Veja as histórias mais improváveis envolvendo os orelhões
Até 31 de dezembro de 2028, o orelhão deixará de existir no Brasil. Mas, até chegar à sua extinção total, o aparelho passou por poucas e boas. Foi estrela de muitas ruas, ponto de encontro, cenário de inícios — e fins — de relacionamentos. Acabou depredado, furtado, ganhou a famosa “escrivaninha” (lá em julho de 1995), virou palco de casos de polícia, modelos adaptados para crianças e pessoas com deficiência e, acredite se quiser, um deles ganhou até festa de aniversário por um motivo inusitado.
Houve época em que era assunto constante: reclamações pela falta de orelhões aqui, ligações cruzadas acolá. Muita gente não lembra — ou simplesmente esqueceu — que eles já foram a febre do momento, parte inseparável da paisagem urbana. Pelo visto, agora o que vai ficar são lembranças — e suas fichas e cartões, que viraram objeto de desejo de colecionadores. As histórias citadas neste texto foram resgatadas a partir de registros das décadas de 70, 80 e 90, disponíveis no acervo do jornal O Globo.
Parabéns pra você, nessa data desquerida!
Em março de 1989, um orelhão ganhou uma festa de aniversário. Os frequentadores de um bar na Rua Barreiros, em Ramos, no Rio de Janeiro, munidos de um bolo confeitado com glacê e velinhas, “homenagearam” o único aparelho que atendia as redondezas. Mas com um detalhe: estavam “celebrando” seus 365 dias sem funcionar.
“O dono do bar explicou que ligou diversas vezes para a Telerj (antiga empresa estatal de telefonia do Rio, que acabou em 1998). Segundo ele, porém, o esforço foi inútil”, dizia a reportagem da época. Os participantes da festa, no entanto, pareciam não se iludir com o protesto/brincadeira. Ainda segundo o proprietário do bar, eles não iam se espantar se tivessem que apagar as velinhas no ano seguinte.
Linha Direta
Em 24 de novembro de 1972, Walter Sodré foi preso em São Paulo enquanto tentava fazer uma “boa ação”, no mínimo, trabalhosa. Era madrugada quando o jovem de 23 anos foi flagrado tentando retirar um orelhão na esquina da Avenida Parada Pinto com o Largo dos Japoneses e colocá-lo dentro de sua Kombi BJ-3182. Na delegacia, contou que estava apenas querendo cooperar: como o telefone tinha os fios soltos, o bondoso homem levaria o aparelho para casa e, no dia seguinte, o devolveria à Companhia Telefônica. A versão, porém, não convenceu a polícia, e o delegado de plantão decidiu indiciá-lo por furto.
O assalto, a prisão e os dólares de Sinésio
Copacabana, Rio de Janeiro. Na noite de 27 de junho de 1988, enquanto passava pela Rua Domingos Ferreira, o azarado Sinésio Martinelli Filho, então com 32 anos, foi perseguido por ladrões e não teve escolha: escondeu uma cédula de US$ 100 (CZ$ 18,7 mil no câmbio oficial) atrás de um orelhão. Alcançado pelos criminosos mais adiante, o propagandista teve roubados os CZ$ 8 mil em cruzados que lhe restavam. Ao voltar ao orelhão, veio a decepção: percebeu que escondera tão bem a nota que ela não saía. Desesperado, Sinésio quase quebrou o aparelho, mas foi impedido pela PM, que o levou para a delegacia.
Horas depois, ao ser liberado, Sinésio voltou ao orelhão, instalou-se numa cadeirinha de praia e disse que só sairia dali quando a Telerj recuperasse seus dólares “Nem que tenha eu que dormir na chuva. Essa grana é minha e ninguém leva.” Amigos do carioca, no entanto, o convenceram a dormir em casa.
No dia seguinte, Sinésio apareceu no local às 8h da manhã. Entretanto, quando uma equipe da Telerj chegou — às 8h50 — e retirou o telefone, cadê o dinheiro? Um funcionário de um bar próximo revelou qual destino a nota pode ter tomado: “Uns pivetes ficaram vários minutos no orelhão, depois saíram fazendo a maior festa. Alguns voltaram mais tarde para tomar refrigerantes e, pelo que falavam, conseguiram tirar a nota e trocá-la depois”, dizia a notícia. Ah, e segundo o homem, os menores levaram também a cadeira de praia e o guarda-sol esquecidos por Sinésio.
Continue na linha até a notificação
Falou em orelhão, uma das primeiras lembranças são as famosas ligações a cobrar e a mensagem: “chamada a cobrar; para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. Do outro lado da linha, o interlocutor escutava a orientação igualmente conhecida: “após o sinal, diga seu nome e a cidade de onde está falando”.
A voz suave e levemente misteriosa que marcou época pertence à atriz e locutora paulista Patrícia Godoy, que também foi âncora de telejornais no SBT/Alterosa. Formada em piano clássico e em educação física, ela trabalha como atriz desde a infância e chegou a apresentar o programa Aqui Agora, nos anos 1990.
