Microsoft e McKinsey pagam até US$ 1 milhão para bancar espaço ligado a Trump em Davos

Microsoft e McKinsey estão entre as grandes companhias americanas que desembolsaram até US$ 1 milhão cada para patrocinar um espaço privado que servirá de base informal para integrantes do governo dos Estados Unidos durante a participação do presidente Donald Trump no Fórum Econômico Mundial, em Davos, ainda neste mês.
Batizado de USA House, o local simboliza a reaproximação explícita entre setores do grande capital americano e a Casa Branca, em um momento de forte reposicionamento dos EUA na política global.
Instalado em uma pequena igreja anglicana do século XIX, fora do perímetro oficial de segurança do fórum, o espaço foi concebido para funcionar como vitrine política e empresarial da nova administração.
Segundo material de divulgação, o objetivo é “apoiar a delegação americana” e dar visibilidade às marcas patrocinadoras diante de líderes políticos, investidores e executivos que circulam pelo encontro anual da elite global.
Além da Microsoft e da consultoria McKinsey, a empresa de criptomoedas Ripple também confirmou apoio financeiro à iniciativa. O JPMorgan Chase foi procurado, mas ainda não formalizou participação.
Pessoas envolvidas nas negociações afirmam que os valores pagos variam conforme o pacote de visibilidade e acesso, mas podem chegar a US$ 1 milhão.
O modelo segue uma prática comum em Davos: paralelamente à programação oficial do Fórum Econômico Mundial, governos e empresas alugam hotéis, lojas ou espaços religiosos para sediar encontros fechados, painéis e eventos de networking. Países como Arábia Saudita, Suíça e Bélgica mantiveram estruturas semelhantes em edições recentes. A diferença, neste caso, está no caráter assumidamente alinhado ao discurso político de Trump.
A coordenação do USA House está a cargo de Richard Stromback, investidor e figura conhecida em Davos, famoso por organizar festas exclusivas durante o evento. Em entrevistas passadas, Stromback afirmou desejar transformar o fórum em algo semelhante a um “Burning Man para bilionários”, em referência ao festival alternativo realizado no deserto de Nevada.
O espaço será decorado com símbolos patrióticos americanos e material comemorativo dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, celebrados em 2026. A programação detalhada ainda não foi divulgada, mas os temas anunciados no site incluem slogans caros ao trumpismo, como “paz por meio da força”, “ativos digitais e resiliência econômica” e “iniciativas baseadas na fé”.
Embora o site do USA House ressalte que o projeto é “privadamente organizado” e que “não representa oficialmente o governo dos Estados Unidos”, os organizadores informam que haverá protocolos rigorosos de segurança, em razão da presença de autoridades de alto escalão da administração Trump.
A volta de Trump a Davos ocorre em um contexto internacional sensível. Sua intervenção militar recente na Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro, deve dominar debates nos bastidores, ao lado do impacto da operação sobre o mercado global de petróleo.
Em sua última participação no fórum, ainda por videoconferência, Trump atacou o Acordo de Paris e prometeu “libertar o ouro líquido” dos combustíveis fósseis, em discurso que acentuou o distanciamento dos EUA das agendas climáticas multilaterais.
Para analistas, o patrocínio empresarial ao USA House indica um cálculo pragmático das grandes corporações americanas. Ao mesmo tempo em que mantêm discurso público de neutralidade política, buscam preservar canais diretos com um governo que tem adotado posições agressivas em comércio, clima, energia e geopolítica, mas que também promete desregulamentação e incentivos ao setor privado.
Procurada, a Casa Branca não comentou a iniciativa. Microsoft, McKinsey, Ripple e JPMorgan preferiram não se manifestar.
Nos bastidores de Davos, contudo, diplomatas europeus e representantes de ONGs veem o espaço como mais um sinal de que Trump pretende usar o fórum não apenas como palco de diálogo, mas como instrumento de projeção ideológica e econômica dos Estados Unidos.
