Ninguém lidera sozinho | VEJA

Ninguém lidera sozinho | VEJA

À frente da Tex Cotton, indústria de confecções de Blumenau que desenvolve marcas próprias e também produz para terceiros no modelo private label, Ricardo Lyra defende que a liderança se fortalece quando decisões são compartilhadas e a confiança é construída em conjunto. Sua trajetória mostra que os líderes mais preparados não são os que têm todas as respostas, mas os que sabem reunir pessoas para encontrá-las juntos.

Aos 10 anos, Ricardo aprendeu a cuidar de tarefas que normalmente caberiam aos adultos. Sua mãe, Carmen, havia sido atropelada e precisou permanecer imobilizada por um período. Ele e os dois irmãos passaram a dividir os afazeres da casa e a resolver pequenas obrigações da família. Iam de ônibus ao centro de Blumenau, em Santa Catarina, para fazer compras, pagar contas e retirar dinheiro no banco, numa época em que quase tudo dependia de cédulas, cheques e atendimento no balcão.

Não era a primeira vez que os três meninos precisavam amadurecer cedo. Nascido em Curitiba, em 1963, Ricardo era o filho do meio de Geraldo e Orlandina Carmen de Lyra. O pai servia no Exército e morreu aos 33 anos, em 1970, quando a família vivia em Ponta Grossa, no Paraná. Após a perda, Carmen mudou-se com Ricardo e os outros filhos, Marco Aurélio e Geraldo, para Blumenau. Até então dona de casa, assumiu também a responsabilidade de sustentar e educar os filhos.

A morte do pai alterou a rotina familiar, mas não se tornou, na memória de Ricardo, a única definição de sua infância. Ele se recorda de uma casa unida, conduzida por uma mulher que tratava o estudo como instrumento de autonomia. Na década de 1950, ainda estudante, Carmen escreveu o artigo “Por que Blumenau não tem uma faculdade?”, recuperado posteriormente nos registros históricos da Universidade Regional de Blumenau, a Furb.

O texto é lembrado como uma manifestação pioneira em defesa da criação do ensino superior na cidade. Em 2014, durante uma sessão da Assembleia Legislativa de Santa Catarina em homenagem aos 50 anos da Furb, a história foi mencionada pelo então reitor da instituição. Carmen não estudaria na universidade que ajudou a imaginar, mas um de seus filhos se formaria nela, lecionaria por cerca de duas décadas e construiria ali uma parte importante de sua trajetória.

A escolha da farda

Ao concluir o ensino médio, em 1981, Ricardo fez o alistamento militar e serviu como aluno do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, o NPOR, no 23º Batalhão de Infantaria, em Blumenau. O que começara como uma obrigação revelou uma aptidão. Com o apoio da mãe, mudou-se para São Paulo, frequentou um curso preparatório para escolas militares e, no fim de 1984, foi aprovado para ingressar na Aman, a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro.

De 1985 a 1988, formou-se oficial do Exército. A Aman lhe proporcionou uma base que levaria para a vida empresarial: disciplina, visão estratégica, comunicação, iniciativa e capacidade de trabalhar em equipe. Uma frase gravada na academia sintetizava o princípio de que ninguém está pronto para comandar antes de aprender a obedecer. Para Ricardo, liderar também significava reconhecer aquilo que ainda não sabia.

Continua após a publicidade

Durante a formação, começou a namorar Cianne, estudante de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina e filha de vizinhos de sua mãe. Separados por cerca de 1.200 quilômetros, mantiveram o relacionamento por meio de telefonemas, cartas e encontros esporádicos. Ricardo concluiu a Aman no fim de 1988 e decidiu retornar ao 23º Batalhão de Infantaria. Cianne também se formou naquele ano. Os dois se casaram em 1989 e tiveram dois filhos, Gustavo e Lucas.

Foi o casamento que aproximou Ricardo da contabilidade. Seu sogro mantinha um escritório na área e, diante das mudanças nas exigências profissionais do setor, pediu que Cianne cursasse Ciências Contábeis. Como ambos trabalhavam durante o dia e teriam apenas as noites livres, Ricardo decidiu acompanhá-la. Em 1989, ingressou com a esposa no curso da Furb. A decisão, tomada para preservar a convivência do casal, acabaria abrindo caminho para uma nova carreira.

A coragem de mudar de rota

Depois de três anos em Blumenau, Ricardo foi transferido para a Aman como instrutor. Era um reconhecimento importante, mas o deslocamento trouxe dificuldades à família. O Brasil enfrentava inflação elevada e sucessivos planos econômicos, e Cianne encontrava resistência ao procurar emprego em Resende. Possíveis contratantes supunham que uma nova transferência do marido a levaria embora em pouco tempo.

A previsão se confirmou. Ricardo foi enviado para Tubarão, em Santa Catarina, e, menos de um ano depois, para o Rio de Janeiro. A repetição do problema fez o casal rever o futuro. A carreira militar havia dado propósito e formação a Ricardo, mas as mudanças constantes limitavam os projetos profissionais de Cianne e a estabilidade da família.

Ele pediu desligamento do serviço ativo e voltou para Blumenau. A decisão ensinou que perseverar não significa insistir indefinidamente na mesma direção. Em algumas etapas, é preciso reconhecer que um plano deixou de servir ao conjunto da vida e ter coragem para construir outro.

Continua após a publicidade

A construção do método

As transferências militares interromperam a graduação, mas, após deixar o Exército, Ricardo retomou os estudos e concluiu o curso de Ciências Contábeis na Furb, em 1996. No mesmo ano, iniciou a especialização em Controladoria, concluída em 1998. A nova formação abriu caminho para a consultoria e, pouco depois, para a sala de aula.

