As lições de vida e de psicologia do herói de ‘A Odisseia’
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O que uma história passada de boca em boca e provavelmente reunida e registrada oito séculos antes de Cristo nascer ainda teria a nos ensinar? Pergunte para Sam Akbar, uma psicóloga britânica com formação em estudos clássicos, e ela lhe dará um manancial de respostas.
A Odisseia é um dos berços do imaginário e da literatura ocidental. É também um compêndio de lições sobre a mente humana.
Insuflado pelo filme em cartaz, o poema épico de Homero não expõe, na carne e na alma, tão somente um herói da Grécia Antiga. Expõe o que move a nossa espécie a nutrir aspirações e tomar atitudes, umas mais, outras menos corajosas, e o que ela faz (ou deixa de fazer) para chegar até lá, entre suplícios e gratificações.
É esse convite a (re)ler e reinterpretar o clássico que nos faz Sam Akbar em O Mindset da Odisseia, que acaba de ser publicado pela BestSeller.

O livro mistura análise literária, psicologia clínica e científica e certa pegada de autoajuda a fim de mostrar o que podemos aprender no encalço de Ulisses (ou Odisseu, como preferem os gregos avessos ao nome romano), seus aliados e inimigos. Pois, muito além das aventuras propriamente ditas, as ideias e decisões do personagem mítico transbordam sonhos e angústias que continuamos a alimentar neste século XXI tão conectado.
Assim, o episódio da estadia de Ulisses e seus marujos com a deusa Calipso após um naufrágio se torna metáfora da zona de conforto que pode nos aprisionar. O engodo que lhe permite superar o Ciclope traduz, por sua vez, a necessidade de não se render ao ego. O canto das sereias evoca ilusões, entre elas a de um passado paradisíaco. E a passagem pelo estreito marítimo guardado pelas “bestas” Cila e Caríbdis nos lembra que toda escolha comporta vantagens, mas também perdas e renúncias.
Akbar faz questão de ressaltar: nenhum caminho bem-sucedido transcorre em linha reta. E é assim que a nossa espécie segue em frente, vertendo lágrimas de dor e alegria.
Nem mesmo nós seguimos imutáveis pelas trilhas da vida. Como a psicóloga observa, Ulisses assume diferentes papéis ao longo de sua jornada.
Ele é o “mestre da estratégia” que concebe o cavalo de Troia que consagrará os gregos vitoriosos na guerra. É o “capitão aflito” que parece estar perdendo a esperança diante do destino. É o “ninguém”, que só assim pode livrar a si e aos companheiros de uma morte monstruosa. É o “contador de histórias”, que ressignifica experiências a cada prosa. É o “mendigo paciente”, que sabe ser humilde e contido quando preciso. É o “vingador brutal”, o homem de ação que, enfim, recupera a esposa e o trono.
De Troia a Ítaca, o percurso do protagonista de A Odisseia é também uma aula de psicologia.
