Pedro Ludovico despachava sob moreira na Rua 24 em Goiânia

Pedro Ludovico despachava sob moreira na Rua 24 em Goiânia

Antes de o Palácio das Esmeraldas se tornar a sede do governo de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira chegou a despachar sob uma árvore moreira na Rua 24, no Centro de Goiânia. O episódio remonta aos primeiros anos da década de 1930, quando a nova capital ainda estava em construção e a estrutura administrativa prevista para a cidade não havia sido concluída. Uma pesquisa acadêmica da PUC Goiás registra a árvore da Rua 24 associada aos despachos do então interventor. O Palácio Provisório formal do governo, no entanto, funcionaria depois em um prédio da Rua 20, enquanto a Praça Cívica ganhava as estruturas projetadas para abrigar o poder estadual.

A imagem de Pedro Ludovico trabalhando sob a árvore atravessou a memória da cidade e fez o ponto ficar associado à ideia de um primeiro “Palácio do Governo”. A expressão deve ser entendida de forma simbólica, porque a documentação histórica distingue os despachos realizados na Rua 24 da sede administrativa instalada posteriormente na Rua 20. O episódio mostra uma Goiânia diferente daquela hoje marcada pelos edifícios Art Déco do Centro, com decisões sendo tomadas enquanto ruas, repartições e residências ainda saíam do papel. A trajetória do interventor e a relação entre a construção da capital e o poder político também foram recuperadas pelo Mais Goiás em reportagem sobre Pedro Ludovico.

Era uma moreira

A identificação oficial do exemplar histórico é “moreira”, e não apenas uma referência genérica a um pé de amora. A Lei municipal nº 8.616, de 2008 tombou expressamente a “Centenária Árvore Moreira”, localizada na Rua 24, nº 580, no Setor Central. A norma incluiu no tombamento todo o terreno onde a árvore estava plantada e proibiu corte, mutilação, retirada, derrubada ou remoção do bem protegido. O reconhecimento municipal formalizou como patrimônio um local que já carregava parte da memória dos primeiros anos de Goiânia.

A confusão com “amoreira” também aparece em registros de memória sobre a cidade. Trabalho acadêmico da UFG que reproduz relato do primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, usa a expressão “velha amoreira” ao descrever encontros realizados na Rua 24 antes da inauguração do Grande Hotel.

A denominação oficial adotada no tombamento municipal, porém, é Moreira, razão pela qual ela é a forma mais precisa para identificar a árvore histórica na reportagem. O relato de Venerando acrescenta outro aspecto ao endereço: além da ligação com Pedro Ludovico, o espaço também serviu como ponto de convivência nos primeiros anos da nova capital.

Cidade começou a ser erguida em 1933

A construção de Goiânia ganhou forma institucional em 1933, depois de estudos para definir onde a nova capital seria implantada. Segundo a história oficial publicada pela Prefeitura de Goiânia, o Decreto estadual nº 3.359, de 18 de maio daquele ano, escolheu a região das fazendas Crimeia, Vaca Brava e Botafogo, próxima ao então município de Campinas. Em 24 de outubro, Pedro Ludovico lançou a pedra fundamental no local definido pelo engenheiro, arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima. A cidade começava a ser construída enquanto o governo ainda precisava administrar o estado e organizar a transferência de sua estrutura.

O período ajuda a explicar por que um governante podia despachar debaixo de uma árvore enquanto planejava uma capital concebida para representar modernização. Era necessário abrir ruas, construir imóveis, receber trabalhadores e instalar serviços antes que os edifícios públicos estivessem disponíveis. Reportagem do Mais Goiás sobre o Grande Hotel mostrou que as primeiras obras consideradas prioritárias incluíam o Palácio do Governo, o hotel e a prefeitura. O mesmo período reuniu alojamentos, barracões e outras estruturas necessárias para manter o canteiro de obras da futura capital em funcionamento.

Palácio Provisório foi para a Rua 20

Prédio da Rua 20 que abrigou o Palácio Provisório do Governo de Goiás durante a construção de Goiânia e hoje integra a Casa da Memória (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A etapa seguinte da administração estadual ganhou endereço na Rua 20. A Casa da Memória da Universidade Federal de Goiás informa que dez prédios foram concluídos inicialmente naquela via e que um deles funcionou como Palácio Provisório do Governo de Goiás. O imóvel foi utilizado para decisões relacionadas aos rumos da nova capital enquanto o Palácio das Esmeraldas estava sendo erguido. O prédio fica no nº 19 da Rua 20 e hoje integra a Casa da Memória, espaço ligado à preservação de documentos e da história institucional da UFG e da Justiça Federal.