Convidado para substituir um professor, permaneceu na universidade por cerca de duas décadas. Durante muitos anos, dividiu a rotina entre empresas e academia: atendia clientes durante o dia e lecionava à noite. A experiência prática enriquecia as aulas, enquanto o ambiente acadêmico ampliava sua capacidade de analisar e solucionar os desafios das organizações.

Em busca de uma base teórica mais sólida, cursou mestrado em Controladoria e Contabilidade na Universidade de São Paulo de 2001 a 2003. Foram anos de viagens, privações e pressão financeira. Ricardo e Cianne sustentaram esse projeto porque acreditavam que o investimento em conhecimento fortaleceria a consultoria. A aposta se confirmou: o título ampliou oportunidades e tornou seu trabalho ainda mais consistente.

De 2005 a 2008, retornou à USP para o doutorado. Na tese, pesquisou como indicadores contábeis podem ser organizados para avaliar o desempenho das empresas. Era uma investigação acadêmica, mas também uma questão presente em sua atuação profissional: transformar informações dispersas em critérios capazes de orientar melhores decisões.

Da consultoria à Tex Cotton

Em 2008, Ricardo começou a assessorar a Tex Cotton Indústria de Confecções em um momento de transformação da empresa. Fundada em Blumenau, a companhia ampliava o desenvolvimento de marcas próprias e reduzia a dependência da produção para terceiros, no modelo private label. A mudança exigia revisar custos, preços, controles, estrutura financeira e critérios de investimento.

Continua após a publicidade

No fim daquele ano, recebeu o convite para permanecer na empresa em tempo integral como controller, responsável por organizar as informações econômico-financeiras e apoiar o planejamento do negócio. A transição da consultoria para a gestão permitia acompanhar não apenas as recomendações, mas também sua implementação. Ricardo aceitou o desafio e ingressou definitivamente na Tex Cotton em 2009.

Nos anos seguintes, assumiu responsabilidades nas áreas tributária, de custos, precificação e controle. Em 2013, tornou-se diretor financeiro. Posteriormente, passou a responder também pelas áreas administrativa e financeira até ser anunciado CEO da companhia, em setembro de 2024. Quando assumiu o cargo, acumulava mais de 15 anos de atuação na Tex Cotton e conhecia em profundidade seus processos, operações e desafios.

Liderar é construir junto

Na visão de Ricardo, uma diretoria funciona como um conjunto de engrenagens: cada área tem atribuições próprias, mas nenhuma produz o melhor resultado isoladamente. Existem decisões que precisam seguir de cima para baixo, sobretudo em situações urgentes. Na rotina, porém, ele prefere discutir os problemas com quem será afetado por eles e incorporar pontos de vista diferentes antes de definir o caminho.

“Não acredito em liderança solitária”, costuma dizer. Isso não significa diluir a responsabilidade do CEO. A palavra final continua existindo e alguém precisa responder por ela. O ganho da participação está na qualidade da análise, no compromisso com a execução e na possibilidade de perceber riscos que uma única pessoa não enxergaria.

Ao formar equipes, Ricardo procura profissionais que demonstrem o que chama de brilho nos olhos: interesse genuíno, vontade de aprender e energia para fazer acontecer. A competência técnica é indispensável, mas, para ele, não basta. Comunicar ideias com clareza, ouvir diferentes pontos de vista, agir com iniciativa e manter elevados padrões éticos também fazem parte da construção de uma liderança sólida.

Continua após a publicidade

A liderança diante da incerteza

Essa convicção foi colocada à prova em 2020. Quando a pandemia de covid-19 levou ao fechamento do comércio e interrompeu parte da atividade econômica, a Tex Cotton tinha uma coleção de inverno pronta para ser faturada. De uma hora para outra, vendas, produção e empregos passaram a conviver com a incerteza.

Os funcionários olhavam para a direção em busca de respostas que ainda não existiam. Acostumado a se considerar emocionalmente equilibrado, Ricardo chorou diante da equipe. A reação não diminuiu sua responsabilidade nem comprometeu sua capacidade de agir. Ao contrário, segundo ele, revelou que o medo era compartilhado e que seria preciso reconhecer a gravidade do momento antes de construir uma resposta.

A empresa adotou medidas para preservar o negócio e atravessou o período mais crítico da crise. Para Ricardo, a experiência confirmou que equilíbrio não significa ausência de emoção. Significa recuperar a clareza depois do impacto, reunir as pessoas, avaliar alternativas e seguir em frente. Desde então, a confiança depositada pelos funcionários na liderança tornou-se uma de suas maiores responsabilidades.

O significado do sucesso

Ao falar de sucesso, Ricardo evita definições abstratas. Para ele, a realização começa por saber o que se pretende construir. Sem um objetivo claro, qualquer conquista pode parecer insuficiente, porque não existe um critério para avaliar avanços, corrigir a rota ou escolher prioridades.

Recentemente, uma leitura o fez repensar a própria comunicação: Brevidade inteligente, de Jim VandeHei, Mike Allen e Roy Schwartz. O livro defende clareza e concisão num ambiente de excesso de informação. A lição se encaixa no estilo que Ricardo busca como gestor: explicar o que importa, ouvir antes de concluir e transformar decisões complexas em orientações compreensíveis.

Continua após a publicidade

Da infância em Blumenau ao comando da Tex Cotton, a trajetória de Ricardo foi marcada por mudanças que exigiram preparação e escolha. A disciplina veio da família e do Exército; o método, da Contabilidade e da universidade; a capacidade de execução, da consultoria e da empresa. Nenhuma dessas experiências, porém, sustenta sozinha sua ideia de liderança. 

Para ele, comandar é reunir competências diferentes, dividir o contexto e assumir a responsabilidade por uma decisão construída em conjunto.

Source link

Ultimas Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *