Quem tem potencial para rivalizar com Daniel Vilela no futuro

Quem tem potencial para rivalizar com Daniel Vilela no futuro

No dia em que o maior partido do Estado em número de prefeitos e de filiados, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), completa 60 anos, neste dia 24 de março de 2026, o Mais Goiás entrevistou o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Goiás (UFG), Guilherme Carvalho, a respeito dos prognósticos do partido para o futuro – principalmente depois que o vice-governador Daniel Vilela assumir o governo, em abril.

A reportagem perguntou que políticos têm potencial para dividir protagonismo com Daniel na política de Goiás nos próximos 20 ou 30 anos, e o professor respondeu que maioria daqueles que podem rivalizar com o filho de Maguito Vilela estão dentro hoje da própria base aliada.

Daniel cumprimenta o pai já falecido, Maguito Vilela (Foto: Instagram)

“Daniel é muito jovem e terá uma trajetória longa. Mais velho do que ele, nós temos Wilder Morais, Bruno Peixoto (que hoje é aliado, mas nós sabemos como a política é construída), o deputado estadual Virmondes Cruvinel (que tende a ter uma ascensão mais pausada, mas que tem crescido), Talles Barreto e Gustavo Mendanha (que é parceiro, mas já mostrou não ser um parceiro incondicional). O interessante é que a gente vê poucos nomes na oposição, à exceção de Gustavo Gayer”, afirma Guilherme.

O pesquisador complementa: “Acho que os principais adversários virão do campo da direita, porque a esquerda tem um espaço muito diminuto em Goiás. O desafio de Daniel é manter os seus aliados próximos, e os adversários mais próximos ainda (que é o que ele tentou construir com o PL)”.

Veja a íntegra da entrevista:

O MDB se prepara para voltar ao governo de Goiás depois de quase 30 anos. Que diferenças existem entre o MDB de Iris e o de Daniel?

Embora o MDB de Daniel traga na essência o que foi o MDB de Iris, existe um esforço para se adaptar às demandas do presente. O MDB de Iris precisou desbravar Goiás no sentido literal da palavra, ou seja: abriu estradas, pavimentou rodovias, montou redes de interligação e construiu uma identidade ligada à infraestrutura. O MDB de Daniel tem um perfil diferente, embora esteja resgatando nomes da fase antiga. O MDB de Daniel é um partido que, até por causa da atual correlação de forças em Goiás, inclina-se mais à direita do que se inclinava Iris. É um grupo político que demonstra preocupação em arregimentar nomes para as câmaras municipais, o que é muito importante para projetos futuros.

O que é o MDB de Goiás hoje?

O MDB em Goiás é um partido que está passando por um efeito sanfona: já foi hegemônico, perdeu muita força com a ascensão do ex-governador Marconi Perillo e voltou a crescer quando Daniel Vilela assumiu a presidência do diretório estadual e o partido aderiu à coalizão do governador Ronaldo Caiado. Recuperou-se ao ponto de ser a legenda forte o suficiente para governar Goiás a partir de abril. A tendência é a de que continue a atrair quadros importantes e cumpra papel central nas eleições municipais de 2028. Não vejo o MDB como a força mais relevante do Estado hoje, mas está entre as principais. Tudo vai depender do desempenho de Daniel na eleição desse ano.

Daniel Vilela e Iris Rezende (Foto: Divulgação)

Se você fosse criar um conceito para o Vilelismo em Goiás, levando em consideração as contribuições de Maguito e de Daniel, como seria?

Se a gente tivesse que falar em Vilelismo, eu acho que é um conceito que não se afastaria muito do DNA do MDB tradicional. Pensando em Maguito Vilela muito mais como prefeito de Aparecida do que como governador, eu diria que ele foi um político modernizador, que tinha uma visão mais volta para atração de novos investimentos. E o Daniel também faz gestos públicos no sentido de mostrar que se preocupa em atrair novos investimentos. Exemplo disso são os grandes eventos que tem ocorrido (como o MotoGP) e a internacionalização de Goiás. Em resumo: se o irismo é marcado por grandes obras de infraestrutura, o Vilelismo é um projeto mais modernizador, focado na industrialização e modernização de Goiás.

Em visita a Goiânia, Bolsonaro esteve com Caiado e com Iris (Foto: Divulgação)

O MDB de Goiás foi afetado de alguma forma pela polarização política que cindiu o Brasil desde 2018?

