A ascensão, a queda e a reconstrução de Marconi Perillo
A melhor forma de se contar a história do ex-governador e ex-senador Marconi Ferreira Perillo Júnior, de 63 anos, é de hoje para trás. Marconi é um político que atualmente luta para reconstruir a própria reputação perante o eleitorado e para se recolocar entre os principais players da política de Goiás, oito anos depois do episódio mais desgastante da vida dele.
O fato que soterrou a carreira de Marconi aconteceu no dia 28 de setembro de 2018, quando a Polícia Federal deflagrou a operação Cash Delivery, cumpriu mandados de busca em endereços ligados a ele e prendeu o então presidente da Agência Goiana de Obras e Transportes (hoje Goinfra), Jayme Rincón.
Marconi tinha se desincompatibilizado do cargo de governador seis meses antes, colocando fim ao seu quarto mandato, e era candidato a senador pelo PSDB.
A operação Cash Delivery se propunha a apurar indícios – colhidos a partir de delações de dirigentes da Odebrecht – de que o político teria recebido R$ 12 milhões em propina para campanhas eleitorais. A 11ª Vara de Justiça Federal em Goiás expediu 14 mandados de busca e cinco de prisão temporária para serem executados em Aparecida de Goiânia, Pirenópolis, Aruanã, Campinas (SP) e na cidade de São Paulo.
Cash Delivery e a eleição de Marconi
Segundo as investigações, foram R$ 2 milhões em 2010 e R$ 10 milhões em 2014. Na época, as autoridades disseram não ter solicitado a prisão do ex-governador porque ele era candidato ao Senado e, portanto, era protegido pela legislação eleitoral. Além de Jayme, foram presos o filho do presidente da Agetop, Rodrigo Godoi Rincón; o policial militar Márcio Garcia de Moura, motorista de Jayme; o empresário Carlos Alberto Pacheco Júnior e o advogado Pablo Rogério de Oliveira.
Marconi tinha 29% das intenções de voto em pesquisa Ibope divulgada sete dias antes da operação. No dia 7 de outubro, perdeu a eleição com 7,55%. Três dias depois, foi preso pela Polícia Federal. A soltura ocorreu cerca de 24 horas depois.
A Justiça determinou o encerramento do processo em 2024. A decisão apontou constrangimento ilegal, demora excessiva nas investigações e falta de provas materiais robustas para a condenação. Todos os envolvidos sempre alegaram inocência. Assista à reportagem da TV Record sobre o assunto.
Operação Monte Carlo: os supostos vínculos de Marconi com Cachoeira
Outra investigação policial que envolveu Marconi aconteceu no terceiro mandato dele: a operação Monte Carlo, que jogou luz sobre a suposta ligação dele, do então senador Demóstenes Torres, do empresário Wilder Morais e dos deputados federais Sandes Júnior, Carlos Leréia e Stepan Nercessian, além do ex-deputado Leonardo Vilela, com o contraventor Carlinhos Cachoeira.
A Monte Carlo foi deflagrada em fevereiro de 2012. Trouxe à tona a suspeita de que o então governador teria feito um acordo com a Delta, intermediado por Cachoeira, para que a empreiteira recebesse em dia todos os valores que tivesse a receber do Estado. Haveria ainda um acordo envolvendo a venda da casa de Marconi no condomínio Alphaville, em Goiânia, para o contraventor.
Também veio a público a informação de que a então chefe de gabinete de Marconi, Eliane Pinheiro, teria recebido ligação de Cachoeira no começo de 2011 para ser avisada sobre os preparativos da PF antes da realização de uma operação que mirava fraudes em prefeituras de Goiás. A operação Apate foi deflagrada em maio daquele ano.
Em 2019, a Justiça suspendeu o processo com base em uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a suspensão de ações que usaram dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sem autorização judicial.
Eleição de 2010: Marconi contra aliados que ele ajudou a eleger
Para chegar ao terceiro mandato, período em que aconteceria a operação Monte Carlo, Marconi teve que passar por uma eleição dura em 2010. Além de enfrentar o seu Nêmesis, o já falecido Iris Rezende (MDB), o tucano teve contra ele aliados que havia ajudado a eleger para o governo quatro anos antes.
