Uso do FGTS no Desenrola 2.0 divide especialistas; entenda os riscos e vantagens

O novo programa Desenrola 2.0 já conta com a participação dos principais bancos brasileiros, como Bradesco, Nubank, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. A iniciativa prevê a possibilidade de redução de até 90% das dívidas com o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Para analistas consultados por VEJA, o Desenrola 2.0 é positivo para quem está endividado, mas exige planejamento para evitar que o consumidor volte à inadimplência.
No caso do uso do FGTS no Desenrola, os especialistas avaliam que essa pode ser uma alternativa vantajosa. O beneficiário poderá usar até 1 mil reais do FGTS, desde que a quantia de 1 mil reais não ultrapasse 10% do montante do FGTS. Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, afirma que as dívidas a serem quitadas possuem juros muito superiores ao rendimento do FGTS, que paga Taxa Referencial (TR) mais 3% ao ano — atualmente, algo entre 6% e 7%.
“O rotativo do cartão de crédito supera 400% ao ano e o cheque especial ultrapassa 130%. Portanto, deixar dinheiro parado no fundo enquanto a dívida cresce é destruir patrimônio”, afirma Novais.
Já Gustavo Casseb Pessoti, conselheiro do Cofecon, ressalta que é necessário cautela. Segundo ele, o FGTS funciona como uma reserva de segurança para situações como demissão, compra da casa própria ou emergências.
“Por isso, vale mais a pena utilizar o recurso quando a dívida realmente estiver fora de controle e os juros forem superiores ao rendimento do FGTS”, argumenta.
Como conseguir desconto de até 90% no Desenrola 2.0?
Em relação aos descontos para os endividados, que podem chegar a 90%, os especialistas explicam que os percentuais são definidos nas próprias plataformas dos bancos. Humberto Aillon, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), destaca que existem diversos critérios para estabelecer os abatimentos. Ainda assim, as instituições financeiras devem aplicar ao menos o desconto mínimo de 30%.
Marcus Novais, da Private Investimentos, explica que os descontos entre 30% e 90% são calibrados caso a caso, levando em consideração o tempo de atraso, o tipo de crédito, a probabilidade de recuperação da dívida na visão do banco e o perfil do cliente.
“Quanto mais antiga e provisionada estiver a dívida, maior tende a ser o desconto, porque o banco já reconheceu boa parte daquele valor como perda no balanço. O abatimento não é um presente: ele transforma um prejuízo provável em um recebimento parcial, o que explica por que as instituições aceitam renegociar”, detalha Novais.
Qual é a desvantagem do Desenrola 2.0?
Segundo Gustavo Casseb Pessoti, do Cofecon, uma das desvantagens é que nem todas as dívidas entram no programa — apenas aquelas contraídas com o sistema financeiro brasileiro. Além disso, algumas renegociações ainda podem resultar em parcelas elevadas, dependendo do valor já pago anteriormente pelo consumidor.
“Para quem possui vício em jogos de apostas, há um ponto difícil de contornar: quem utilizar os benefícios do programa poderá enfrentar restrições temporárias, de no mínimo um ano, relacionadas a apostas online”, conclui Pessoti.
Em resumo, o Desenrola 2.0 pode ser benéfico para o consumidor, desde que seja utilizado com cautela. Isso porque o uso do FGTS sem a recomposição de uma reserva de emergência pode comprometer as finanças pessoais em caso de perda de emprego, aumentando o risco de retorno ao endividamento. Por isso, o principal conselho dos especialistas é manter o planejamento financeiro.
