Evangélico pode pular São João? Arraiás gospel dividem igrejas

Evangélico pode pular São João? Arraiás gospel dividem igrejas

A chegada de junho reacende, além das tradicionais fogueiras e quadrilhas, um antigo debate dentro do meio evangélico brasileiro: afinal, fiéis podem ou não participar das festas juninas? A discussão, que envolve diferenças doutrinárias e interpretação bíblica, tem levado igrejas a caminhos distintos — desde a proibição total até a criação de versões adaptadas dos festejos, como os chamados “arraiás gospel”.

Enquanto parte das lideranças entende que as celebrações estão ligadas à veneração de santos católicos — o que seria incompatível com a fé evangélica —, outras defendem que é possível separar o aspecto religioso da manifestação cultural. Nesse cenário, igrejas têm investido em eventos próprios, com comidas típicas, músicas e danças, mas com foco exclusivo em Jesus e na evangelização.

É o caso da Igreja Renascer em Cristo, que promove anualmente seu Arraiá Gospel. Para o apóstolo Estevam Hernandes, a proposta é filtrar elementos considerados neutros. “A versão católica está atrelada aos santos, e a evangélica, somente à parte festiva”, afirma.

Outras denominações seguem a mesma linha. A Assembleia de Deus Vitória em Cristo, liderada pelo pastor Silas Malafaia, organiza a chamada Festa Jesuína, com estética semelhante às festas tradicionais, mas com conteúdo religioso voltado ao público evangélico. Já a Igreja Batista Atitude realiza a “Festa da Roça”, usada como estratégia de evangelização.

Em algumas cidades, o movimento também ganha espaço em eventos maiores. Em Aracaju, por exemplo, o Forró Caju inclui uma programação voltada ao público cristão, com apresentações de artistas gospel.

Festas juninas e cristianismo

Historicamente, as festas juninas têm origem em celebrações europeias ligadas ao solstício de verão e às colheitas, posteriormente incorporadas pelo cristianismo e associadas a santos como São João, Santo Antônio e São Pedro.

Diante desse contexto, o que se vê no Brasil é um cenário de divisão dentro das igrejas evangélicas: de um lado, a rejeição às festas; de outro, a tentativa de ressignificá-las. No meio, milhões de fiéis seguem decidindo, ano a ano, como — ou se — irão celebrar.

Apesar da adesão crescente, há resistência. Setores mais conservadores rejeitam qualquer tipo de participação, mesmo em versões adaptadas.

‘Arraiá gospel’ divide igrejas evangélicas

O pastor Caio Modesto, para quem o catolicismo é um “reduto de mentiras, paganismo e sincretismo religioso”, pede que crentes rejeitem também a culinária de praxe na época, como canjica e paçoca. “Se alguém lhe disser de antemão que aquilo foi oferecido a santos, recuse. Acredite: você não vai morrer de fome por não participar da festa junina.”

O pastor Matheus Alves também é contrário. “Protestante, você já entendeu por que você não participa, ‘vou lá só comer uma comidinha’. […] O apóstolo Paulo te proíbe de sentar na mesa do Senhor em um dia e na mesa de demônios outro dia. Deus se irrita, Ele fica irado com ações como essas.”

O bispo Renato Cardoso, tido como provável sucessor de Edir Macedo na Igreja Universal, também já recriminou o envolvimento do fiel nesse ambiente festivo. “Sempre vai ter alguém dizendo, ‘ah, mas não tem nada a ver, eu não vou lá para adorar, eu vou lá para curtir’.” Para ele, dá no mesmo: “Você está perpetuando uma coisa que começou séculos atrás com raiz de idolatria, com raiz pagã.”

Malafaia prefere enxergar a temporada como oportunidade. “Já que não acreditamos em santos, aproveitamos essa Festa Jesuína, que é para Jesus. Aí tem música, tem palavra, é isso. É uma estratégia que a gente usa de evangelização, igual quando a gente bota trio elétrico no Carnaval, certo?”

Fonte Original Mais Goias

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