Lula minimiza evidências colhidas pela PF e defende Lulinha e Marcola: ‘Ilações tiradas de telefonemas’

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Em sabatina nesta quinta-feira, 27, na TV Globo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu em defesa do filho Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, e do ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Para o petista, até o momento apenas “ilações” e nenhuma prova foi apresentada contra eles.
Segundo investigação da Polícia Federal, a qual VEJA teve acesso, não há dúvida de que Roberta Luchsinger mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e Fernando Bittar para intermediar negócios. “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados. Nas mensagens, a lobista Roberta jactava-se de uma suposta proximidade com o presidente Lula. Segundo ela, o petista já teria, inclusive, lhe oferecido um cargo no governo. Roberta conta que não aceitou. Em conversa com um empresário em 2024, explicou que preferiu se dedicar à “sociedade” com o filho do presidente. “Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.” E explicou o porquê: “Tô em cargo nenhum e ando onde quero”.
Na sabatina na Globo, Lula disse que não conhece Roberta, apesar de já ter tirado foto com o lobista. “Nunca vi e nem sei quem é essa mulher”, afirmou. Para o petista, a afirmação da lobista em ter recebido convite para trabalhar no governo não procede e classificou o caso como “imbecilidade”. Lula também a ofendeu ao chamá-la de “pilantra”.
Contra Lulinha existem hoje três inquéritos em andamento na Polícia Federal que apuram tráfico de influência junto ao governo federal. O petista voltou a afirmar que, em caso de comprovação de delitos cometidos pelo filho, ele vai pagar diante do devido processo legal, mas que não vê nenhuma prova até o momento. “Não tem nenhuma acusação, só ilações, ilações tiradas de telefonemas. Conheço muito bem, porque vivi isso (na Lava Jato). Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele tem que pagar como qualquer brasileiro. Não vou afastar delegado da PF, como outros já fizeram”, disse.
Já Marcola, ex-chefe de gabinete do petista, que recebeu recursos oriundos de Roberta, Lula afirmou acreditar que se tratou de um empréstimo. O petista disse que conhece Marcola há pelo menos sete anos, e classificou o episódio como “não adequado”. “Totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete”, afirmou Lula.
De acordo com a PF, como VEJA mostrou, Lulinha já estava se mexendo nos bastidores havia algum tempo. O grupo precisava de acesso ao Ministério da Saúde. Coube a Marcola marcar uma reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta. Essa reunião só aconteceu depois da interferência de Lulinha. “Pousei. Vou lá no Berge”, disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”, ironiza o primogênito. Roberta não esconde o objetivo: “Precisamos 100% do Berger”.
Após o encontro, Marcola recebeu a minuta de um documento que liberava a produção de medicamentos à base de canabidiol. Nesse mesmo período, Roberta passou a pagar contas pessoais do auxiliar do presidente. Entre fevereiro e novembro de 2024, foram 217 098 reais em faturas de cartão de crédito, boletos de apólice de seguro, financiamento do carro, um par de brincos e um pingente de diamantes com que ele presenteou a esposa. Homem de confiança de Lula, Marcola possuía acesso direto ao gabinete de Lula, testemunhava inclusive conversas fora da agenda oficial e até atendia o celular do presidente. Ele acabou sendo exonerado em julho passado, por ordem do presidente. Em sua defesa, garante que as transações foram parte de um empréstimo, que ele quitou depois, e que sua demissão nada teve a ver com isso. A lobista Roberta confirma a história do empréstimo pessoal. Até onde se sabe, Marcola não é investigado no caso.
Jaques Wagner e o banco Master
Lula também saiu em defesa do senador Jaques Wagner (PT), alvo de uma das fases de operação da Policia Federal envolvendo o banco Master, como VEJA mostrou dias antes da ação policial. “Ele é senador da República, candidato à reeleição, é um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista. Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação”, disse o petista, que afirmou na sequência confiar na honestidade de Wagner.
Crise financeira dos Correios
Em outro momento da entrevista para TV Globo, Lula foi questionado sobre dívidas de estatais, como os Correios, por exemplo, que acumula prejuízo de 15 bilhões nos últimos anos. Para o petista, não há motivo para privatizar a empresa. “Não considero vender os Correios. Quero recuperar os Correios. E para ele prestar serviço de qualidade (…) obviamente que os Correios são vítimas de uma crise, que ele não se adaptou a um novo tempo”, afirmou.
Dívida Pública
O candidato ao quarto mandato afirmou também que não está preocupado com a trajetória da dívida pública, que saltou de 72% do produto interno bruto (PIB) para 82% durante o seu terceiro mandato. A própria equipe econômica projeto que a dívida chegará a 87% até 2029. “A mim, não preocupa a dívida pública”, afirmou o presidente-candidato durante a sabatina. Lula atribuiu o aumento da dívida ao fato de o Brasil ter crescido pouco nos últimos anos, o que elevaria a proporção dos compromissos em relação ao PIB. “Na medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair”, disse. O presidente também minimizou o atual nível de endividamento, comparando a situação brasileira à de outros países como os Estados Unidos, cuja dívida alcançou o recorde de 40 trilhões de dólares – equivalente a 120% do PIB americano.
