Reginaldo Faria sobre ser dirigido pelo filho pela primeira vez no cinema: “Família de circo”

Aos 88 anos, Reginaldo Faria estreou recentemente o primeiro filme em que é dirigido por um de seus filhos. Em cartaz nos cinemas, Perto do Sol é Mais Claro (2025, distribuído pela 02 Play), de Regis Faria, é um retrato tocante sobre um viúvo que lida com o luto e a solidão, enquanto resiste aos efeitos do tempo. Em entrevista a VEJA, Reginaldo e Regis falaram sobre o projeto intimista que envolveu praticamente toda a família, incluindo os atores Candé e Marcelo, outros filhos do veterano, além da atriz Vanessa Gerbelli, ex-mulher de Regis, no elenco.
Como surgiu a ideia desse projeto?
Regis Faria: A vontade veio do desejo de trabalhar com meu pai em um momento meu profissionalmente mais maduro. Eu sempre admirei muito o trabalho dele, que me influenciou a vida toda, não só como ator, mas como diretor. Isso foi ficando muito grande dentro de mim. Pensei: “Poxa, eu quero fazer algo. O que posso fazer com meu pai? Como a gente faz isso acontecer?”. Aí eu comecei a observar muito a questão das pessoas mais velhas dentro da nossa sociedade. Percebi, através da experiência dele, da minha mãe e das pessoas mais velhas com as quais convivo, o quanto elas vão se tornando invisíveis, o quanto vão sendo escanteadas. Pensei comigo: “Poxa, meu pai e minha mãe são pessoas produtivas, trabalham”. O que deveria determinar que eles estivessem inseridos na sociedade é o fato de não terem parado. Geralmente, quando a pessoa se aposenta e deixa o seu ofício, ela fica muito sem norte e muito descartada. Vendo os dois e percebendo que, mesmo sendo pessoas ativas, eles já sentiam, de alguma forma, essa invisibilidade — não por completo, mas de alguma forma —, resolvi que devia falar sobre isso. Acho que essa questão é importante de ser abordada, conversada, pensada e discutida. Ela provavelmente irá se agravar porque nosso país está envelhecendo. Então, a gente precisa entender como vai acolher essas pessoas mais velhas, não dando a elas um lugar à parte, mas acolhendo de forma participativa e respeitosa. Fiquei com isso na cabeça e decidi que precisava falar sobre o assunto. Meu pai é um artista muito importante na história do cinema e da teledramaturgia brasileira, e eu convivo muito de perto com isso desde cedo. Eu queria ter esse talento a serviço de um filme autoral, mas sobretudo poder compartilhar com ele a criação, fazer uma coisa juntos e ter todas as qualidades dele ali comigo para podermos criar juntos. Era um presente, um desejo muito grande.
Reginaldo, quando vem esse convite para ser dirigido pelo seu filho pela primeira vez no cinema, como foi esse processo de desenvolvimento e de criação em conjunto com uma pessoa que é tão próxima, mas com quem você não necessariamente tinha trabalhado nesse formato até então?
Reginaldo Faria: Nós tivemos trabalhos anteriores que não foram no cinema, foram no teatro. Então eu já tinha essa experiência com ele, não foi uma grande novidade entre nós. Já era o prosseguimento de uma junção de ideias, de trabalho, de sentimento e de desejos de realizar coisas. Assim como ele sonhava, eu também sonhava trabalhar com ele neste filme ou em qualquer outro projeto. A coisa surgiu dentro desse momento em que ele fez as observações que citou. São observações que até eu, como o mais velho, poderia ter feito e não fiz, porque, ao contrário, eu fujo de todo esse processo. Eu não sei muito como lidar com os jovens e nem sei como os jovens lidam comigo. Então, isso para mim é um problema sério. Não é à toa que, no filme, o meu personagem é analógico, se recusa a usar computador e tudo mais. Eu sou muito assim. Acho que tudo isso, de certa forma, uniu-se aos desejos do Regis de fazer o filme no formato que ele fez.
