Uso de ‘cogumelos mágicos’ em rituais religiosos e terapêuticos ganha adeptos

Uso de ‘cogumelos mágicos’ em rituais religiosos e terapêuticos ganha adeptos

Mesmo tendo o comércio e o uso proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os cogumelos do tipo Psilocybe Cubensis – também conhecidos como “cogumelos mágicos” – ganharam popularidade  em rituais religiosos e terapêuticos. A gourmetização desses fungos, inclusive, alavancou o comércio ilegal por meio das redes sociais. 

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Em Goiás, por exemplo, o filho de um advogado foi preso em 2024 suspeito de usar o escritório do pai para produzir e vender chocolates e até cápsulas de cogumelos alucinógenos para o todo o Brasil, a partir de Goiânia.  O suspeito faturava cerca de R$ 50 mil por mês com a comercialização das substâncias proscritas.

Os cogumelos mágicos contêm a substância psilocibina, um poderoso alucinógeno que é proibido no Brasil. Entretanto, mesmo ilegal, basta uma busca rápida pelas plataformas digitais para encontrar uma enxurrada de páginas e grupos específicos de venda do fungo.

Buscando entender como funciona esse mercado, o Mais Goiás acompanhou grupos dedicados ao comércio e a experiência com esse tipo de droga. Os espaços públicos e privados visitados pela reportagem, que chegam a 49 mil membros cada, oferecem os fungos inteiros ou desidratados embalados à vácuo, exaltando suas propriedades psicodélicas e ritualísticas, enquanto outros comercializam as chamadas micro dosagens, já calculadas para um consumo controlado com objetivos terapêuticos.

Os fungos, conforme apurado pela reportagem, variam de valor a depender da espécie, raridade e do efeito alucinógeno. O Amanita Muscaria, por exemplo, é comercializado por R$ 100 a cada 30 gramas, enquanto que 15 gramas de Amanita Pantherina sai a R$ 100.

“Tem o dobro da potência do Muscaria. O Cubensis Penis Envy é R$ 15 a R$ 17 a grama e o Cubensis Selvagens R$ 7 a grama. O Cacto São Pedro está 30 gramas por R$ 60, já a Argyreia Nervosa é R$ 10 (10 sementes)”, afirma o administrador do grupo “Cogumelos Mágicos”, que conta com 654 membros de ao menos 20 regiões distintas do Brasil e do exterior, incluindo Goiás. 

Caso o cliente queira mais de uma espécie, pode optar pela compra variada, pegando menos de determinados enteógenos e mais de outros. Por exemplo, 10 gramas de Cubensis Selvagens e 1 grama do Cubensis Penis Envy. Para concretizar a aquisição, o cliente precisa pedir ao menos 4 gramas.

O valor deve ser pago no ato do acordo via PIX ou boleto bancário – este último demora um dia a mais para chegar a encomenda, que leva de 24h a 48h -, conforme o vendedor. Questionado sobre a segurança da entrega, o administrador afirmou que envia para todo o Brasil por meio dos Correios e que as encomendas são enviadas descaracterizadas, a fim de evitar apreensões e consequentes prisões. 

“Cada grama desse (Cubensis) equivale a 2 g do Cambodian. Vai dentro de uma caixinha, mas o frete é por conta do cliente. É limpo, cultivado em casa, pronto para comer. O selvagem nasce no esterco do boi. O melhor é fazer chá para matar as bactérias”, explica. 

Troca de experiências

Além do comércio, os grupos também servem como um espaço coletivo de troca de experiências entre os usuários. Durante a avalanche de mensagens, os membros reforçam o consumo dos fungos e exaltam o poder alucinógeno de determinadas espécies, como o Cubensis.

Um dos membros diz que optou por misturar Cubensis com Amanita Muscaria por não “consagrar” apenas com um. Ele contou ainda que quer experimentar Amanita Pantherina, pretendendo consumir entre 30 a 40 gramas – a quantidade é considerada alta, podendo acarretar riscos à saúde.

“A Amanita não é igual a Cubensis. Já cheguei a tomar 10 gramas de Amanita pura e, literalmente, não sentir nada. Já cheguei a tomar 3 gramas de Cubensis e não ficar alto, mas sentir os efeitos do cogumelo. O administrador me falou que a Amanita precisa tomar uma quantidade pouco acima de 10 gramas para dar efeito. Quando quero umas visões diferentes eu tomo 10 gramas de cada”, disse. 

“Depende também do organismo da pessoa. Já tomei 15g e bateu bem, mas não é bom tomar mais que 10 gramas. Esses dias tomei e foi uma paulada. Se é alguém que não tem muita experiência, dose baixa já bate forte”, reforçou um outro integrante do espaço.

Tráfico de drogas

A venda de cogumelos pode configurar tráfico interestadual e até internacional de drogas, além de associação para o tráfico caso três ou mais indivíduos sejam pegos comercializando os fungos, de acordo com o delegado Anderson Pimentel. Os cogumelos, geralmente, são comercializados para fins religiosos e terapêuticos, não havendo interesse do crime organizado no ramo.

“A venda de cogumelos, em si, não configura crime porque ele é um fungo. No entanto, algumas espécies são consideradas proibidas. Se a pessoa estiver vendendo, portando consigo ou fazendo uso, ela pode, em tese, ser enquadrada no crime de tráfico de drogas”, afirma Anderson.

Ainda de acordo com o delegado, os cogumelos mágicos são potencialmente perigosos à saúde, assim como a própria maconha e cocaína. Embora a venda seja quase exclusiva pela internet, o fato não impede que os traficantes sejam encontrados e penalizados. 

“Toda investigação tem por natureza suas dificuldades e complexidades. No entanto, os órgãos investigativos têm seus meios e recursos que auxiliam na identificação e qualificação dessas pessoas”, concluiu.

Fonte Original Mais Goias

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