O inquilino do Palácio das Esmeraldas era, desde 2006, o governador Alcides Rodrigues, que havia sido vice de Marconi. Por razões que jamais foram realmente esclarecidas, os dois se afastaram gradativamente até chegar ao rompimento. Políticos de segundo escalão ligados ao ex-governador foram aos poucos removidos do núcleo duro do poder – frequentado por figuras como Jorcelino Braga, Eurípedes Pankão, Ney Nogueira e Francisco Gedda.
Alcides apoiou a candidatura de Vanderlan Cardoso, ex-prefeito de Senador Canedo, contra Iris e Marconi naquela eleição. Vanderlan teve 16,6% dos votos e ficou fora do segundo turno, que seria disputado por PMDB e PSDB e vencido pelo tucano.
Nos dois últimos mandatos dele como governador, Marconi investiu em programas de infraestrutura rodoviária, como o Goiás na Frente, entregou o Centro de Convenções de Anápolis e implementou a gestão de hospitais a partir das Organizações Sociais (OS), entre outras ações.
Tempo Novo: os dois primeiros mandatos de Marconi como governador
Os dois primeiros mandatos de Marconi como governador foram conquistados a partir de uma disputa eleitoral sem precedentes, e até hoje considerada o maior ponto de ruptura política da história de Goiás.
No começo de 1998, Marconi era um deputado federal que fazia parte de um grupo político minoritário em Goiás, também composto por figuras como Lúcia Vânia, Otávio Lage, Ronaldo Caiado e Nion Albernaz.
A missão desse grupo parecia impossível: fazer frente ao PMDB do então governador Maguito Vilela, que era bem avaliado, e da maior autoridade política de Goiás desde os anos 1980: Iris Rezende, que seria o candidato.
A princípio, a chapa seria encabeçada pelo deputado federal Roberto Balestra (PP). Mas a ideia não prosperou e Marconi reivindicou para si a tarefa de enfrentar Iris. Ele contratou o publicitário Paulo de Tarso, o mesmo que se consagrou com o tema ‘Lula lá’ em 1989, e se lançou candidato com o mote do ‘Tempo Novo’.
Dois episódios desgastaram o governador nesse período: o primeiro foi o Dossiê K, um livro escrito e publicado pelo então radialista Jorge Kajuru, que depois se elegeria senador, com acusações de corrupção e de intimidação de adversários. A obra foi recolhida e proibida de circular pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) durante o período eleitoral de 2002.
Também é relativa a esse período a acusação de que o tucano teria recebido R$ 2 milhões em propina para mudar leis estaduais em benefício de frigoríficos. Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 9 de julho de 2010, a suspeita foi levantada a partir de interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal no âmbito da operação Perseu, em 2004. 12 pessoas foram presas por sonegação fiscal de R$ 150 milhões praticada por frigoríficos, mesmo ramo dos empresários que teriam pagado propina a Marconi.
Nas interceptações, quatro empresários do ramo de frigoríficos discutiam subornar Perillo para que o governo de Goiás mudar leis estaduais em benefício do setor. Eles afirmaram que Marconi concederia, em troca de propina, benefício fiscal de 7% para os frigoríficos pagarem dívidas tributárias com o Estado, o que ocorreu 3 meses depois com a promulgação de uma lei, informou a “Folha”.
Os grampos incluem conversa do empresário Ney Padilha, preso pela PF, com Rodrigo Siqueira, ex-sócio da empresa Goiás Carnes. Marconi era assessorado por Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.
Em outro trecho, a PF relata conversa do empresário Gustavo Penasso (frigorífico Centro Oeste) com Mauro Suaiden em que discutem como “ajudar” Perillo com R$ 2 milhões, que seriam rateados pelas empresas.
Três dias depois, a PF interceptou telefonema em que Penasso diz que ao menos um empresário já teria pago a propina e que Rodrigo também iria pagar.
Marconi e o Tempo Novo: um fenômeno nas urnas
Marconi, ‘o moço da camisa azul’, usou o horário a que tinha direito na propaganda eleitoral gratuita de rádio e televisão para desconstruir a imagem do PMDB como o partido da ‘panelinha’, do atraso e dos escândalos do BEG, Caixego e Astrográfica.