A chamada a cobrar trazia ainda uma melodia igualmente famosa. A música foi criada em 1987 pelo compositor paranaense Carlos Freitas, que travou batalhas judiciais em busca do reconhecimento pela autoria, mas nunca recebeu direitos pela obra. Freitas morreu em 5 de agosto de 2024, aos 77 anos.
Alô seu polícia
Antes da popularização dos celulares, o orelhão — na verdade, os telefones de uso coletivo (TUPs), no Brasil — chegou a auxiliar a segurança pública, funcionando como um elo entre a população e a polícia. Em 7 de novembro de 1999, por exemplo, um telefone comunitário instalado próximo a uma cabine da PM na Ilha do Governador (RJ) passou a ser usado para comunicar assaltos em tempo real. Em um dos casos, um morador teve o carro roubado e conseguiu ligar no orelhão a tempo de informar a placa do veículo, o que permitiu a captura dos ladrões. Hoje, esse papel foi substituído por recursos como o 190, aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, e sistemas de monitoramento digital.
Se por um lado o orelhão já foi ferramenta de cidadania e proteção, por outro também foi alvo constante de vandalismo. Em 27 de outubro de 1985, Darlan Silva de Azevedo, então com 21 anos, começou a cumprir uma sentença considerada inusitada para a época: trabalhar gratuitamente nas equipes de manutenção dos telefones por 16 sábados, como punição por depredar um telefone público. Todo sábado o jovem teve que limpar e verificar o estado de conservação de diversões orelhões no centro do Rio.
Alô, alô, vocês sabem quem sou eu?
Lançado em 1972, o orelhão nasceu de um projeto assinado pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira. Funcionária da Companhia Telefônica Brasileira (CTB), Chu Ming desenvolveu um protetor de telefone público que fosse resistente, funcional e adequado ao barulho das cidades. No início, funcionavam apenas com chamadas locais.
A forma inspirada em um ovo não foi escolhida por acaso. Segundo a própria arquiteta, tratava-se da melhor solução acústica para abrigar o usuário e melhorar a audição durante as chamadas, além de proteger o aparelho da chuva. Chu Ming Silveira morreu em 18 de junho de 1997, em São Paulo, aos 56 anos.
Em 1976, o modelo brasileiro passou a ser exportado para países da América Latina e da África, estampando renomadas publicações internacionais de design.
O orelhão também ganhou outras versões. Uma delas foi o “orelhinha”, um aparelho com cobertura e formato igual ao dos orelhões tradicionais, com cerca de 1,10 metro de altura, desenvolvido para permitir o uso por crianças. No Rio, o primeiro foi instalado em 1979, em frente a uma escola infantil, em Copacabana. Já em janeiro de 1981, foi instalado na cidade — mais precisamente no Méier — o primeiro orelhão adaptado para pessoas com deficiência física, com 70 centímetros de altura. Essa versão também foi adotada em outras cidades do Brasil.
A partir da década de 1980, algumas cidades passaram a instalar orelhões em cores diferentes em áreas turísticas.
Caiu a ficha
Na década de 1970, os orelhões funcionavam exclusivamente com fichas metálicas, que se tornaram parte da rotina dos brasileiros por mais de duas décadas. Tão comuns eram que, em muitos lugares, chegaram a ser usadas como uma espécie de moeda informal em bares, padarias e pequenos comércios.
Os primeiros sinais de mudança surgiram em 1992, quando a Telebras iniciou testes com cartões telefônicos. A transição ganhou força a partir de 1995, com a substituição em larga escala. Orelhões novos já eram instalados preparados apenas para cartões, enquanto parte dos aparelhos antigos passou por adaptações. Em muitas cidades, houve um período de convivência entre os dois sistemas.
O ponto de virada ocorreu em 1998, com a privatização do sistema de telecomunicações. A partir daí, os cartões se tornaram o padrão nacional, e as fichas começaram a desaparecer rapidamente. No início dos anos 2000, as fichas já haviam praticamente deixado de existir nas ruas, sobrevivendo apenas como itens de coleção. Com a dominação dos cartões, vieram os colecionáveis com artes especiais e até séries limitadas.
Tchau, depois te ligo
Há 40 anos atrás, em agosto de 1986, existiam cem mil orelhões em todo o país. Em meados dos anos 2000, esse número chegou a 1,3 milhão de aparelhos em operação. Atualmente, existem cerca de 38 mil espalhados pelo Brasil.
“Quando nasceu, o orelhão foi visto com descrédito. Aos poucos, ao revelar uma virtude inédita — a de ser um telefone público que realmente funciona —, passou a ser aceito, conquistando até o respeito dos bárbaros. A conotação do apelido deixou de ser depreciativa e tornou-se carinhosa. O orelhão foi, então, mostrando seus talentos, como a capacidade de realizar chamadas para outras cidades e de aceitar ligações a cobrar. Trata-se de um serviço de inegável valor social.” — O Globo, 5 de março de 1982.
