maioria das vítimas não tinha medida protetiva

maioria das vítimas não tinha medida protetiva

A principal ferramenta criada pela Lei Maria da Penha para proteger mulheres em situação de violência doméstica ainda não consegue alcançar a maioria das vítimas de feminicídio em Goiás. Em resposta à reportagem do Mais Goiás, a Polícia Militar de Goiás (PMGO) informou que aproximadamente 90% das mulheres assassinadas por razões de gênero em 2025 não possuíam medida protetiva de urgência vigente no momento do crime.

O dado chama a atenção porque revela que a maior parte dessas mulheres morreu antes mesmo de conseguir acessar a rede de proteção oferecida pelo Estado. Na avaliação de especialistas, o problema não está apenas na existência dos mecanismos legais, mas na dificuldade que muitas vítimas enfrentam para denunciar o agressor enquanto a violência ainda está nos primeiros estágios.

Nos últimos anos, Goiás ampliou significativamente o número de medidas protetivas concedidas. Em 2025, o Poder Judiciário deferiu 27.446 decisões desse tipo. Apenas nos seis primeiros meses de 2026, outras 14.213 já haviam sido concedidas, demonstrando que cada vez mais mulheres procuram auxílio judicial para interromper situações de violência.

Ao mesmo tempo, cresceram os casos de descumprimento dessas determinações. Em 2025, foram registrados 5.855 episódios em que agressores desobedeceram medidas impostas pela Justiça, aumento de 15,6% em relação ao ano anterior. Para especialistas, o dado reforça que a medida protetiva é fundamental, mas precisa ser acompanhada por fiscalização eficiente e por uma rede de apoio capaz de proteger a vítima de forma contínua.

Rede de proteção foi ampliada

Em nota encaminhada ao Mais Goiás, a Polícia Militar informou que vem reforçando sua estrutura especializada para combater a violência contra a mulher. Entre as principais ações está a criação do Comando de Policiamento Maria da Penha, responsável por coordenar as atividades desenvolvidas em todo o estado.

A corporação também expandiu os Batalhões Maria da Penha para municípios como Rio Verde, Cidade de Goiás e Águas Lindas de Goiás, além de implantar uma Agência Local de Inteligência voltada ao monitoramento de casos considerados mais sensíveis.

Segundo a PMGO, aproximadamente 116.365 acompanhamentos de medidas protetivas foram realizados até junho de 2026. A corporação também disponibiliza o aplicativo Mulher Segura, ferramenta que aproxima vítimas das forças de segurança e facilita o acionamento da polícia em situações de emergência.

De acordo com a Polícia Militar, o fortalecimento da rede de proteção busca impedir que episódios de violência doméstica evoluam para tentativas de feminicídio ou assassinatos consumados. A corporação reforça que qualquer situação de violência deve ser comunicada imediatamente pelo telefone 190 para que o atendimento seja realizado o mais rapidamente possível.

Por que tantas mulheres não conseguem denunciar?

Para a psicóloga Noemi Cappellesso, formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e especialista em Terapia Familiar e de Casal, o fato de tantas vítimas nunca terem solicitado uma medida protetiva está diretamente relacionado ao funcionamento da violência doméstica.

Segundo ela, muitas mulheres não deixam de denunciar por desconhecimento da lei, mas porque vivem sob intensa manipulação emocional, medo constante e dependência financeira.

“Quem está fora do relacionamento costuma imaginar que basta procurar uma delegacia. Mas quem vive essa realidade enfrenta ameaças diárias, medo de morrer, preocupação com os filhos e, muitas vezes, não possui condições financeiras para recomeçar a vida. Essa decisão é muito mais complexa do que parece.”

A especialista explica que o agressor costuma isolar a vítima da família e dos amigos, fazendo com que ela perca justamente a rede de apoio que poderia incentivá-la a buscar ajuda.

“Quando finalmente pensa em denunciar, muitas mulheres acreditam que não terão para onde ir, quem possa ajudá-las ou como sustentar os filhos. Esse sentimento de desamparo faz com que muitas permaneçam em relações extremamente perigosas.”

Segundo Noemi, outro fator importante é a esperança de mudança.

“O agressor normalmente alterna momentos de violência com pedidos de desculpas, promessas de que irá mudar e demonstrações de carinho. Isso faz a vítima acreditar que aquele comportamento foi um episódio isolado e que o relacionamento poderá voltar a ser como era antes.”

Na avaliação da psicóloga, esse ciclo emocional explica por que tantas mulheres permanecem durante anos em relações abusivas antes de procurar ajuda.

Denúncia precoce pode salvar vidas

Embora a medida protetiva seja um dos principais instrumentos previstos na Lei Maria da Penha, especialistas destacam que a proteção da mulher começa muito antes da decisão judicial.

Reconhecer os primeiros sinais da violência, conversar com familiares, procurar serviços de assistência social, buscar atendimento psicológico e registrar as primeiras ocorrências são atitudes que podem impedir que a situação evolua para casos mais graves.

Para Noemi Cappellesso, romper o silêncio continua sendo a medida mais importante.

“A violência doméstica não desaparece sozinha. Na maioria das vezes, ela aumenta com o passar do tempo. Quanto mais cedo a mulher conseguir apoio, maiores serão as chances de interromper esse ciclo.”

Ela também ressalta que familiares e amigos exercem papel decisivo nesse processo.

“Quem sofre violência precisa ser acolhido, nunca julgado. Muitas mulheres retornam ao relacionamento justamente porque não encontram apoio suficiente para reconstruir suas vidas.”

Embora Goiás tenha ampliado sua rede de atendimento, fortalecido os batalhões especializados e aumentado o acompanhamento de medidas protetivas, o dado informado pela Polícia Militar ao Mais Goiás demonstra que ainda existe um desafio anterior à atuação do Estado: fazer com que as mulheres consigam pedir ajuda antes que a violência alcance seu desfecho mais extremo.

Para especialistas, ampliar o acesso à informação, incentivar a denúncia precoce e fortalecer a rede de acolhimento continuam sendo as principais estratégias para impedir que novas mulheres passem a integrar as estatísticas do feminicídio em Goiás.

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Fonte Original Mais Goias

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