Pesquisa inédita: o impacto da cannabis em paciente com Alzheimer

Pesquisa inédita: o impacto da cannabis em paciente com Alzheimer

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Um grupo de 13 pesquisadores brasileiros cruzou uma barreira importante no tratamento da Alzheimer ao observar melhora significativa da memória em pacientes tratados com doses muito reduzidas de cannabis medicinal. O esquecimento é um dos principais sintomas da doença. Em geral, eles não se lembram de acontecimentos corriqueiros ocorridos minutos antes e, em estados mais avançados, sofrem uma espécie de apagão dessa função. Até então, estudos com canabinoides haviam demonstrado avanços sobretudo em sintomas comportamentais, como agitação, distúrbios do sono e alterações de humor. “É o primeiro estudo clínico do mundo que testa a cannabis na cognição”, afirma o pesquisador Francisney Pinto Nascimento, coordenador do estudo liderado pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

Vinte e oito voluntários, com idades entre 60 e 80 anos, em estado inicial e médio da doença, participaram do ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — considerado o padrão-ouro da medicina baseada em evidências. Na prática, isso significa que nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quem estava recebendo o extrato de cannabis ou o placebo, o que reduz vieses e aumenta a confiabilidade dos resultados. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu um extrato de cannabis full spectrum, com microdoses de THC (cerca de 0,35 mg) e CBD (aproximadamente 0,24 mg), enquanto o outro recebeu placebo. A avaliação da função cognitiva foi feita por meio do Miniexame do Estado Mental (MMSE), um dos instrumentos mais utilizados internacionalmente para medir desempenho cognitivo.

Ao final de seis meses de acompanhamento, os pesquisadores observaram melhora estatisticamente significativa na função cognitiva — especialmente na memória — dos pacientes que receberam o extrato de cannabis, em comparação com o grupo placebo. Também foi identificada redução de sintomas neuropsiquiátricos, como ansiedade e agitação, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores. Outro ponto relevante é o perfil de segurança: não foram registrados efeitos adversos graves ao longo das 26 semanas, o que reforça o potencial terapêutico da substância quando administrada em doses baixas e sob supervisão médica.

Do ponto de vista biológico, os autores sugerem que os efeitos observados podem estar associados à ação anti-inflamatória e antioxidante dos canabinoides, além de possíveis impactos sobre o hipocampo, região do cérebro diretamente ligada à memória e uma das mais afetadas pela doença.

Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores destacam que se trata de um estudo de fase 2, com amostra relativamente pequena. Isso significa que os achados ainda precisam ser confirmados em estudos maiores, com um número mais amplo de participantes e acompanhamento mais longo, antes que a abordagem possa ser incorporada de forma definitiva à prática clínica.

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Ainda assim, o trabalho coloca o Brasil no centro de uma agenda científica emergente e altamente relevante, ao oferecer evidências iniciais robustas de que a cannabis medicinal pode ir além do controle de sintomas e, potencialmente, atuar sobre aspectos centrais da doença — um avanço significativo em um campo que ainda enfrenta grandes limitações terapêuticas.

 

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