A sequência permite entender o papel de cada endereço sem transformar memória popular em sede administrativa oficial. A Rua 24 pertence ao momento dos despachos sob a árvore durante a implantação da cidade, enquanto a Rua 20 passou a oferecer uma estrutura física ao governo. O processo ocorria à medida que Goiânia deixava de ser apenas um projeto urbanístico e recebia repartições, funcionários e moradores. Fotografias e relatos sobre esse período também aparecem em reportagem do Mais Goiás sobre os primeiros registros visuais da capital, com imagens de avenidas ainda vazias e prédios em construção.

Praça Cívica foi planejada para concentrar o poder

A estrutura definitiva seguia uma lógica diferente da improvisação dos primeiros anos. Attilio Corrêa Lima projetou o núcleo urbano com o centro administrativo ocupando posição de destaque e vias convergindo para a região da Praça Cívica. Ali seriam instalados o Palácio das Esmeraldas e outros edifícios públicos que passariam a representar a administração estadual na nova capital. A configuração espacial permanece como uma das características do conjunto urbanístico protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

A arquitetura adotada nos edifícios públicos passou a compor a identidade visual de Goiânia. O Mais Goiás mostrou em levantamento sobre o Art Déco que 22 edifícios e monumentos públicos são reconhecidos como patrimônio pelo Iphan, com forte concentração no eixo entre a Praça Cívica e a Avenida Goiás. Entre os exemplares aparecem o Palácio das Esmeraldas, o Museu Zoroastro Artiaga, o Teatro Goiânia e o Grande Hotel. A Portaria nº 201/2024 do Iphanregulamenta parâmetros de preservação do Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia.

Mudança da capital foi além da arquitetura

A criação de Goiânia também precisa ser compreendida dentro da reorganização política iniciada depois da Revolução de 1930. Getúlio Vargas nomeou Pedro Ludovico interventor em Goiás, e a transferência da capital tornou-se um dos principais projetos de sua administração. A própria Prefeitura registra que Ludovico defendia a mudança como forma de estimular a ocupação territorial, ampliar a produção econômica e aproximar o Centro-Oeste do Sul do país. Ao mesmo tempo, o projeto enfrentou oposição de grupos que consideravam a construção de uma nova cidade cara e desnecessária.

A historiografia também identifica uma dimensão de disputa pelo poder no processo. O Mais Goiás já mostrou que a ascensão de Pedro Ludovico ocorreu em contraposição aos grupos políticos ligados à ordem anterior e que a mudança retirava o centro político da Cidade de Goiás. A nova capital aparecia no discurso oficial associada a progresso, modernização e integração econômica, em oposição à imagem de atraso atribuída ao antigo centro administrativo. Pesquisas acadêmicas da UFG mostram como essa ideia de modernização se tornou uma das bases simbólicas usadas para explicar e legitimar a construção de Goiânia.

Da árvore aos símbolos da nova capital

Em poucos anos, o cenário em torno de Pedro Ludovico mudou de forma significativa. A administração que atravessou uma fase de despachos em estruturas provisórias passou a ocupar edifícios construídos para representar a nova capital, enquanto hotéis, repartições, residências e equipamentos públicos modificavam o Centro. A casa onde Pedro Ludovico viveu entre os primeiros anos da cidade também se tornou patrimônio e atualmente abriga o Museu Pedro Ludovico, cuja história e acervo foram mostrados pelo Mais Goiás. O imóvel foi construído entre 1934 e 1937 e preserva objetos e documentos relacionados ao fundador e à formação de Goiânia.

A moreira da Rua 24 pertence a uma camada menos monumental dessa mesma história. Seu valor não está em ter sido formalmente um palácio, mas em registrar um período em que as estruturas definitivas do governo ainda não acompanhavam a velocidade do projeto político de construir uma nova capital. O tombamento municipal de 2008 reconheceu essa relação ao proteger tanto a árvore quanto o terreno onde ela estava localizada. Antes dos gabinetes da Praça Cívica, a história administrativa de Goiânia também passou pela sombra de uma árvore no Centro.

Fonte Original Mais Goias

Ultimas Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *