Biógrafo explica por que omitiu em livro que Djavan viu ‘esperança’ com Bolsonaro

Um ícone da música brasileira, Djavan, 77 anos, é homenageado com uma nova biografia em celebração aos seus 50 anos de carreira. Escrito por Tiago Ramos e Mattos, o livro Djavan – Dizem que o amor atrai é um passeio histórico pela trajetória do alagoano, autor de hits como Oceano e Samurai, e traz informações inéditas a respeito da história de um dos mais influentes compositores e intérpretes da MPB. A coluna GENTE conversou com o biógrafo, que explica a dimensão da obra artística desse ícone que atravessa gerações.
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Por que se interessou por uma biografia do Djavan? Tudo começou em 2022, quando fui a um show da turnê D. Essa foi a primeira vez que assisti a ele ao vivo, fiquei impressionado. “Preciso escrever alguma coisa sobre o Djavan”, disse a minha esposa, na ocasião. Inicialmente, a ideia era escrever um artigo, mas a pesquisa foi se avolumando até se tornar um livro. Sempre fui fã dele. Meu pai deu o disco Luz para a minha mãe em 1982, quando tinha três anos, se ouvia muito o CD em casa.
A obra traz informações inéditas do Djavan. Qual delas é um bom spoiler? Não há um deslumbre na relação entre Djavan e seus parentes. O sobrinho dele, Marcelo Viana, não gosta de ser reconhecido como “sobrinho do Djavan”, por exemplo. Ele diz que não é o sobrinho do Djavan, é o filho da Djanira. E a própria Djanira falava que não era a irmã do Djavan, e sim que “o Djavan que é meu irmão, eu nasci primeiro”. Existe uma admiração em relação ao Djavan, o tio célebre, o parente célebre, mas não há deslumbre. É normal para eles terem uma figura como o Djavan na família.
E em relação à trajetória dele? Djavan é espiritualista e, quando vai ao bairro do Farol, onde cresceu, gosta de ir a uma igreja franciscana, a Igreja dos Capuchinhos. De acordo com um amigo de infância, Jalbas Soares dos Santos, Djavan costuma ir lá disfarçado, para não criar tumulto. Também há o fato de que ele cabulava as aulas na escola onde estudou em Maceió, para tocar com a banda LSD, que integrou no início da carreira. Um amigo ficava responsável por assinar a lista de chamada para ele.
Você não teve a autorização do Djavan para escrever a obra. Como foi lidar com a falta de acesso ao artista, principalmente ao checar informações? Busquei diversos veículos de comunicação para obter o material que estruturou minha obra. Havia algumas informações que o Djavan repetiu ao longo da vida, em reportagens que ele deu e tudo mais. Mas havia lacunas na minha pesquisa, como, por exemplo, o nome dos irmãos de criação. Eu sabia que ele tinha dois irmãos, mas não tinha o nome, porque ele nunca disse. Fui a Maceió e entrevistei familiares e amigo de infância, isso foi dando substância para o livro. A pesquisa de campo preencheu lacunas que ficaram da minha pesquisa sobre entrevistas e reportagens.
Tentou falar com ele em algum momento? Não tentei. Até fui à Praia do Toque, na área de Milagres, perto de Maceió, onde Djavan tem uma casa, e ele estava lá. Mas ele estava com os netos, em um momento familiar, e, como é muito reservado, não quis atrapalhar. Quando o livro já estava bem encaminhado pela editora, tentamos um contato, mas ele disse, por meio de sua produtora, que não revisaria o livro. Que preferiria não participar e se manter afastado de todo o processo.
Saber se ele aprovou ou não o trabalho não te deixa curioso? Confesso que isso é importante para mim. Lá no começo, quando estava com a minha esposa no show dele, a ideia era escrever algo para tentar uma aproximação, tentar conhecê-lo, homenageá-lo. O livro é uma homenagem a ele, e sim, tenho curiosidade sobre o que ele vai achar da obra, sobre o que ele está achando, se já leu. Talvez isso seja mais importante para mim do que vender milhares de livros.
Deixou algo de fora da obra? Sim. A polêmica envolvendo a entrevista dada por ele em 2018, quando falou que via esperança no Brasil, em um período no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro havia acabado de ser eleito. Isso acabou ficando de fora, não quis polemizar. Não tem relevância diante da grandiosidade da obra dele. Porque talvez tenha sido, como ele mesmo afirmou, uma declaração infeliz, mal interpretada. Ele não via esperança no Brasil pelo fato de Bolsonaro ter sido eleito, mas porque acredita no Brasil, acredita na democracia e sempre trabalhou por pautas ligadas à democracia, as Diretas Já.
