O que é mais insuportável: o oba-oba da CazéTV ou a corneta dos comentaristas?

A seleção brasileira vive uma situação curiosa nesta Copa do Mundo. Ela parece incapaz de produzir uma reação moderada. Se joga bem durante vinte minutos, já aparece quem a coloque como favorita ao título. Se passa dez minutos acuada pelo adversário, surgem os alarmistas prontos para explicar por que esse time jamais chegará longe. No meio do cabo-de-guerra entre a euforia e o pessimismo desaparece aquilo que deveria orientar a análise jornalística: o respeito aos fatos.
A CazéTV se tornou o símbolo de um jeito novo de transmitir futebol, mais espontâneo, mais emocional e voltado ao entretenimento. Não há nada de errado nisso. O problema começa quando a emoção atropela a razão. E, confesso, chega uma hora em que dá preguiça ouvir tantos elogios à seleção. Todos sabemos que faz parte do jogo manter o público animado, transformar cada boa atuação em espetáculo e alimentar a sensação de que estamos diante de um time irresistível. Funciona muito bem para fisgar a audiência, mas uma dose de bom senso não faz mal a ninguém.
Do outro lado está um grupo muito menos divertido. São aqueles eternos descontentes – e, acredite, eles são muitos – que exercitam a insatisfação na posição de comentaristas. O Brasil venceu? O adversário era fraco. Dominou a partida? Ainda não apareceu um rival de verdade. Criou chances? Desperdiçou oportunidades demais. Carlo Ancelotti mudou o time e venceu o jogo? Foi sem querer.
Há um comportamento comum no jornalismo – e não apenas no esportivo – que explica parte desse fenômeno. Depois de formular uma tese, muita gente passa a torcer para que a realidade não a desminta. Quem passou meses afirmando que a seleção era um desastre tem dificuldade para admitir que Ancelotti talvez esteja conseguindo organizar a equipe. Não porque isso seja impossível, mas porque reconhecer a mudança exige rever convicções. E poucas coisas são mais difíceis para um comentarista esportivo do que abandonar uma opinião da qual ele próprio se tornou refém.
A seleção, evidentemente, tem limitações. Continua longe de ser um time exuberante, alterna momentos de intensidade com períodos de apatia e enfrentará dificuldades muito maiores conforme a Copa avançar. Seria ingenuidade ignorar esses problemas. Mas é miopia fingir que nada mudou. O Brasil parece hoje mais organizado, mais seguro e mais consciente do que pretende fazer em campo do que estava há poucos meses. Isso não garante o título. Apenas mostra evolução – e, convenhamos, evolução também é notícia.
Surpreende a incapacidade de alguns comentaristas de reconhecer nuances (e a vida, com o perdão da filosofia de botequim, é cheia de nuances). Parece obrigatório escolher um lado: ou a seleção voltou a ser a melhor do mundo, ou continua sendo um caso perdido. Não existe espaço para a hipótese mais plausível, que é a de um time em construção, com defeitos evidentes, virtudes crescentes e margem para melhorar.
Posso estar redondamente enganado, claro – o futebol adora humilhar certezas, assim como as estatísticas costumam desmoralizar os economistas. Se o Brasil for goleado pela Noruega, aceitarei as vaias e estarei de prontidão para apontar as falhas grosseiras do time. Mas, se vencer com folga, convém admitir que a seleção não é o desastre que os chatos de galochas gostariam que fosse.
A Copa fica muito mais interessante quando abandonamos o ufanismo ingênuo ou a implicância profissional. Afinal, entre pintar o Brasil como favorito incontestável e tratá-lo como um time à deriva existe um território chamado realidade. E, por incrível que pareça, é ali que mora o melhor do jornalismo.
