Andy Burnham vira líder do Partido Trabalhista e será o próximo premiê britânico

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Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester de 2017 a 2026, foi nomeado novo líder do Partido Trabalhista britânico nesta sexta-feira, 17, antes de suceder Keir Starmer como primeiro-ministro na próxima segunda-feira, anunciou o partido em uma conferência extraordinária.
“Sem nenhum outro candidato elegível nomeado, é, portanto, uma honra declarar que o líder devidamente eleito do Partido Trabalhista é Andy Burnham”, anunciou a ministra do Interior, Shabana Mahmood, presidente do comitê executivo do partido.
Burnham, porém, já era tido como herdeiro aparente desde que venceu uma eleição extemporânea para o Parlamento britânico, convocada sob medida em meados de junho para abrir seu caminho para a liderança. Starmer, poucos dias depois, anunciou a renúncia demandada por mais de 100 deputados trabalhistas.
Pelos trâmites normais, teria que disputar a presidência do partido com outros candidatos, mas nem precisou — na pressa de tirar o impopular atual premiê do caminho e salvar o governo, 349 dos 403 deputados trabalhistas o apoiaram, tornando matematicamente impossível outra candidatura.
Quem é Burnham
Nos últimos anos, Burnham se tornou discretamente um dos políticos mais populares do país. Após servir como deputado por 16 anos nos governos de Tony Blair e Gordon Brown – período em que ascendeu ao cargo de ministro da Saúde e concorreu duas vezes, sem sucesso, à liderança do Partido Trabalhista – ele deixou Westminster para assumir o novo cargo de prefeito de Manchester.
Ele esteve profundamente envolvido na campanha por justiça para as vítimas da tragédia do estádio de Hillsborough em Sheffield, onde quase 100 torcedores do Liverpool, o grande rival local da sua equipe, Everton, morreram em 1989. O político trabalhista tornou-se então uma das figuras políticas mais empenhadas na busca pela verdade e responsabilização nessa tragédia, o que lhe rendeu enorme respeito entre os torcedores de ambos os clubes em sua cidade natal.
Um bom comunicador, considerado carismático e instintivo, conseguiu preservar sua popularidade mesmo com a turbulência em sua sigla. Cultivou uma imagem de político acessível e pragmático, profundamente conectado às preocupações cotidianas das comunidades do norte da Inglaterra. Na chefia de Manchester desde 2017, se manteve à margem das disputas internas que consumiram o Partido Trabalhista ao longo e após a liderança de Jeremy Corbyn, que representava a ala mais à esquerda da legenda.
Por ter sido reeleito três vezes prefeito de Manchester, Burnham ganhou o apelido de “rei do norte”. Durante seu mandato, a economia da cidade cresceu exponencialmente e ele supervisionou melhorias na rede de transporte público, habitação, além de se tornar um defensor ferrenho da descentralização do poder no Reino Unido.
Sua popularidade disparou, especialmente, em 2020 durante a pandemia de covid-19, quando ele entrou em conflito público com o governo conservador de Boris Johnson sobre o financiamento para regiões sob rígidas restrições sanitárias. Essa disputa o tornou, para muitos, um símbolo do norte da Inglaterra, que exigia mais atenção e recursos de Londres.
Desafios
Hoje, Burnham é associado à esquerda moderada do Partido Trabalhista, segundo analistas — um pouco mais à esquerda do que Starmer, mas mais à direita do que Corbyn. Sua posição pode ser sintetizada no conceito de “mancheserismo”, termo que se refere ao seu período como prefeito de Manchester: uma espécie de socialismo pró-negócios, com controle público dos serviços essenciais em reversão da tendência de privatização, e uma cultura pró-empreendedorismo em termos que beneficiam diretamente a classe trabalhadora.
É fato que ele injeta uma necessária dose de otimismo em sua sigla. Starmer, lçado ao comando da nação em uma eleição em 2024 que os trabalhistas ganharam de lavada, trucidando os rivais conservadores, provou ser um fracasso como líder. Sem carisma, sem habilidade e sem aliados, não conseguiu pôr de pé reformas econômicas necessárias, mas penosas, e ainda se viu sugado pelo lamaçal de Jeffrey Epstein ao nomear para a embaixada em Washington um diplomata próximo do financista americano explorador de meninas. O golpe derradeiro foi a retumbante derrota nas eleições regionais de maio para a direita radical de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit que aproveitou muito bem o vazio de poder para angariar apoio a seu Reform UK.
Não está claro, porém, como o “socialismo pró-negócios” conseguirá reverter o declínio do Reino Unido, onde a previsão é de um minguado avanço de 1% do PIB em 2026. Em um único e breve pronunciamento ao anunciar sua candidatura a líder do Partido Trabalhista, Burnham não mencionou temas concretos e urgentes, como o déficit público e a questão da imigração ilegal, motor da extrema direita. Delineou uma vaga “missão de dez anos para elevar o padrão de vida da população”; mas o rei do norte tem três anos, data-limite para a próxima eleição geral, para provar que não é mais do mesmo.