O MDB de Goiás se comporta de forma semelhante ao MDB nacional. A identidade é mais assentada no pragmatismo, na negociação, e a depender da correlação de forças onde ela se estabelece, pode se conciliar mais ou menos com a política nacional. O apelido que nós, pesquisadores, damos ao partido é o de uma “federação de interesses”, porque em cada estado ele é uma coisa. É assim também em Goiás. O MDB de Goiás, ao se voltar para os municípios, reproduz a lógica que o diretório nacional estabeleceu para os estados. Ou seja: cada município tendeu, em alguns momentos, a ter um comportamento um pouco dúbio com relação ao projeto do Daniel e Caiado. Isso acontece principalmente quando o projeto estadual não é robusto o suficiente, como foi o caso de 2018. Agora é um pouco diferente. O MDB vai encabeçar a chapa governista e, na minha opinião, será menos tolerante com traições.

Iris sempre manteve uma distância razoável do bolsonarismo, embora nunca o tenha confrontado abertamente. Você enxerga que hoje o partido está mais próximo daquela direita do que foi com o ex-governador?

Não, eu não enxergo o MDB mais próximo da direita. No espectro ideológico, o MDB é um partido de centro. Iris, por exemplo, compôs chapa com o PT, mas também compôs com o deputado Major Araújo. É um partido que se adapta às circunstâncias, que se articula sobretudo para eleger quadros e se adapta à correlação de forças do momento – não necessariamente emulando discursos, mas compondo alianças para fornecer a estrutura que o partido tem. Se a correlação de forças dá vantagem à esquerda ou à direita, o partido tende a fazer o mesmo. O que muda é a correlação, e não a identidade do partido.

Iris foi candidato a prefeito com Major Araújo na vice (Foto: Divulgação)

Por que, ao seu modo de ver, o MDB permanece como o partido com maior número de prefeitos em Goiás?

O MDB permanece como partido com maior número de prefeitos em Goiás, já teve o maior número de prefeitos do Brasil e tende a voltar a essa posição, por ser um partido “office-seeker”. É um partido municipalista tradicional, um partido pragmático. Para ele, quanto mais quadros conseguir eleger, tanto mais poder ele vai dispor também na agenda. E nesse sentido, através de uma estratégia de recebimento de emendas federais, estaduais, levar isso para as agendas municipais, disponibilizar para vereadores e realizar obras de infraestrutura gera visibilidade para seu grupo político. Foi assim que o MDB conseguiu se manter forte e em locais estratégicos. Hoje quem vem fazendo isso de forma significativa é o PSD. O partido de Kassab não agiu assim em Goiás nos últimos anos, mas agora, com a filiação de Caiado, tende a rivalizar com outros concorrentes nessa disputa por prefeituras.

Do ponto de vista simbólico, o que representou para o MDB a desfiliação da filha de Iris?

A desfiliação da Ana Paula foi, sem dúvida, um golpe duro – principalmente para as figuras históricas e mais ligadas ao pai dela. Porque em termos de simbologia, ela poderia representar a continuidade da família, que é um valor tão importante em Goiás, dentro de um projeto partidário. E a saída muito pouco explicada lança sombras sobre os reais motivos que levaram isso de fato a ter acontecido. Isso, de certa forma, detratou a imagem do Iris, criou problemas para Ana Paula aos olhos dos emedebistas históricos, mas isso acaba por ser um novo capítulo da história política que o MDB vem construindo em Goiás. Lembrando que essa é uma história de cisões, de lutas e de cassações. O Gustavo Mendanha, por exemplo, quando deixou o MDB disse que um dia voltaria. A política é feita desses movimentos, de destruições e reconstruções criativas. Nada impede que lá na frente ela tente reconstruir a trajetória dela no MDB a partir de acertos mais bem colocados.

Ana Paula Rezende em propaganda eleitoral do MDB (Foto: Reprodução)

Que políticos, ao seu ver, têm potencial para dividir protagonismo com Daniel na política de Goiás nos próximos 20 ou 30 anos?

Daniel é muito jovem, então ele vai ser político de uma trajetória muito longa. A gente tende a ver o nome dele encabeçando a agenda nos próximos anos. Mais velho do que ele, nós temos Wilder Morais, Bruno Peixoto (que hoje é aliado, mas nós sabemos como a política é construída), o deputado estadual Virmondes Cruvinel (que tende a ser uma ascensão mais pausada, mas que tem crescido), Talles Barreto, Gustavo Mendanha (que é parceiro, mas já mostrou não ser um parceiro incondicional). O interessante é que a gente vê poucos nomes na oposição, à exceção de Gustavo Gayer. Acho que os principais adversários virão do campo da direita, porque a esquerda tem um espaço muito diminuto. O desafio de Daniel é manter os seus aliados próximos, e os adversários mais próximos ainda (que é o que ele tentou construir com o PL).

Fonte Original Mais Goias

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