Quase 200 reais para entrar no Louvre? É mais uma obra de Macron

Quase 200 reais para entrar no Louvre? É mais uma obra de Macron

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Quando as coisas dão certo para um político, o círculo virtuoso se coloca em ação e tudo joga a favor. Quando dão errado, seja num desfile no sambódromo, seja no museu mais visitado do mundo, o círculo vira vicioso e desengata desgraças em série. Emmanuel Macron é a prova disso: achava que deixaria seu nome em obras multimilionárias de modernização do Louvre, mas será o presidente sob cuja direção o museu sofreu o roubo do século, a perda de joias inestimáveis pelo valor histórico.

Também vai deixar uma lembrança amarga no bolso de brasileiros que, como todos os turistas, querem ver a Mona Lisa e pelo menos uma parte dos tesouros artísticos abrigados sob a icônica pirâmide de vidro: o ingresso para visitantes de países que não integram a União Europeia subiu para 32 euros, uma facada de quase 200 reais, num aumento de 45%. Uma família brasileira de quatro pessoas deixará 800 reais na entrada.

Esta é uma obra conjunta de Macron e de Rachida Dati, que deixou agora o Ministério da Cultura, com boas chances de ser eleita prefeita de Paris agora em março (e ser condenada por corrupção logo em seguida, com pena de prisão, pois, sendo de centro-direita, haverá um padrão mais rígido por parte de juízes majoritariamente de esquerda).

É claro que sindicatos de trabalhadores do museu foram contra o aumento, em termos dramáticos, denunciando a discriminação no preço dos ingressos como “chocante filosoficamente, socialmente e em nível humano”. Claro que convocaram greve, uma das muitas que têm afetado o museu.

GARANTIA DE INGRESSO LIVRE

Mas a argumentação dos sindicatos é razoável. Entre as justificativas para grandes museus com acervo capturado de outros países, em geral na época em que eram potências coloniais, está a de que tomam conta muito bem das preciosidades e as colocam ao alcance de cidadãos de todo mundo.

Se Macron quer que cidadãos discriminados financiem as reformas que ele não conseguiu fazer, teria que seguir também o raciocínio inverso. Por exemplo, isentando italianos do ingresso para ver a obra mais famosa de Leonardo da Vinci, que está na França pelo menos desde 1518, quando foi comprada do artista pelo rei Francisco I. Sem contar as obras saqueadas por Napoleão. Só os egípcios teriam garantia eterna de ingresso livre.

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O amplo acesso é praticado pelo British Museum, um dos raros que rivalizam com o Louvre no quesito antiguidades. O British não cobra ingresso – embora seus diretores bem que gostariam de fazê-lo.

Manter museus dessas proporções obviamente custa muito caro, mas isso não justifica as negligências em série vistas no roubo de 19 de outubro passado, quando ladrões argelinos chegaram de caminhão, colocaram cones de trânsito na rua, ergueram uma escada hidráulica e cortaram uma das portas de vidro da esplendorosa Galeria de Apolo, uma apoteose de dourados e pinturas através da qual Luís XIV quis se associar diretamente ao deus grego do sol.

DESTINO IMPENSÁVEL

Os guardas desarmados que se aproximaram foram intimidados pela serra de disco usada para romper as vitrines de exposição e roubar tiaras, colares, brincos e broches das rainhas Maria Amália e Hortênsia e das imperatrizes Maria Luísa e Eugênia, todas dos períodos intermitentes em que a monarquia foi restaurada na era pós-revolucionária.

Não foi exatamente um roubo sofisticado, daqueles de cinema. Dois dos quatro ladrões foram pegos quando tentavam fugir de avião para a Argélia, mas as joias continuam desaparecidas, uma lacuna enorme na história visual do país, ainda mais levando-se em conta a enorme quantidade de peças preciosas que foram vendidas e até fundidas durante a Revolução – o que pode ter sido o destino impensável das joias roubadas em outubro. Um dos larápios deixou cair a coroa da imperatriz Eugênia, deixando-a torta, mas com boas condições de ser restaurada.

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A presidente do museu, Laurence des Cars, deveria ter pedido demissão imediatamente – e o pedido deveria ter sido aceito. Mas só agora foi substituída por um curador bem cotado, Christophe Leribault, transferido da direção do Palácio de Versalhes (que também vai aumentar os ingressos, para salgados 35 euros).

O patrimônio artístico e histórico da França é provavelmente o maior do mundo e com certeza dá um trabalho danado para mantê-lo, o que não exime a ex-diretora do Louvre da responsabilidade pelo que aconteceu, pois o roubo foi sob sua direção. A cadeia de comando deveria chegar até Rachida Dati e, possivelmente, o presidente. Talvez seja por isso que Macron tenha preferido um caminho francês de manter as aparências, acalmar os ânimos e esperar quatro meses para fazer a troca.

O fiasco do Louvre contribuiu para a imagem de presidente fracassado de Macron, um jovem tecnocrata que deveria chacoalhar a política e fazer as reformas sem as quais o país embica para problemas cada vez mais insolúveis para manter o insustentável estado de bem-estar social. A decepção é terrível justamente porque ele despertou tantas expectativas com sua notável inteligência e capacidade de discorrer sobre qualquer questão do universo.

ASSASSINATO CHOCANTE

Hoje, 77% dos franceses o desaprovam e não é impossível que finalmente a direita pura e dura rompa o cordão sanitário criado em torno dela pela aliança de todos os partidos nos segundos turnos presidenciais. O eleito poderia ser Marine Le Pen, caso consiga superar a barreira da inelegibilidade por condenação judicial, ou Jordan Bardella, jovem, de boa aparência e discurso cortante – lembrando algo de Macron quando surgiu no universo político e se tornou presidente sem nunca antes ter ocupado um cargo eletivo. Adicionalmente, ele não carrega a bagagem de ter o sobrenome Le Pen.

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Pelos padrões atuais, Bardella seria até um moderado. A extrema direita avançou, da mesma forma que a extrema esquerda e, num episódio difícil de acontecer numa democracia, redundou num assassinato chocante, o de Quentin Deranque, militante extremista morto a socos e pontapés desfechados por integrantes de um grupo trotsquista radical.

A qualidade de vida continua a ser excepcional da França, mesmo para quem tem rendimentos apenas médios e precisa segurar a carteira para chegar ao fim do mês diante dos altos custos. Querer que os “não europeus” arquem com uma parte da conta de reformas necessárias para o Louvre, assolado por recentes vazamentos e até um esquema de fraude na cobrança de ingressos, apela aos sentimentos nacionalistas da plebe. Os turistas que se virem.

Como é possível ir a Paris sem ver o sorriso misterioso da jovem beldade florentina que há mais de 500 anos fascina o mundo com sua ambiguidade, mesmo tendo que enfrentar as filas infindáveis e, futuramente, um golpe no bolso?

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