Idoso cava poço em busca de água e descobre petróleo no Ceará
(Folhapress) Quando pegou R$ 15 mil emprestados para cavar um poço em busca de água em sua propriedade, o agricultor Sidrônio Moreira não imaginava que viraria celebridade na região da Chapada do Apodi, na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte.
“Na primeira tentativa, saiu um líquido preto e depois parou”, conta um dos filhos de Sidrônio, Saulo Santiago Moreira. “Tentamos um poço em outra área, mas não deu nada. Um tempo depois, meu irmão tentou limpar o primeiro poço, puxou uma caneca cheia de líquido e disse: ‘Isso aqui é petróleo’.”
O caso ocorreu em 2024. Uma amostra do produto foi enviada ao IFCE (Instituto Federal do Ceará), em Tabuleiro do Norte, a 210 quilômetros de Fortaleza, que a testou e identificou similaridades com o petróleo produzido em campos terrestres na bacia Potiguar.
“Recebi um WhatsApp de um ex-secretário de agricultura do município dizendo que um agricultor tinha achado petróleo e pedi para trazer uma amostra. Foi uma situação bem inusitada”, lembra o engenheiro químico Adriano Lima.
Nesta terça-feira (19), a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) confirmou: o líquido encontrado é petróleo cru. Notificou a família e a Semace (Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado do Ceará) para avaliar a necessidade de medidas sobre questões ambientais.
“Fiquei muito satisfeito com a notícia”, disse Sidrônio, em vídeo divulgado pela família nesta quinta (21). “Agora, vamos esperar o próximo passo. Que tudo corra em paz e que isso saia logo”, continuou ele.
A bacia Potiguar é uma das mais antigas regiões produtoras de petróleo do país. É majoritariamente uma bacia terrestre, com campos produtores em meio a fazendas. Tem 57 campos produtores que extraem cerca de 30 mil barris por dia.
É um volume pequeno se comparado ao pré-sal, de onde foram extraídos 3,2 milhões de barris por dia em janeiro. Mas é uma atividade que gera emprego e renda em uma região carente de serviços básicos como o abastecimento de água.
A descoberta veio a público no início do ano, atraiu a TV e deixou a família famosa na região. “Já estão chamando meu pai de sheik”, brinca Saulo.
Mesmo se confirmada a existência de um reservatório comercial de petróleo no subsolo de sua propriedade, Sidrônio não tem direito a explorar a riqueza. Pela lei brasileira, o subsolo é monopólio da União, que decide quem pode explorá-lo.
No caso do setor de petróleo, esse direito é concedido por meio de leilões realizados pela ANP. A agência delimita áreas exploratórias e oferece ao mercado em troca de bônus de assinatura e royalties sobre a venda da produção.
Os proprietários de terra têm direito a uma compensação financeira equivalente a 1% do valor da produção. Em 2025, 2.606 propriedades no Brasil recebiam essa compensação. Naquele ano, as petroleiras pagaram R$ 173,3 milhões, o que equivalia a uma média de cerca de R$ 5.500 por mês para cada uma.
Após a confirmação de que o líquido é petróleo, a ANP diz que vai estudar a área e seu contexto geológico para avaliar a inclusão na Oferta Permanente de áreas para exploração e produção de petróleo no país. A agência frisou, porém, que “não há garantia de que essa inclusão vá ocorrer”.
“A inclusão de blocos no edital da Oferta Permanente necessita de diversas etapas, não só internas da ANP como também de outros órgãos, como órgãos ambientais e ministérios”, afirmou.
