Precarização do trabalho no Brasil

Precarização do trabalho no Brasil

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“Para onde vai o trabalho?”, questiona a capa da revista virtual ESG Insights, lançada hoje (10/03). Pergunta difícil e necessária. Na última década, o mercado de trabalho enfrentou desafios como a reforma trabalhista, a crise econômica e a pandemia e se redesenhou a cada novo dilema.

“A questão central já não é apenas gerar empregos, mas que tipo de trabalho, com que direitos e para qual projeto de país”, diz José Eustáquio Diniz, sociólogo, mestre em Economia e doutor em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em entrevista à publicação, disponível para download gratuito no site ESG Insights.

TENDÊNCIA GLOBAL

A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada no final de janeiro pelo IBGE. Os números são uma boa notícia, mas não evidenciam o cenário de precarização vivido por boa parte dos trabalhadores, uma tendência, aliás, global.

Segundo relatório lançado em janeiro deste ano pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o desemprego global deverá manter-se estável em 2026 e os avanços rumo ao trabalho digno continuarão estagnados.

O mercado informal deve atingir 2,1 bilhões de trabalhadores em 2026, com um acesso limitado à proteção social, aos direitos laborais e à segurança no emprego. Aproximadamente 284 milhões de trabalhadores vivem em pobreza extrema (menos de US$ 3 por dia).

No Brasil, segundo a revista ESG Insights, a informalidade caiu durante a primeira década do século 21, voltou a subir após a recessão de 2015-2016 e, desde 2022, estabilizou-se em torno de 38-40% dos ocupados.

Uma das categorias que mais sofre com isso é a dos trabalhadores de aplicativo: 71,1% dos motoristas e entregadores estavam em situação de informalidade em 2024, enquanto a informalidade dos não plataformizados era de 43,8%, segundo dados da Pnad Contínua divulgados no final de 2025 pelo IBGE.

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De acordo com pesquisa do Cebrap, os trabalhadores de aplicativos (entregadores e motoristas) são majoritariamente pretos e pardos (68% e 62%) e concentram-se na classe C ou inferior (80% e 75%).

PERFIL DO TRABALHADOR MUDOU E A RELAÇÃO COM O TRABALHO TAMBÉM

“Temos menos empregos, mais contratos temporários, intermitentes, ‘autônomo dependentes’ [sem vínculo empregatício] e expansão do trabalho por demanda”, analisa Diniz em reportagem da revista. Segundo ele, “a precarização se sofisticou, tornando-se menos visível juridicamente e mais difusa socialmente”.

Um fenômeno que também atinge os empregos formais do país, fazendo com que se aproximem cada vez mais da informalidade, com mudanças de contratos de trabalho com base no modelo CLT para outros na modalidade de pessoa jurídica (PJ).

O perfil do trabalhador mudou e a relação que ele estabelece com o trabalho, também.

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“Não temos exatamente uma nova classe trabalhadora, mas talvez uma classe sujeita a novos mecanismos de exploração”, diz Fillipi Nascimento, doutor em sociologia e um dos autores do livro A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filha do rico (Editora Jandaíra), em entrevista à publicação ESG Insights.

JOVENS E OS COM MAIS DE 50 ANOS SÃO OS MAIS PREJUDICADOS

Quase seis em cada dez trabalhadores (57,3%) afirmam estar difícil ou muito difícil conseguir trabalho no país, segundo dados da Sondagem do Mercado de Trabalho, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), em outubro do ano passado.

O levantamento aponta que duas faixas etárias são as mais prejudicadas no mercado de trabalho. Ente os jovens de 18 a 24 anos, 68% relatam dificuldade em conseguir o primeiro emprego. Entre os trabalhadores com mais de 50 anos, 61% dizem enfrentar rejeição devido à idade.

De acordo com a OIT, um em cada cinco jovens – o correspondente a 260 milhões de pessoas em todo o mundo – está fora do mercado de trabalho e de programas de educação e formação profissional.

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O mercado está mais exigente, com um número restrito de ofertas de vagas formais e concentração de oportunidades de baixa remuneração. Um cenário que afeta não apenas as pessoas com baixa escolaridade, mas também as com curso técnico e diploma universitário.

“A educação melhora vidas, mas não consegue compensar todas as desvantagens que as pessoas têm. Sobretudo aquelas que já nascem num contexto marcado por dificuldades”, afirma Nascimento à ESG Insights.

Entre os 15 cursos com maior número de matriculados no país, apenas 1 em cada 10 graduados consegue ingressar no mercado em cargos compatíveis com a formação, aponta o levantamento O ensino e o mercado de trabalho – análise de cenário, da Geofusion, a partir de dados do Ministério da Educação (MEC) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

MERCADO DE TRABALHO ESTÁ ADOECENDO

Um contexto que acaba tendo reflexos para além do trabalho. Apenas em 2024, mais de 472 mil brasileiros precisaram se afastar temporariamente de seus empregos por questões de saúde mental, segundo o Ministério da Previdência Social (MPS). Isso corresponde a um aumento de 134% nos afastamentos ao longo dos últimos dois anos no país.

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O relatório Estado do Ambiente de Trabalho Global 2025, da empresa de análise e consultoria Gallup, considerado o mais amplo levantamento desse tipo no mundo, confirma que o mercado de trabalho global está doente, com níveis recordes de desengajamento, esgotamento mental e solidão. De acordo com o relatório, 40% dos empregados experimentaram um alto nível de estresse no dia anterior à pesquisa e pouco mais de um quinto experimentaram raiva extrema (21%) ou tristeza (23%).

“A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”, como diz a canção de 1987 de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto. Hoje, o debate implica ainda um repensar sobre o trabalho, o mercado e as consequências sociais e emocionais das mudanças que nem sempre são para melhor e não param de acontecer.

Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

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