Como funciona o “eletrocardiograma” da bola da Copa que eliminou a Croácia
Foi uma crueldade, daquelas que não se deseja nem para o pior inimigo. Aos 57 minutos do segundo tempo, no provável último lance da partida, o croata Gvardiol recebeu um passe na pequena área, em posição legal, e estufou a rede para empatar a partida contra Portugal pelos 16 avos de final da Copa do Mundo, no estádio de Toronto, o que levaria o jogo para a prorrogação.
Foram cinco intermináveis minutos de análise do VAR sobre o lance, o juiz foi chamado para ver o vídeo com os próprios olhos, as imagens foram passadas para frente e para trás sabe-se lá quantas vezes. Perisic cruzou uma bola para a área da intermediária, Pasalic, no lado direito da pequena área, tocou de primeira para o meio e Guardiola finalizou. O problema: no meio do caminho, Matanovic pulou para tentar raspar a bola e havia dúvida se havia tocado ou não nela. Se tivesse encostado, Palasic já estaria em posição de impedimento e o gol não vale. Se não, lance legal.
Nenhum dos árbitros, de campo ou de vídeo, conseguiu cravar o que tinha acontecido. E foi aí que se apelou para a tecnologia.
A televisão mostrou o que os torcedores têm chamado de “eletrocardiograma” da bola, um gráfico que mostrava, tal qual o exame do coração, uma linha reta com um pico no meio. O tal pico identifica que sim, houve um toque na bola. O árbitro Espen Eskas anulou o gol, mantendo a vantagem portuguesa por 2 a 1 e a classificação de Cristiano Ronaldo e cia. para as oitavas de final.
O que é essa tecnologia
A Adidas, parceira comercial mais antiga da Fifa, fabrica as bolas oficiais das Copas, e passou recentemente a instalar um sensor inercial (IMU) de 500Hz embutido, responsável por captar dados e reforçar o sistema de VAR.

A “Connected Ball Technology” (CBT), como a Adidas batizou o recurso, é cruzada com dados de posicionamento dos jogadores e, por meio de inteligência artificial, gera informações em tempo real para agilizar o processo de impedimento semiautomatizado. Ao enviar dados 500 vezes por segundo, o sensor ajuda a precisar o instante exato em que a bola foi tocada. Sua função principal é auxiliar em lances de impedimento, mas ele também é capaz de detectar se um jogador chegou a tocar na bola ou não.
O sensor foi incorporado pela primeira vez em um Mundial na Copa do Catar, em 2022. Na ocasião, foi Cristiano Ronaldo quem sentiu o peso da novidade: ele reivindicou um leve toque em um cruzamento de Bruno Fernandes na vitória por 2 a 0 sobre o Uruguai, em Lusail, e chegou a comemorar como autor do gol, mas a Fifa atribuiu o lance a Fernandes. Em nota, a entidade afirmou na época que nenhuma força externa sobre a bola havia sido registrada pelos sensores, já que não havia “batimento” detectável no momento do cruzamento.
A tecnologia da Adidas também esteve presente na Eurocopa de 2024. O Brasileirão, que usa bolas da Nike, ainda não adotou o sensor de movimento, imprescindível para que se faça a marcação do impedimento semi-automático ao cruzar justamente os dados da instante que o passador toca na bola com a posição do jogador que a recebe.
É nessas horas que fica clara a divisão de quem apoia e quem critica a tecnologia no esporte: os portugueses estão agradecendo aos céus pelo bendito sensor, e os pobres dos croatas praguejam contra o maldito “eletrocardiograma”. Aos 57 do segundo tempo! Como diria Galvão Bueno, é teste pra cardíaco.
