Brasil pode transformar florestas em ativo econômico global, diz estudo

Brasil pode transformar florestas em ativo econômico global, diz estudo

A discussão sobre as florestas brasileiras foi dominada por uma lógica de contenção de danos. O foco esteve no combate ao desmatamento, na preservação da biodiversidade e nas metas de redução de emissões. Porém, a segunda edição do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global propõe olhar para as florestas não apenas como patrimônio ambiental, mas como um ativo econômico estratégico para o país.

O relatório, coordenado por instituições como Instituto Arapyaú, Agroicone, Itaúsa, Ibá, Imazon e Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação).

A tese central do documento é que o Brasil possui um dos maiores estoques de capital natural do planeta, mas ainda não encontrou mecanismos capazes de converter plenamente esse patrimônio em riqueza reconhecida pelo mercado financeiro e pela economia real. O estudo argumenta que o valor das florestas vai muito além dos créditos de carbono e passa por serviços como segurança hídrica, estabilidade climática, proteção dos solos, resiliência produtiva e segurança alimentar.

“Existe uma oportunidade enorme de considerar as florestas como uma classe de ativos, como acontece em outros países. Se você olha para Estados Unidos, Canadá ou alguns países da Europa, as florestas são ativos conhecidos, monitorados e financiados. O Brasil tem soluções florestais extremamente robustas e precisa reconhecer o valor econômico desse patrimônio”, afirma Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú e um dos coordenadores do estudo.

A mudança de visão tem implicações diretas para o agronegócio. Os autores defendem que a floresta pode se tornar um ativo capaz de gerar renda, valor patrimonial e competitividade. A ideia parece contraintuitiva em um país onde a relação entre produção agropecuária e conservação ambiental costuma ser retratada como um conflito permanente. O relatório, porém, sustenta justamente o contrário. Segundo os autores, cerca de 215 milhões de hectares de vegetação nativa são preservados dentro de propriedades rurais privadas, por meio das reservas legais e das áreas de preservação permanente exigidas pelo Código Florestal. A área equivale a aproximadamente um quinto do território europeu.

“A oportunidade está em transformar esse patrimônio em um ativo econômico. E, para isso, o produtor não precisa criar esse ativo nem fazer grandes investimentos. Esse patrimônio já existe. O desafio é reconhecer seu valor e criar mecanismos para que ele seja valorizado econômica e financeiramente”, diz Waack.

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No lugar da lógica do conflito entre o agro e a conservação ambiental, o estudo sugere um conceito chamado de “contínuo florestal”, no qual diferentes usos da terra, como áreas produtivas, florestas plantadas, reservas legais, unidades de conservação e terras indígenas, formam um sistema integrado.

“O produtor rural que mantém vegetação nativa sabe que ela é importante para sua propriedade. Ele sabe que ela ajuda a conservar a água e que uma área totalmente convertida tende a enfrentar mais dificuldades ao longo do tempo. O que estamos dizendo é que esse ativo existe, apoia a produção sustentável e precisa ser valorizado. Porém, esse valor ainda não é recebido pelos produtores da forma como poderia ser”, afirma Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone e um dos coordenadores do estudo.

Além do mercado de carbono

Um dos pontos mais interessantes do estudo é a tentativa de ampliar o debate para além do mercado de carbono. Embora os créditos associados à redução ou remoção de emissões tenham se tornado o símbolo da economia verde, os autores argumentam que as florestas oferecem uma gama muito maior de serviços econômicos.

A água surge como um dos exemplos mais evidentes e subestimados. “Não é possível imaginar o agronegócio sem água, nem as cidades sem água. O Brasil é um dos maiores detentores de água doce do planeta, justamente concentrada em áreas florestadas. Esse é um patrimônio de valor extraordinário e que ainda não é adequadamente reconhecido”, afirma Waack.

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O relatório cita um estudo internacional publicado em fevereiro de 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera cerca de US$ 20 bilhões por ano em chuvas para a agricultura nacional. O trabalho, que contou com participação de pesquisadores brasileiros, estimou que cada hectare de floresta amazônica produz o equivalente a US$ 59,40 anuais em precipitação para atividades agrícolas.

