Bets movimentam R$ 37 bilhões no Brasil e passam a disputar o orçamento das famílias

Bets movimentam R$ 37 bilhões no Brasil e passam a disputar o orçamento das famílias

O mercado de apostas online deixou de ser um nicho e passou a ocupar um espaço relevante na economia brasileira. Em 2025, as chamadas bets movimentaram cerca de 37 bilhões de reais em receita bruta no país, consolidando um setor que já alcança mais de 25 milhões de usuários e opera em escala nacional.

O crescimento acelerado, impulsionado pela digitalização e pela popularização de meios de pagamento como o Pix, colocou o Brasil entre os maiores mercados globais de apostas. Hoje, o volume movimentado mensalmente pode variar entre 20 bilhões e 30 bilhões de reais, refletindo a rápida adesão da população a esse tipo de plataforma.

Mais do que o surgimento de um novo segmento, o avanço das bets tem provocado uma mudança estrutural no comportamento financeiro das famílias brasileiras. O impacto é mais evidente nas classes C, D e E, onde os gastos com apostas começam a competir diretamente com despesas essenciais e outras formas de consumo.

No varejo, por exemplo, parte dos consumidores já redireciona recursos para as apostas. Dados do estudo indicam que 23% dos apostadores reduziram compras de vestuário, enquanto 19% passaram a gastar menos em supermercados. O efeito se estende também ao sistema financeiro, já que as bets competem com produtos tradicionais de poupança e investimento, em 2024, cerca de 15% da população fez ao menos uma aposta online, percentual superior ao de diversos instrumentos financeiros convencionais.

A pressão também chega ao setor educacional. Segundo o levantamento, o avanço das apostas pode dificultar tanto o acesso quanto a permanência no ensino superior, especialmente entre consumidores de menor renda, ao disputar diretamente recursos destinados ao pagamento de mensalidades.

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Para Fernando Escobar, sócio diretor da Peers Consulting + Technology, o ritmo de crescimento do setor está diretamente ligado à facilidade de acesso e à tecnologia. “Os dados mostram que o setor deixou rapidamente de ser um nicho e passou a operar em escala nacional, com forte interiorização e alto grau de digitalização. Essa combinação de tecnologia, meios de pagamento instantâneos e baixa fricção de entrada ajuda a explicar a velocidade de crescimento”, afirma.

Apesar da expansão, o estudo alerta para um desafio central: a predominância do mercado ilegal. Estima-se que cerca de 85% da receita bruta ainda esteja fora do ambiente regulado, o que representa perdas fiscais superiores a 7 bilhões de reais por ano, além de aumentar os riscos para os usuários, que ficam sem proteção e sem mecanismos de controle.

A experiência internacional indica que a migração para o mercado regulado depende não apenas de regras claras, mas também de fiscalização eficiente e incentivos adequados para operadores e consumidores.

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Na avaliação de Alessandra Ribeiro, o fenômeno vai além de um movimento passageiro. “O que observamos é uma nova dinâmica de competição pelo orçamento disponível, especialmente nas faixas de menor renda, com impactos que alcançam segmentos relevantes como varejo, serviços financeiros e educação”, destaca.

Com isso, o avanço das apostas online passa a ser visto como uma transformação estrutural no padrão de consumo no Brasil, um movimento que, ao mesmo tempo em que cria um mercado bilionário, levanta questionamentos sobre seus efeitos econômicos e sociais no longo prazo.

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