É a segurança, estúpido: crime é quesito dominante na América Latina

É a segurança, estúpido: crime é quesito dominante na América Latina

Ler Resumo

Quanto mais poderosas ficam as organizações criminosas, um fenômeno latino-americano movido a cocaína, mais as pessoas comuns se preocupam com a segurança em todo o continente. É uma obviedade, mas precisa ser repetido: cidadãos de países onde grassa o crime demandam medidas fortes, como as vistas em El Salvador. Na Argentina, até alguns deputados da oposição votaram na semana passada pela diminuição da maioridade penal para catorze anos, celebrada como uma vitória do governo de Javier Milei.

No caso de delitos graves, adolescentes nessa faixa podem ser condenados a até quinze anos. Até não muito tempo atrás, parecia impossível que algo assim acontecesse na Argentina. Mas os problemas semelhantes aos do Brasil – meninos traficam, assaltam, agridem e matam – provocaram uma mudança de mentalidade. O debate, também similar, entre “mão dura” e garantismo foi definido: ganhou a mão dura.

Milei, claro, faturou. Um comentarista equilibrado como o jurista Jorge Monastersky lembrou o óbvio: “O sistema penal não existe para garantir a impunidade”.

“O direito penal não pode permanecer congelado enquanto a realidade evolui”.

ESTADO DE NÃO DIREITO

E como evolui. A preocupação com a segurança, um dos temas que elegeu Milei, foi o fator que mais pesou na vitória do presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, que assume agora em março.

No total, segundo uma pesquisa Ipsos, 55% dos latino-americanos citam a criminalidade e a violência como sua maior preocupação – a média do resto do mundo é 34%. O crescimento e a profissionalização das organizações criminosas são, evidentemente, acompanhados da preocupação crescente dos cidadãos comuns – os incomuns, mais privilegiados, se dedicam a criticar o regime linha-dura de Nayib Bukele.

Continua após a publicidade

Regularmente, jornalistas de múltiplos países são enviados para mostrar os horrores dessa linha-dura, mas os próprios salvadorenhos dão um apoio na casa dos 70% a 80% à política de Bukele.

Seriam eles burros ou não entenderiam as sutilezas do estado de direito? Obviamente, nem uma coisa nem outra. O estado de direito se torna um estado de não direito quando quadrilhas de criminosos dominam os bairros populares, escolhem quem vive e quem morre, recrutam meninos para traficar e meninas para serem objetos sexuais, cooptam forças policiais e impõem um regime de terror, refletido, na América Central, nos bandidos totalmente tatuados que colocam a si mesmos, de forma agressiva, do lado oposto ao da sociedade do bem.

Nenhuma surpresa que cidadãos comuns comemorem ter ficado livres dessas barbaridades – não obstante as tendências autoritárias de Bukele existam e devam ser reportadas.

MODELO BUKELE

Mas o fato é que ele se tornou um modelo para políticos de direita, enquanto os de esquerda não conseguem conciliar a profunda convicção de que os criminosos são vítimas da sociedade e a enorme demanda por segurança. Na Costa Rica, um país com níveis invejáveis de segurança em comparação com outros latino-americanos, incluindo o Brasil, o presidente Rodrigo Chaves convidou Bukele para o lançamento de uma prisão ao estilo do Cecot, a penitenciária que fez a fama do salvadorenho. Chaves elegeu com facilidade a sucessora, Laura Fernández.

Continua após a publicidade

O Financial Times fez uma reportagem sobre a combinação entre o apoio a medidas fortes contra a criminalidade e à captura de Nicolás Maduro, dado como sinal do “avanço de líderes e discursos de direita”.

É uma simplificação excessiva, sem as nuances necessárias para entender que muitas pessoas comuns podem apoiar benefícios sociais como bolsas variadas, propostas em geral procedentes do pensamento de esquerda, e querer que os organismos policiais sejam rigorosos com a criminalidade. A ideia de que criminosos presos são regularmente soltos por juízes garantistas ofende a maioria das sociedades.

Não há contradição entre uma coisa e outra. Quem não perceber isso está entrando no caminho da derrota – e não é só na esquerda. Na Colômbia, por exemplo, a direita tradicional foi surpreendida pela súbita ascensão de um advogado alheio ao sistema político, Abelardo de la Espriela, caracterizado pela frase “A paz só pode ser conseguida pela força das armas e da lei”. Depois de eleger um presidente, Gustavo Petro, que considera o petróleo pior do que a cocaína e viu crescer a produção da droga em 50%, os colombianos podem mudar de barco.

Ou, alternativamente, diante de uma direita dividida, dar a vitória ao candidato esquerdista apoiado por Petro, Ivan Cépeda.

Continua após a publicidade

SELEÇÃO DOS ESPERTOS

Todas as pesquisas indicam que a preocupação com a segurança pública domina os sentimentos da população no Brasil e terá um peso grande na eleição presidencial. Ignorar o assunto, ou até, insanamente, apoiar que brasileiros evangélicos, sinônimos de cidadãos cumpridores da lei, sejam execrados num desfile de carnaval, são atitudes que contrariam os próprios interesses da esquerda, como se houvesse um desejo secreto de autodestruição.

Durante a primeira campanha de Bill Clinton, seus assessores consagraram uma frase que entrou para a história política: “É a economia, estúpido”. (Burro seria uma tradução melhor, mas o falso cognato foi consagrado). Ou seja, o candidato deveria se concentrar nos efeitos que os americanos estavam sentindo no bolso.

Diante do descalabro da criminalidade, e da impotência ou inapetência para combatê-la, a versão dominante agora se tornou “É a segurança, estúpido”.

A política é um ótimo sistema para selecionar os espertos e todos já notaram a mudança nos ventos. Defender o roubo de celular para tomar cervejinha ou tripudiar da família tradicional passou a ser visto como falta de sintonia até dos que sempre mostraram uma esperteza legendária.

Source link

Ultimas Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *