Já estamos na Terceira Guerra Mundial? O debate entre acadêmicos

Já estamos na Terceira Guerra Mundial? O debate entre acadêmicos

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No início desta semana, um ataque da Ucrânia contra um navio comercial do Irã no Mar Cáspio fez subir as tensões entre os dois países e mais: levantou questionamentos sobre o risco das guerras no Oriente Médio e no Leste Europeu se amalgamarem em um único conflito.

O cenário geopolítico contemporâneo, marcado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, que caminha para seu quinto ano, e pela escalada militar no Oriente Médio desde que os ataques terroristas do Hamas contra Israel precipitaram sobre a Faixa de Gaza um conflito que ainda se arrasta apesar de um cessar-fogo, trouxe de volta um fantasma que parecia enterrado: a eclosão de um conflito global em larga escala.

Para o público em geral, o temor é palpável; pesquisas recentes mostram que a maioria dos cidadãos no Reino Unido, Estados Unidos, França e Canadá acredita que a Terceira Guerra Mundial é provável nos próximos cinco a dez anos. No entanto, entre os especialistas, a questão não é sobre o futuro, mas sobre o presente, dividindo acadêmicos entre os que veem uma conflagração já em curso e os que pregam cautela.

O argumento da “guerra por mil cortes”

Para uma ala crescente de analistas, a Terceira Guerra Mundial não começou com um anúncio formal, mas com a interconexão de conflitos regionais que agora envolvem as maiores potências do globo. O professor de ciência política da Universidade de Chicago, Paul Poast, é um dos principais defensores dessa tese.

Ele argumenta que a existência de duas frentes de batalha simultâneas em continentes diferentes (Ucrânia e Irã), com o envolvimento direto e cruzado de Estados Unidos, Rússia e Israel, já configura, tecnicamente, uma guerra mundial. Além do ataque ucraniano ao navio iraniano nesta semana, sabe-se que trinta mil soldados norte-coreanos estão a caminho da linha de frente russa. Enquanto isso, drones Shahed, fabricados no Irã, caem sobre Kiev há meses — e agora vêm sendo abatidos por especialistas ucranianos enviados ao Golfo Pérsico para ajudar a proteger aliados americanos em meio ao conflito no Oriente Médio.

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Ainda segundo Poast, enquanto Washington fornece treinamento e inteligência aos ucranianos, a Rússia faz o mesmo pelo Irã, criando um entrelaçamento onde as potências fazem tudo, “menos puxar o gatilho”.

Nessa mesma linha, o megainvestidor Ray Dalio e a analista de segurança Fiona Hill sustentam que vivemos uma era de “conflitos sistêmicos”. Dalio aponta que as alianças já estão claramente delineadas: de um lado, o “eixo da desordem” composto por Rússia, China, Irã e Coreia do Norte; do outro, os Estados Unidos e seus aliados ocidentais. Ele ressalta que as guerras modernas não são apenas cinéticas, mas abrangem domínios econômicos, tecnológicos e cibernéticos, funcionando como uma “guerra por mil cortes” que mimetiza a dinâmica que precedeu as grandes guerras do século XX.

O economista Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, e os analistas de segurança nacional americana Mark Toth e Jonathan Sweet vão além, sugerindo que a invasão russa de 2022 foi o marco inicial desse conflito. Eles defendem que a guerra híbrida — que utiliza desinformação, ataques cibernéticos e sabotagens — já rompeu a ordem internacional do pós-Segunda Guerra. Para esses teóricos, a percepção de que não estamos em guerra deve-se apenas ao fato de não haver, ainda, uma troca maciça de mísseis nucleares, embora a infraestrutura global e a segurança digital já estejam sob ataque constante.

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Por que o conflito global ainda é improvável

Do outro lado do debate, acadêmicos como Jasen Castillo e John Schuessler, da Texas A&M University, argumentam que as comparações com as guerras mundiais passadas são exageradas. Eles defendem que um conflito só pode ser classificado como “mundial” se envolver um confronto direto entre grandes potências em múltiplas regiões geográficas. Para Castillo, o Estado russo atual é uma “pobre imitação” do que foi a União Soviética no passado e não possui a mesma capacidade de ameaça global, o que reduz as chances de uma escalada que arraste o mundo inteiro para uma trincheira única.

Segundo essa perspectiva, a peça que falta para configurar uma Terceira Guerra Mundial é a China. Enquanto Pequim não entrar em um conflito direto contra os Estados Unidos, por exemplo em Taiwan, as guerras na Ucrânia e no Irã permanecem como crises regionais severas, mas contidas. Luigi Scazzieri, do think tank Centre for European Reform, reforça que o envolvimento ocidental no Oriente Médio ainda é limitado e que a Rússia, debilitada, teria dificuldades em apoiar a república islâmica de forma decisiva, o que impede a fusão das frentes de batalha em um único teatro global.

Além disso, analistas como Andrea Kendall-Taylor, do Center for a New American Security (CNAS), e Richard Overy, historiador consagrado pelo estudo do período entre-guerras, destacam que a existência de armas nucleares e a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD) ainda funcionam como o maior freio contra uma guerra total. Eles argumentam que, embora o “eixo da desordem” coopere entre si, esses países agem com extrema cautela para evitar um confronto frontal com o poderio militar americano.

No fim, como aponta Gavriel Rosenfeld, professor de história da Universidade de Fairfield, em Connecticut, uma guerra mundial só passa a existir quando há um consenso subjetivo de que ela ocorreu — algo que, muitas vezes, só é registrado pelos livros de história décadas depois do primeiro tiro ter sido disparado.

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