Gestão pública não combina com bajulação
Administrar o patrimônio público é uma das maiores responsabilidades que alguém pode assumir. Quem ocupa um cargo de prefeito, governador, presidente, secretário ou dirigente de qualquer órgão público passa a decidir sobre recursos que pertencem à sociedade e sobre serviços que impactam diretamente a vida das pessoas. Por isso, uma gestão eficiente exige muito mais do que lealdade política: exige competência técnica, compromisso com o interesse coletivo e coragem para enfrentar a realidade.
Entretanto, um dos problemas que frequentemente comprometem administrações públicas em diferentes regiões do país é a substituição da competência pela bajulação. Não é raro que, após a posse, alguns gestores passem a se cercar de amigos, aliados incondicionais ou pessoas cuja principal credencial é a fidelidade política, e não a capacidade técnica para exercer funções estratégicas.
Os cargos de confiança existem para garantir que o gestor possa formar uma equipe alinhada ao seu projeto de governo. No entanto, esse alinhamento jamais deveria significar abrir mão da qualificação profissional. Secretarias, departamentos e diretorias precisam ser ocupados por pessoas preparadas, capazes de planejar, executar políticas públicas, administrar recursos e resolver problemas com eficiência.
Quando prevalece a lógica da bajulação, perde-se algo essencial: a sinceridade. O assessor deixa de ser alguém que alerta, questiona e apresenta alternativas para se transformar em alguém que apenas concorda. O gestor passa a ouvir somente aquilo que deseja escutar. As críticas desaparecem, os alertas são silenciados e os problemas deixam de ser enfrentados no momento em que ainda poderiam ser solucionados.
Nenhum administrador é infalível. Pelo contrário, os melhores líderes costumam ser aqueles que valorizam opiniões divergentes, estimulam o debate e aceitam ser contrariados quando isso significa evitar erros ou aperfeiçoar decisões. A franqueza é um ato de responsabilidade. O bajulador protege o próprio cargo; o assessor comprometido protege o interesse público.
Esse fenômeno não está restrito a uma cidade, a uma região ou a um governo específico. Ele pode ser observado em administrações municipais, estaduais e federais, independentemente de partidos ou ideologias. Sempre que critérios políticos se sobrepõem completamente à competência técnica, o risco de desperdício de recursos, atrasos em obras, baixa qualidade dos serviços públicos e decisões equivocadas aumenta significativamente.
A população pouco se interessa pelas disputas internas dos governos. O cidadão espera encontrar postos de saúde funcionando, escolas bem administradas, ruas conservadas, infraestrutura adequada e serviços públicos que respondam às suas necessidades. Esses resultados dependem de planejamento, conhecimento e gestão profissional.
Liderar também significa ouvir verdades incômodas. Um bom gestor precisa de pessoas que tenham independência intelectual para apontar falhas, apresentar soluções e advertir sobre riscos antes que eles se transformem em crises. Cercar-se apenas de elogios cria uma falsa sensação de que tudo vai bem, enquanto os problemas crescem silenciosamente.
A boa administração pública não se constrói sobre aplausos fáceis, mas sobre responsabilidade, competência e honestidade nas relações profissionais. Gestores passam. Mandatos terminam. O que permanece é o legado deixado para a sociedade.
Talvez uma das maiores demonstrações de liderança seja justamente esta: escolher ao lado não quem elogia mais, mas quem trabalha melhor; não quem concorda com tudo, mas quem possui conhecimento, compromisso e coragem para dizer a verdade quando ela precisa ser ouvida. Afinal, quando o interesse coletivo prevalece sobre os interesses pessoais, toda a sociedade é beneficiada. (Texto de Valdeci Marques: sócio-proprietário do Oeste Goiano, gráfica e veículo de imprensa, com site e instagram, escritor, roteirista de cinema e produtor cultural)
