Como o escritor Harlan Coben virou uma mina de ouro para a Netflix

Como o escritor Harlan Coben virou uma mina de ouro para a Netflix

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“Vocês vão ficar chocados com o final”, avisa o escritor e produtor Harlan Coben, 64 anos, sobre a minissérie em oito episódios Eu Vou Te Encontrar, adaptação de seu livro de mesmo nome que acaba de chegar à Netflix. Ao apontar que o desfecho será chocante, o americano sabe que não poderá ser acusado de infringir as regras do spoiler: mestre das reviravoltas, Coben transformou o recurso literário em um jogo íntimo com os leitores, que tentam desvendar os mistérios de suas obras, enquanto são enganados ao longo das páginas pelo próprio escritor. Os finais sempre surpreendem, sejam eles bons ou forçados. A fórmula se revelou adequada para a televisão: Eu Vou Te Encontrar é a 13ª produção de um acordo multimilionário do autor com a Netflix.

SUCESSO - A Grande Ilusão: programa é o mais visto do autor no streaming
SUCESSO - A Grande Ilusão: programa é o mais visto do autor no streaming (Vishal Sharma/Netflix)

Na trama, David, interpretado por Sam Worthington, foi condenado injustamente a prisão perpétua pelo assassinato brutal do próprio filho. Após cinco anos na prisão, ele recebe a visita da cunhada Rachel (Britt Lower) munida de uma foto: na imagem retirada das redes sociais, um garoto idêntico ao filho de David aparece ao fundo. Diante da possibilidade de que o menino esteja vivo, ele busca fugir da prisão para encontrá-lo. A sinopse carrega muitos dos ingredientes que compõem a fórmula de apelo do escritor: logo no primeiro episódio, uma revelação chocante move a história e fisga o público, enquanto o protagonista está com as mãos atadas e mal sabe por onde começar. Em seguida, mortes inesperadas e um emaranhado de novos personagens fazem com que todos sejam suspeitos de uma conspiração que vai além dos muros de uma família aparentemente comum. Estrutura semelhante surge em outras obras dele, como A Grande Ilusão (2024), sua série de maior sucesso, com 98,2 milhões de visualizações em três meses no ar — prazo que a Netflix delimita para cravar a audiência de um título. A história começa com uma mulher testemunhando o assassinato do marido para, dias depois, vê-lo em casa brincando com a filha através de uma câmera de segurança. Ele está vivo ou é coisa da cabeça dela? A resposta está nos oito episódios que se seguem.

ESTOPIM - Foto misteriosa: criança semelhante a garoto morto move a trama
ESTOPIM - Foto misteriosa: criança semelhante a garoto morto move a trama (./Netflix)

Nesse caminho, Coben já vendeu 100 milhões de livros, de uma obra que soma 37 romances — lançamentos enfileirados um por ano, desde o início de sua carreira, em 1990. Tão impressionante quanto os números que atestam sua produtividade é a eficiência do escritor em reter o interesse em um filão competitivo, no qual fórmulas são fadadas ao desgaste. Segundo Coben, seu segredo para continuar em alta não está no formato, com viradas mirabolantes e segredos a cada esquina, mas na capacidade de criar laços entre os leitores, ou espectadores, com os personagens. Em Eu Vou Te Encontrar, o protagonista David causa empatia, enquanto passa longe de ser o herói implacável: ele é dependente dos amigos que o ajudam, desde um policial até a cunhada — que é quem de fato desenrola a investigação.

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PROLÍFICO - O escritor: obra soma 37 livros, um por ano, lançados desde 1990
PROLÍFICO – O escritor: obra soma 37 livros, um por ano, lançados desde 1990 (Shane A. Sinclair/Getty Images)

Em seu processo de escrita, Coben costuma imaginar o final antes de tudo e tece os acontecimentos rumo ao desfecho, limando pontas soltas. Inquieto, ele dispensa rituais e lugares fixos para escrever. Geralmente, instala-se em cafeterias ou bibliotecas. Já chegou a escrever um livro inteiro em um supermercado próximo à escola de um dos filhos. Ficava por lá até a hora da saída do rebento. Mais curioso é o caso do thriller Não Fale com Estranhos (2020), seu primeiro hit da Netflix: ele passou três semanas andando de Uber, pois se sentia inspirado para escrever no banco do passageiro. A relação com o trabalho beira o tóxico — tanto que ele vira e mexe fala que vai se aposentar. Ninguém acredita, nem ele mesmo. Afinal, eis aqui uma fábrica de suspense a todo vapor.

Com reportagem de Beatriz Haddad

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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