Irã pressiona por direito ao enriquecimento nuclear e testa limites de Trump em rodada decisiva com EUA
Irã e Estados Unidos iniciaram nesta quinta-feira a terceira rodada de negociações nucleares desde a guerra de junho de 2025, em um esforço para evitar uma nova escalada militar no Oriente Médio.
Teerã sustenta que um acordo “justo e rápido” está ao alcance, desde que Washington aceite três condições consideradas inegociáveis.
As demandas incluem o reconhecimento do direito iraniano ao enriquecimento de urânio para fins pacíficos, a possibilidade de diluição de seus estoques altamente enriquecidos e a exclusão do programa de mísseis balísticos da mesa de negociações.
As conversas ocorrem em Genebra, com mediação de Omã, e reúnem o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, e o enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff.
Também participa o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, cuja presença é vista por Teerã como um sinal de que eventuais compromissos técnicos poderão ser formalmente validados pelo órgão da ONU.
O pano de fundo é a crescente tensão entre os dois países desde que os EUA, sob ordens do presidente Donald Trump, bombardearam instalações nucleares e militares iranianas em junho do ano passado, em meio ao conflito entre Israel e Irã.
A ofensiva interrompeu negociações anteriores e reacendeu temores de uma guerra regional de maiores proporções.
Enriquecimento limitado a 5%
Segundo fontes próximas à delegação iraniana, Witkoff teria sinalizado disposição para aceitar que o Irã mantenha o enriquecimento de urânio abaixo de 5% de pureza,
Esse é o patamar compatível com uso civil e semelhante ao previsto no acordo nuclear de 2015, firmado durante o governo de Barack Obama. O índice está muito abaixo do necessário para armas nucleares.
O ponto, porém, é politicamente sensível. Em seu discurso anual ao Congresso, Trump endureceu o tom, acusando o Irã de retomar “ambições sinistras” e de reconstruir seu programa nuclear.
Também voltou a classificar Teerã como o maior patrocinador do terrorismo e afirmou que mísseis iranianos poderiam alcançar a Europa. A retórica contrastou com a linha mais pragmática atribuída a Witkoff nas negociações indiretas.
O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que seria “um grande problema” se o Irã se recusasse a discutir seu arsenal de mísseis balísticos — exatamente um dos pontos que Teerã insiste em manter fora do acordo.
Sanções como moeda central
Apesar da suposta flexibilidade americana quanto ao nível de enriquecimento, autoridades iranianas afirmam que a proposta inicial apresentada por Witkoff e por Jared Kushner não inclui alívio imediato de sanções nem restabelecimento de relações diplomáticas. Na prática, o Irã continuaria sob forte asfixia econômica, com promessas de revisão gradual apenas em etapas futuras.
Para Teerã, a retirada “irreversível” de sanções, incluindo a liberação de ativos congelados no exterior, é condição essencial.
A economia iraniana enfrenta inflação elevada, desvalorização cambial e pressão social crescente, em meio a protestos universitários que se estendem por dias consecutivos.
Em entrevista recente à emissora CBS, Araghchi reiterou que o Irã “jamais buscará armas nucleares”, mas não abrirá mão de seu direito à tecnologia nuclear pacífica.
A posição ecoa uma fatwa do líder supremo iraniano proibindo armas atômicas, frequentemente citada por autoridades como garantia doutrinária.
O papel da AIEA e o precedente de 2003
A presença de Rafael Grossi nas conversas reforça a dimensão técnica do impasse.
Após o conflito com Israel, o Irã suspendeu parte da cooperação com a AIEA, dificultando a verificação de estoques de urânio enriquecido próximos ao grau militar. Um eventual acordo exigirá mecanismos robustos de inspeção e transparência.
Não seria a primeira vez que Teerã aceita uma suspensão temporária. Em 2003, sob pressão internacional, o então secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Hassan Rouhani, concordou com França, Alemanha e Reino Unido em interromper atividades de enriquecimento e permitir inspeções surpresa da ONU.
A diferença, agora, é o contexto geopolítico mais volátil. Omã, tradicional mediador entre Washington e Teerã, tenta construir “garantias sustentáveis”, segundo comunicado de seu chanceler, Badr al-Busaidi, que descreveu as negociações como marcadas por “abertura sem precedentes a ideias criativas”.
Risco de nova guerra
No Congresso americano, democratas alertam para o risco de nova intervenção militar. O deputado Jim Himes afirmou não haver “nenhuma razão convincente” para iniciar outro conflito no Oriente Médio.
O próprio Grossi declarou, antes de viajar a Genebra, que a situação é “muito perigosa” diante do reforço militar dos EUA na região e da possibilidade de fracasso diplomático.
Se as negociações colapsarem, o cenário inclui desde novas sanções até ataques direcionados a instalações nucleares. O Irã já advertiu que retaliaria, inclusive contra Israel, ampliando o risco de um conflito regional de grandes proporções.