O conceito de infraestrutura pode ajudar a explicar o papel econômico das florestas. Assim como estradas, portos e linhas de transmissão sustentam a atividade econômica, os ecossistemas também fornecem serviços indispensáveis para a produção agrícola, o abastecimento urbano e a geração de energia. A diferença é que esses serviços raramente aparecem nos balanços empresariais ou nas contas nacionais.

“Floresta e capital natural são cada vez mais vistos como uma infraestrutura fundamental. Elas são essenciais para a resiliência climática, para o fornecimento de água à agricultura e para a geração de energia hidrelétrica. As florestas prestam serviços ecossistêmicos de enorme valor econômico”, diz Waack.

Como monetizar

O relatório argumenta que a próxima etapa dessa transformação passa pela criação de mecanismos capazes de remunerar os serviços prestados pelas florestas. Isso inclui mercados de carbono, pagamentos por serviços ambientais, incentivos financeiros e instrumentos de crédito.

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“Existe um grande desafio regulatório e institucional. Precisamos caracterizar tecnicamente esses ativos, desenvolver métricas de mensuração e criar mecanismos de monetização. O mundo está avançando nessa direção, e o Brasil tem condições de ocupar uma posição de liderança”, afirma Waack.

Uma das projeções citadas no relatório estima que atividades ligadas à restauração florestal poderão movimentar até US$ 141 bilhões no Brasil até 2050, considerando receitas associadas a créditos de carbono, biomateriais, alimentos e bioenergia.

Para os autores, esse movimento já começou a ganhar tração dentro do próprio mercado financeiro. Os autores afirmam que grandes investidores como Itaú, Santander, Rabobank, Pátria, Gávea, Dynamo e outros importantes operadores do mercado financeiro já estão investindo diretamente em operações florestais.

A entrada desses investidores é vista pelos autores como um sinal de que a agenda florestal começa a migrar da esfera ambiental para a econômica. O próprio agronegócio já começa a perceber essa mudança.

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“O agronegócio está sentado sobre um patrimônio que o mundo inteiro valoriza. O desafio agora é criar as políticas públicas e os mecanismos necessários para transformar esse patrimônio em valor econômico. Existe uma percepção crescente de que esse capital natural pode valer muito mais do que vale hoje”, afirma Lima.

A floresta dentro da fazenda

Parte desse potencial está em áreas que hoje produzem pouco ou quase nada. O estudo argumenta que milhões de hectares de terras degradadas ou de baixa aptidão agrícola poderiam ser incorporados a projetos florestais sem competir com a produção de alimentos.

“Quando um investidor propõe plantar árvores nessas áreas, o produtor passa a ter uma valorização do seu patrimônio. Ele transforma uma área pouco produtiva em um ativo capaz de gerar receita”, argumenta Waack.

Ao mesmo tempo, ganha tração o movimento de modelos produtivos que integram árvores, lavoura e pecuária.

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“Há uma demanda crescente por produtos de baixo carbono. Isso vale para proteína animal, para grãos e para outras commodities. Em muitos casos, essa produção passa pela integração entre agricultura, pecuária e florestas. São modelos que já estão crescendo e que ajudam a aproximar produção e conservação”, afirma.

Florestas como ativo econômico

Ao final, o estudo propõe uma mudança de narrativa. Em vez de enxergar as florestas apenas como algo que precisa ser protegido, os autores defendem que elas sejam incorporadas à estratégia de desenvolvimento do país.

“O Brasil precisa continuar enfrentando o desmatamento. Mas o estudo procura mostrar algo além disso: que as florestas são um dos elementos mais importantes da agenda climática mundial e que o país tem condições únicas para liderar esse processo. Temos o capital natural, temos tecnologia, temos experiência e temos um arcabouço legal consolidado. Agora precisamos olhar para esse tema também sob a ótica do desenvolvimento econômico”, defende Waack.

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