As contradições de Silveira sobre Enel e CPFL

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, encontrou na origem italiana da Enel uma das explicações para as dificuldades enfrentadas pela distribuidora em São Paulo. O argumento, porém, esbarra no exemplo escolhido pelo próprio ministro para mostrar como uma concessionária deveria atuar: a CPFL, controlada desde 2017 pela State Grid, estatal chinesa.
Em entrevista à CNN Money, Silveira afirmou que a Enel teria “mais dificuldade do que as outras distribuidoras, que são nacionais” para responder ao consumidor, especialmente diante dos eventos climáticos extremos. Na sequência, citou a CPFL como exemplo positivo de relacionamento com prefeituras e de prestação do serviço.
A comparação expõe uma contradição na associação entre a nacionalidade do capital e a qualidade da distribuição de energia. A CPFL é controlada pela State Grid Corporation of China, uma das maiores empresas estatais chinesas.
Silveira também embaralhou a história da antiga Eletropaulo ao afirmar que, na privatização de 1998, a companhia teria deixado de ser uma empresa pública brasileira para se tornar uma “empresa pública italiana”. A Enel, no entanto, só assumiu o controle da distribuidora duas décadas depois, em 2018. A privatização de 1998 foi vencida pelo consórcio Lightgás, que reunia AES, EDF, CSN e Reliant.
A discussão ganha peso justamente no momento em que avança o processo que pode levar à caducidade da concessão da Enel em São Paulo. Nesta terça-feira, a Aneel manteve o processo em andamento, e uma eventual recomendação de caducidade terá de passar pelo Ministério de Minas e Energia.
Mesmo que a Enel deixe a concessão, porém, não existe garantia de que o próximo controlador será brasileiro. As regras para uma transferência de controle exigem capacidade econômica, técnica e jurídica do novo concessionário — critérios que o próprio Silveira destacou na entrevista —, mas não reservam a operação a grupos de capital nacional.
