Flávio Bolsonaro, o irmão Vorcaro e a máxima de que não há almoço de graça

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Nem toda ajuda financeira de agente privado a político envolve um interesse escuso. A legislação eleitoral permite que empresários e banqueiros doem, como pessoa física, a candidatos. Antes, era possível fazer o repasse inclusive por meio da pessoa jurídica, o que rendia quantias bem maiores do que as atuais.
Os motivos das doações são variados: afinidade partidária, compartilhamento de bandeiras e até a compreensão de que é preciso manter um bom relacionamento com certos grupos. É por isso que alguns doadores passam dinheiro para nomes da direita à esquerda, sem distinção, como forma de manter o máximo de portas abertas.
Esse fluxo financeiro é registrado na Justiça Eleitoral e pode ser fiscalizado, mas conta apenas uma parte da história. A menor parte. A parte republicana. Por outros caminhos, representantes do setor privado bancam políticos e partidos, de formas variadas, com o objetivo de comprar simpatias, favores e, em alguns casos, vantagens indevidas. A Operação Lava Jato mostrou isso em detalhes.
A corte de Vorcaro
Na defensiva desde que o site Intercept Brasil revelou seu pedido de ajuda financeira a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e protagonista de uma das maiores fraudes bancárias da história do país, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, alega não ter feito nada de errado.
Ele diz que solicitou uma colaboração privada para um filme privado sobre o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Afirma ainda que o ex-banqueiro, que está preso, fez um investimento na produção, com perspectiva de retorno em caso de bom desempenho de bilheteria e nos streamings. “Não ofereci vantagens em troca”, garante o senador.
A Polícia Federal investigará se os recursos de Vorcaro custearam a vida do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Como um zeloso irmão mais velho, Flávio Bolsonaro diz que isso não aconteceu. Ele só não explicou até agora por que pediu auxílio ao ex-banqueiro, a quem chamava de irmão. A resposta parece fácil.
Com ascensão meteórica no mercado financeiro e na corte brasiliense, Vorcaro montou uma rede de contatos com autoridades dos Três Poderes capaz de facilitar suas falcatruas bilionárias e blindá-lo de eventuais investigações. Nesse esforço, não economizou dinheiro. Bancou festas, viagens e despesas pessoais de autoridades e contratou consultorias milionárias de políticos e apaniguados.
Flávio Bolsonaro — que é muito próximo do senador Ciro Nogueira (PP), chamado de amigo da vida toda por Vorcaro — sabia disso quando recorreu ao mecenas. Ele também sabia, como todo e qualquer político, de Lula a Jair Bolsonaro, que agente privado não joga dinheiro fora nem paga filmes e outras faturas de forma desinteressada. Não tem almoço de graça.
