Está o Irã sem o líder máximo? País já passou por isso, com câncer do xá

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“Meu baço pesa mais do que a coroa”. Assim o xá Reza Pahlavi comparou um dos piores sintomas da doença gravíssima que escondia dos iranianos, a leucemia linfocítica crônica, o aumento visível do baço, notado por seu entorno pela primeira vez em 1973, quando fazia esqui aquático e o volume no abdômen superior ficou evidente. A progressão implacável da doença maligna minou suas forças e o tirou das atividades públicas justamente quando explodiu a revolução religiosa fundamentalista, por fim vitoriosa, em 1979. O desaparecimento do líder num momento crítico evoca inevitáveis comparações com a situação de Mojtaba Khamenei, ferido num bombardeio logo no início da guerra, em grau apenas especulado, mas com suspeitas de muita gravidade.
Segundo análises de vários especialistas, o comando da guerra foi assumido pela liderança dos Guardas da Revolução Islâmica, a força armada mais doutrinada e extremista – ela própria também ceifada nos ataques, mas com coesão para comandar uma resposta agressiva o suficiente para que não se possa dar a guerra por encerrada. Isso pode levar a um endurecimento ainda maior do regime.
Os outros líderes que aparecem em manifestações ou declarações, como o presidente ou o chanceler, têm um poder muito limitado. Pela estrutura do regime teocrático, a autoridade suprema em todas as questões, inclusive obviamente a mais extrema delas, a guerra, é exercida pelo líder máximo, ao qual cabe também administrar correntes e interesses nem sempre convergentes. Segundo diferentes versões, Mojtaba sofreu amputação de uma ou das duas pernas, ou uma fratura grave no pé, ferimentos no rosto e outras lesões. O jornal The Sun cita uma fonte iraniana, com contatos no hospital em Teerã onde está supostamente internado, para sustentar que agora só respira com ventilação artificial. Um site do Kuwait disse que foi transportado secretamente para tratamento médico na Rússia, onde também estaria a salvo das bombas israelenses.
A única informação confirmada é que ele foi ferido – e provavelmente pode demorar para que se saiba mais sobre seu estado de saúde -, tendo escapado por segundos, ao sair para o jardim, do bombardeio dos múltiplos complexos ocupados pela família.
Esconder a doença de governantes é uma reação praticamente automática, tanto em democracias quanto em regimes autoritários. Franklin Roosevelt morreu em 12 de abril de 1945, apenas três semanas antes da rendição da Alemanha nazista, sem que muitos americanos sequer soubessem que ele precisava de cadeira de rodas por causa da poliomielite que, em 1921, o deixou paralisado da cintura para baixo. Os líderes soviéticos que, na definição de Ronald Reagan, “não paravam de morrer”, estavam todos ativos e vigorosos nas versões oficiais. Enfraqueceram na base um regime que parecia ter sido feito para durar eternamente e desmoronou em 1991.
‘DECLÍNIO FÍSICO EVIDENTE’
O xá, ou imperador, à frente de um regime absolutista que fez conquistas sociais importantes e ao mesmo tempo incorreu nos erros clássicos das ditaduras, em especial uma repressão assassina, obviamente não ia deixar transparecer que tinha uma doença incurável, confirmada numa visita secreta à Áustria e tratada pelo maior especialista francês em leucemia, que fez 39 visitas “secretas” ao Irã. Entre aspas porque obviamente a notícia, já conhecida pela CIA via Mossad, obviamente transpirou, tão incontrolável quanto os glóbulos brancos no sangue do monarca.
A quimioterapia com clorambucil, segundo relato no OncoDaily, funcionou apenas por um período limitado, os efeitos colaterais aumentaram a ausência pública do xá e seu baço chegou a ter o tamanho de uma bola de beisebol. Os protestos inspirados pelas fitas-cassete mandadas da França pelo aiatolá Khomeini aumentavam nas sextas-feiras, o dia santo muçulmano, e a polícia política, a odiada Savak, crescia em poder.
Enquanto o xá recebia transfusões de sangue num hospital de Teerã, aconteceu o massacre que matou 94 pessoas no centro de Teerã, insuflando a população já rebelada “A leucemia do xá se transforma em linfoma não-Hodgkin, o declínio físico é evidente”, informou à base o chefe da CIA, George Cave. Khomeini tripudiou: “O xá canceroso verte um sangue branco”.
Em 16 de fevereiro de 1979, diante do desmoronamento das forças de segurança, que mudavam de lado conforme as manifestações ficavam maiores, Reza Pahlavi tomou um avião para o exílio no Egito, onde acabou morrendo, depois de um périplo por países que acabavam por recusá-lo, em junho de 1980. Tinha 60 anos, quatro a mais do que Mojtaba Khamenei.
SEM HERDEIRO HOMEM
Hoje, seu filho, incrivelmente parecido com o pai e com o mesmo nome do pai, tenta se colocar como uma alternativa no caso de uma transição para outro regime – uma possibilidade que ainda parece longe de se configurar, embora tudo esteja em aberto na situação atual.
Ironicamente, considerando-se que seu pai trocou de esposa para poder ter um herdeiro homem, ele tem três filhas. A mais velha, princesa Noor, nascida nos Estados Unidos, casou-se no ano passado com um americano judeu, acrescentando um grau de complexidade a mais a uma das histórias mais complicadas do mundo (a filha e o filho mais novo do xá cometeram suicídio no exílio).
Segundo fontes da inteligência americana citadas pela televisão CBS, o velho Khamenei era contra a escolha do filho como seu sucessor porque não o achava muito brilhante nem detentor das qualidades necessárias para a liderança. Fontes da mesma origem que falaram ao New York Post disseram ter credibilidade, e não ser fruto da guerra de propaganda, a informação de que Mojtaba é gay – pareceria inacreditável num lugar onde homossexuais são enforcados em guindastes, mas em muitos países da mesma matriz repressiva isso não é nada incomum.
Por enquanto, o desaparecimento público de Mojtaba não autoriza confirmar a ideia de incompetência ou falta de capacidade oratória do sucessor. Já Noor, a neta mais velha do xá, fala com desenvoltura e diz que o atual regime “depende da força em lugar do consenso e a história nos diz que quando um regime atinge este estágio, a repressão se torna sua maior fraqueza”. Outra ironia: foi o que aconteceu na época do avô que ela nunca conheceu. Irá acontecer de novo?
Detalhe final: a coroa do xá, um turbante ao estilo persa de veludo vermelho revestido de 3 380 diamantes, sendo o maior deles uma pedra amarela de 60 quilates, e 369 pérolas, pesava dois quilos.
