 e chega ao ápice em A Fonte, de 1917, o urinol comprado em uma loja de material de construção, virado ao contrário e assinado com o pseudônimo R.Mutt. Um grupo de estudiosos considerou a peça de porcelana a obra de arte moderna mais influente da história. A ideia não é tratar qualquer objeto como arte, mas ao tirá-lo de seu contexto original, inaugurar um olhar estético. Parece simples, mas foi revolucionário e nunca mais a civilização viu arte do mesmo modo.

É de tirar o fôlego, de virar a cabeça, mas qual o contato de Duchamp com a seleção da França? Há um caminho de semelhança. Tal qual Duchamp no começo soava clássico, as equipes francesas do passado seguiam travessia semelhante. O time de 1958, terceiro colocado, aquele de Just Fontaine e Raymond Kopa, embora ofensivo, era conservador, saia do 4-2-4 que vigorava naquele tempo, mas se transformava em um 4-3-3. Houve depois a geração dos anos 1970 e 1980, de Michel Platini. E então os campeões do mundo de 1998, liderados por Zinedine Zidane, e os de 2018, de Antoine Griezmann e um certo adolescente de nome Mbappé. Mas eram grupos de pegada tradicional, meio-campo elegante, de jogo cadenciado. Agora não, parece ser uma equipe posta em movimento acelerado. Os jogadores do passado pintavam, por assim dizer, como Duchamp no início da carreira. Os de agora, põem tudo de cabeça para baixo, como o urinol. Os dois modelos, o de antes e o de agora, são arte, por assim dizer, mas a de agora autoriza um… “uau!”, como no espanto com o ready-made de Duchamp.

O Marrocos pode frear o ímpeto, pode interromper a aventura de 2026 – naquilo que, para os franceses, seria o equivalente à derrota do Brasil de Zico, Sócrates e Falcão em 1982. Tomara que não, apesar da simpatia e imensa qualidade marroquina, do goleirão Bono e do lateral-direito Hakimi. Vale, para Olise, Dembélé e Mbappé, uma frase de Matisse e outra de Duchamp. Matisse: “A criatividade requer coragem”. Duchamp: “Não acredito na arte, acredito nos artistas”.
