Com Sabrina Carpenter, 1º dia do Lollapalooza 2026 aponta a crise dos homens contemporâneos
O Lollapalooza 2026 encerrou seu primeiro dia de festividade com uma apresentação muito aguardada de Sabrina Carpenter — loira do pop americano que agregou uma multidão gigantesca em frente ao Palco Budweiser e levantou, por exemplo, um intenso coro que questionava se um parceiro amoroso seu seria estúpido, lerdo ou inútil. O atrevimento é jovial e bem-humorado, mas reflete um elemento compartilhado por boa parte do line-up da sexta-feira 20: a masculinidade contemporânea revista, questionada e satirizada.
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O tema ecoou desde a primeira grande atração estrangeira do dia: o grupo Viagra Boys, original de Estocolmo. Desde 2015, a banda critica a hiper masculinidade por meio de uma sonoridade punk rock, capitaneada pelo vocalista descamisado Sebastian Murphy. Até mesmo o peito exposto do cantor, contudo, dialoga com a missão da banda: Murphy está longe de ser esculpido como o careta Adam Levine, do Maroon 5, e não parece alguém preocupado com creatina e proteína, na contramão dos jovens adeptos ao “looksmaxxing”: tendência entre garotos que querem levar sua beleza ao máximo. Um deles, sob a alcunha “Clavivular”, promete ter atingido seu visual após tomar testosterona desde os 14 anos e fraturar o próprio maxilar com um martelo.
Os ousados Viagra Boys, por sua vez, são erráticos, pouco vaidosos e não tem papas na língua. As letras vulgares de Man Made of Meat e Pyramid of Health dialogam diretamente com as conspirações e crenças radicais disseminadas entre homens na internet. Em Troglodyte, Murphy narra: “Ele diz que não acredita na ciência / ele diz que as notícias são todas fake / na calada da noite ele senta em frente ao computador / e escreve sobre todas as coisas que odeia”.
Não só pertinentes, as faixas também agitam o público e surpreendem com instrumentos como tamborins e o saxofone — que evoca o som do Supertramp na faixa Slow Learner. Apesar do horário nada favorável, entre 15:50 e 16:50, o grupo atraiu público o suficiente para transformar o vale que circunda o Palco Samsung Galaxy em um formigueiro. Em momentos de pico de energia, o show ainda teve direito a moshpits — que ocorreram sem problemas — e ao crowdsurfing, praticado por alguns espectadores corajosos.
Logo em seguida, a bola foi passada para Blood Orange, nome artístico do inglês Dev Hynes, que embalou o pôr do Sol com as faixas cheias de suingue do disco Essex Honey, inspirado em sua criação em Londres. Antes mesmo de abrir a boca no Palco Budweiser, o artista emitiu parte da música Family, de 2018, que sugere a troca da família nuclear por valores mais expansivos: “Aparecer como se é, sem julgamentos ou ridicularização. Sem medo ou violência. Sem policiamento e sem detenções. Você pode estar lá e se sentir realizado. Nós podemos escolher nossas famílias. Nós não somos limitados pela biologia”.

Ao longo da apresentação, Hynes teve que lidar com alguns problemas técnicos, especialmente um telão descompassado, mas não se mostrou abalado. Com foco na música, ele — que é também um produtor condecorado e um violoncelista talentoso — entregou o show mais elegante do dia e, muito provavelmente, do festival como um todo.
Com menos nuances, Doechii e Sabrina Carpenter engrossaram o coro que aponta a crise da masculinidade contemporânea. Das 17 faixas apresentadas pela loira, seis se queixam sobre a escassez de homens maduros. Já um dos maiores hits da rapper, Denial is a River, desata um fluxo de consciência a partir de uma decepção amorosa: um caso com um homem enrustido.
As reclamações de ambas não vão muito além da típica esfera afetiva, mas a simplicidade do teor é balanceada pelos graves e pela cenografia robusta. Doechii recorreu a um palco adornado com tecidos e se entregou a coreografias frenéticas ao lado de suas dançarinas, sem medo de assumir a mania como recurso estético, contorcendo-se durante músicas como Alter Ego e Anxiety. Apesar da carreira ainda jovem, composta por três mixtapes, a cantora apresentou um bom número de hits e comoveu a plateia, ainda que parte dela apenas aguardasse por Sabrina.
A popstar do momento, por fim, fez um show bem embalado por sua premissa: a de que tudo faz parte de um programa de televisão setentista. Com traquejo para o humor, Sabrina esbanjou carisma, mas pecou no equilíbrio de seu repertório. Canções menos conhecidas como Coincidence e Don’t Smile pareciam perdidas entre seus hits cheios de vida, como a excelente House Tour. Mesmo assim, suas jovens fãs gritavam cada uma das letras com os dedos em riste e um timbre gultural, mais enfáticas do que muitos dos roqueiros que preferiram ver Interpol e Deftones.
Para além de qualquer julgamento artístico, fato é que a 13ª edição do festival já é, sem dúvidas, a mais antenada em muito tempo.
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