Investidor estrangeiro tem maior fuga semanal da Bolsa em 18 anos

O investidor estrangeiro retirou 12,6 bilhões de reais da Bolsa brasileira no acumulado da semana de 10 a 14 de agosto, segundo dados do site Dados de Mercado consultados por VEJA Negócios nesta quarta-feira, 19. O montante representa a maior saída semanal de capital estrangeiro desde 2008, ano em que aconteceu a crise do subprime nos Estados Unidos. Para analistas e gestores, o movimento ocorre em meio à proximidade das eleições e às incertezas sobre o cenário fiscal brasileiro a partir de 2027.
Werner Roger, gestor da Trígono Capital, afirma que o mercado continua atento às questões fiscal e geopolítica, que podem pressionar os juros globais e manter as taxas elevadas no Brasil. “Há outros riscos, como o próprio El Niño, que tende a reacender a inflação dos alimentos e pode levar o IPCA para fora do teto da meta”, afirma.
Segundo Roger, esse conjunto de fatores contribui para manter a Selic em patamar elevado, o que, na avaliação do gestor, vem pressionando a atividade econômica brasileira. Ele cita como exemplo o aumento dos pedidos de recuperação judicial nos últimos anos, incluindo casos de grandes empresas como Pão de Açúcar, Raízen e, mais recentemente, Casas Bahia.
“Os resultados financeiros das empresas tendem a ser piores neste terceiro trimestre, o que deixa o mercado arisco e faz com que o investidor estrangeiro prefira sair do país”, argumenta.
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, pondera que o volume de saída é menos expressivo quando convertido para dólares. Segundo ele, os 12,6 bilhões de reais equivalem a aproximadamente 2,5 bilhões de dólares.
“Isso assusta muito o Brasil, pois essa debandada machuca muito a Bolsa brasileira. No entanto, esse valor em dólares é muito pequeno quando comparado com o tamanho do mercado americano”, explica.
O que esperar da Bolsa nos próximos dias?
Os especialistas consultados projetam um cenário de maior volatilidade para o Ibovespa à medida que as eleições se aproximam. Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, afirma que o mercado brasileiro deve continuar pressionado enquanto o fluxo estrangeiro permanecer negativo.
“Qualquer sinal de maior clareza no cenário político ou de melhora nas perspectivas fiscais pode reduzir o ritmo das saídas, mas, enquanto a incerteza eleitoral dominar, a tendência é de cautela e possíveis novas pressões vendedoras”, afirma.
Já Sant’Anna, da Axia Investing, avalia que o Ibovespa pode devolver parte dos ganhos acumulados no ano. Por volta das 11h desta quarta-feira, 19, o índice subia 1,99%, aos 169.637,83 pontos. No acumulado de 2026, a alta era de aproximadamente 5%.
Para o especialista, a valorização registrada no pregão ocorre após uma sequência de 11 sessões consecutivas de queda e não necessariamente representa uma mudança de tendência.
“A possibilidade de reeleição do presidente Lula desagrada o mercado pelo lado fiscal. Então, as questões políticas e fiscais devem drenar a Bolsa nos próximos dias e meses, por isso, enxergo a possibilidade de a Bolsa perder toda a alta acumulada do ano”, conclui Sant’Anna.