Foi na campanha do ‘Tempo Novo’ que o ator Pedro Bismarck trouxe a Goiás o personagem ‘Nerso da Capitinga’, criado para o programa humorístico da Globo ‘Escolinha do Professor Raimundo’. Nerso brincava com ‘delossauros’ enquanto fazia metáforas relacionadas a Iris, Maguito, Dona Iris e quem mais estivesse no comando do PMDB.
A combinação de críticas ácidas com humor funcionou bem e Marconi virou contra Iris ainda no primeiro turno. Ao término do segundo, elegeu-se governador com cerca de 100 mil votos de frente. Em termos percentuais, foram 53,28% dos votos válidos contra 46,72% de Iris.
Quem orbitou e ainda orbita ao redor de Marconi
Eleito governador e empossado em janeiro de 1999, Marconi levou para o poder políticos que historicamente eram adversários de Iris, como Caiado, Otávio Lage e Balestra; ou que, em determinado momento, foram afastados por ele, como Lúcia Vânia e Nion.
Até o episódio da operação Cash Delivery, em 2018, Marconi esteve cercado praticamente pelas mesmas pessoas. Alguns de seus auxiliares que passaram mais tempo no primeiro escalão estão Antônio Faleiros, Leonardo Vilela, José Paulo Loureiro, José Taveira, José Carlos Siqueira, Fernando Cunha e Vilmar Rocha.
Esse núcleo se desarticulou durante os oito anos de administração do governador Ronaldo Caiado, mas nada impede que ele se reconstrua se houver perspectiva de vitória em um processo eleitoral.
O início de tudo: a admiração por Henrique Santillo
Marconi nasceu em Goiânia no dia 7 de março de 1963, mas cresceu e passou toda a infância e adolescência em Palmeiras de Goiás. Em entrevistas que já deu sobre o assunto, ele relata que veio de família humilde e, por ser o filho mais velho, trabalhou desde cedo como engraxate, vendedor de picolé e frutas, além de auxiliar no açougue da cidade.
Pouco antes de fazer 30 anos, Marconi foi apresentado a Henrique Santillo, médico pediatra que, antes de ser governador de Goiás, havia sido vereador e prefeito de Anápolis e deputado estadual.
Marconi formou-se na política sob a tutela de Santillo. Foi filiado ao PMDB entre 1982 e 1992, e nesse período presidiu o PMDB Jovem. A desfiliação aconteceu em 1992, quando o seu mestre rompeu com Iris. Todo o grupo santillista migrou para um partido chamado PST (criado por políticos que antigamente pertenciam à Arena).
Em 1993, Marconi migrou para o PP e, em 1995, ao PSDB, onde está até hoje.
O ex-governador já fez reiteradas homenagens a Santillo. “Ele foi uma inspiração para mim”, disse em 2022.
Resumo da trajetória de Marconi
- Nascido em Goiânia, mas viveu desde a infância em Palmeiras de Goiás.
- Entre 1988 e 1991 – assessor especial do governo Santillo.
- Entre 1991 e 1995 – deputado estadual.
- Entre 1995 e 1998 – deputado federal.
- Filiações partidárias: Filiado ao PMDB entre 1982 e 1992, ao PST entre 1992 e 1993, ao PP de 1993 a 1995 e ao PSDB desde 1995.
- 1º governo: 1999 a 2002
- 2º governo: 2003 a 2006
- 3º governo: 2011 a 2014
- 4º governo: 2015 a 2018
- Senador: 1º de fevereiro de 2007 a dezembro de 2010 (Cyro Miranda, suplente, herdou quatro anos de mandato porque Marconi foi eleito governador).
- 1º vice-presidente do Senado entre 2009 e 2010.
- Presidente nacional do PSDB de 2023 a 2025.
- Três irmãos: Antônio, Vânia e Tatiana.
- Foi presidente do PMDB Jovem.
- Rompeu com o PMDB e com Iris em 1992. Nesse ano, o grupo de Santillo saiu para o PST.
- Sexto deputado federal mais votado nas eleições de 1994.
- Eleito governador aos 35 anos.