Quanto desse filme é autobiográfico, porque vejo muitas semelhanças nos elementos do personagem com o senhor, principalmente a questão do violão, a aversão à tecnologia e às redes sociais.
Reginaldo: Eu acho que o autobiográfico aí é relativo. Lembro-me de que, quando estudávamos cinema ou fazíamos cursos de interpretação, os professores e orientadores nos forneciam personagens. Eu tinha 20 e poucos anos, outros tinham 29, 30. Como representar o papel de um homem idoso tendo 30 anos de idade se você não tem a vivência daquilo? Não existe essa vivência. Voltando a esse personagem, a vivência que é minha, eu emprestei para ele. Então não é autobiográfico; é você buscar em você aquilo que experimentou e vivenciou durante toda a sua vida para colocar na ficção ou na obra literária que estiver fazendo.
Regis, você falou que a escolha de fazer o filme foi muito a junção do momento que vocês estavam vivendo. Mas o projeto também foi uma forma de criar uma memória pessoal para vocês?
Regis: Acabou sendo, mas não foi a intenção inicial. A intenção era o desejo. Não apenas o desejo de trabalhar com ele, era o desejo de eu fazer cinema. Eu já tinha feito dois documentários, mas não tinha feito nenhum filme de ficção. Tenho vários projetos em parceria com produtores, mas as coisas demoram a acontecer, dependem de uma série de questões. Então eu pensei: “Cara, não vou ficar esperando, vou fazer”. E a maneira que encontrei foi aquela. Eu não tinha verba nem nenhum dinheiro captado, então tive que lançar mão das coisas que tinha à disposição. Isso incluiu os cenários, que eram as nossas casas, e os carros, que eram os nossos. Enfim, tudo o que pudemos colocar para enriquecer o filme, eu usei. À medida que assumi a própria casa do Reginaldo como cenário, automaticamente fiz uma homenagem, porque não me privei de mostrar os objetos que fazem parte da vida dele. Tem ali uma referência, um pôster do filme O Assalto ao Trem Pagador. Como ele está muito jovem, quem não conhece a história não vincula, mas quem conhece sabe que acaba sendo uma homenagem. No fundo, há fotos minhas com ele e com o Marcelo nos abraçando, cartaz de outro filme que ele dirigiu… está tudo ali.
Acabou sendo um tributo a ele também porque o coloquei tocando violão, que é uma coisa que ele faz muito bem, ele é um músico. E acabou virando uma memória, pois finalizo o filme com aquelas imagens em Super 8 que ele e minha mãe fizeram quando eu apareço. Virou uma homenagem para toda a nossa família, porque há um trecho de O Assalto ao Trem Pagador, aparecem fotos dos meus avós paternos e do meu avô materno no álbum de casamento dele com a minha mãe. Usei esses elementos como se fossem do personagem para enriquecer o filme e poder contar a história. Eu não tinha verba para produzir a arte, não tinha um diretor de arte nem equipe. Por isso, como você muito bem observou, acabou sendo uma forma de memória da nossa história.
Por que a escolha estética de fazer o filme em preto e branco?
Regis: Isso foi uma ideia que tive depois. Pensei: “Poxa, esse personagem é analógico, acho que o preto e branco vai combinar muito com ele”. Há também uma questão de que existe um preconceito com o preto e branco. As pessoas logo descartam, dizem: “Ah, não gosto de filme em preto e branco, não vou ver”. Como estamos falando de pessoas mais velhas que são descartadas de alguma forma, existe uma metáfora aí: olha, o preto e branco pode ser legal. Assim como as pessoas mais velhas têm coisas a acrescentar, podem ensinar muita coisa e continuar sonhando, criando e tendo projetos. A escolha foi nesse sentido. Mas acho que esteticamente também funcionou, ficou muito bonito.
Os Faria seriam a clássica “família de circo”, já que o longa ainda conta com o Marcelo e o Candé atuando no longa. Como essa paixão pela arte foi sendo inserida no contexto familiar desde quando eles eram crianças?
Reginaldo: Olha, essa paixão já existe comigo desde quando eu era garotinho. O meu irmão [Roberto Faria] já estava no cinema e me usava como modelo. Ele fazia fotografias minhas subindo montanha, vendendo água, sedento, e me dirigia nessas fotos. Isso é uma coisa que vem desde as nossas raízes, até mesmo do meu pai, que tocava flauta e passava as notas para eu tocar na gaita, além da presença do violão. Tudo isso veio. Quando os meus filhos nasceram, já encontraram esse ambiente. Lembro-me de levarmos um deles bebê para os estúdios de cinema, e ele ficava deitado embaixo do tripé de uma câmera esperando a gente terminar de filmar. Tudo isso já eram os elementos necessários para que déssemos a partida para esse filme. Como você citou muito bem, é uma família de circo.
Se não me engano, até as crianças são netas do senhor —, o que leva dessa experiência?
Reginaldo: Para mim, fui arrebatado por uma enorme emoção, um enorme sentimento e uma grande paixão. Foi o prolongamento do amor que a gente tem, porque nós somos apaixonados por nós mesmos — de uma forma até meio narcisista, mas é a verdade, porque é o nosso núcleo. A gente se gosta muito em todos os sentidos, não só fazendo cinema, mas nas outras atividades também. É mais ou menos essa emoção. É como se você tirasse um retrato da família na época de revelar, esperasse o tempo de ficar pronto e depois o colocasse na parede para admirar. Essa admiração está aí, estamos vendo ela agora através do resultado e de outras pessoas que não são da nossa família, que admiram o que nós admiramos.
Regis: É muito legal ver hoje as crianças, que na época estavam bem mais novas, com três anos ou menos. Como tínhamos um projeto sem dinheiro, fui escrevendo e já pensando em quem eu poderia usar. Meus irmãos se prontificaram a fazer com muito amor. Eu disse que precisava levar a Filipa, a Sofia, os meus filhos… Eles foram meio levados para fazer e curtiram, mas acho que hoje têm uma percepção mais concreta do que fizeram depois de ver pronto. A própria Vanessa também participa, acaba sendo tudo em família. Isso reverbera neles. Você vê hoje a Filipa e a Sofia, já com 15 anos, falando da experiência de ter vivido aquilo, e é tão comovente. Meu filho que hoje tem 8 anos, que era pequenininho, e minha filha que tem 10, já falam da alegria de ter participado. Na época eles não sabiam muito o que estavam fazendo, mas hoje conseguem dimensionar, até pelo alcance do filme e pelo que ele está reverberando nas pessoas. A maioria das pessoas que vem falar com a gente vem tocada de alguma forma.
O filme é um retrato muito sensível sobre família, mas também sobre o envelhecimento. Como é encarar o envelhecimento?
Reginaldo: Eu não vejo, eu sinto. Estou sempre sentindo, mas a gente sente de uma forma positiva. Não é aquela coisa de se anular porque o tempo acabou. Na minha época, as pessoas diziam: “Fulano fez 60 ou 70 anos, já pode se aposentar”. Quando aceitavam esse tipo de princípio, elas morriam, porque interrompiam toda a vitalidade e toda a possibilidade de viver por muitos anos criando e fazendo coisas. Eu sinto esse envelhecimento dentro de um rejuvenescimento em mim mesmo. São ciclos que se acabam e ciclos que começam. Eu estou vivo, estou inteiro, estou no meu movimento, criando e tentando fazer. É lógico que tenho minhas angústias, isso é inevitável e ninguém consegue controlar, pois faz parte da existência. Mas a luta continua no bom sentido; estou lutando porque faz parte da vida.
Quais angústias exatamente?
Reginaldo Faria: Não dá para definir a angústia, ela não tem definição. Não posso dizer que a minha angústia é porque estou velho e o meu músculo ficou mais frágil, não é isso. É uma coisa muito mais poderosa que não dá para definir.
Tem outros projetos em televisão ou cinema em vista?
Reginaldo Faria: Fui chamado agora para fazer a próxima novela das 7 da Globo. Eles vão começar a gravar em junho ou julho, e eu devo entrar em agosto.
