Artista inglês transforma câncer em arte de rua em Goiânia
Antes de escolher Goiânia para inaugurar turnê de exposições de lambe-lambe no Brasil, o artista inglês conhecido internacionalmente apenas com Wilko travou uma batalha contra o câncer de língua, do qual saiu vitorioso por meio da arte de rua. O artesão, que usa um apelido de infância para se manter no anonimato, aderiu aos rolos de pintura e cola informalmente, mas logo identificou nesses instrumentos uma nova missão de vida. O lambe de Wilko, segundo o próprio, surgiu como uma combinação da vontade de viver com pintura, colagem e gravura, na mistura de referências em quadrinhos e arte sacra asiática – experiências que resultam em intervenções urbanas e obras expositivas sofisticadas. Neste sábado (2/5), por exemplo, ele faz uma apresentação única de seus painéis, com entrada gratuita, no Müquifü Cultural, no Centro de Goiânia.
Em entrevista exclusiva ao Mais Goiás, Wilko expressou que sua arte é movida pelo compartilhamento de ideias, razão principal pela qual decidiu integrar a arte de rua. Embora a vertente seja caracterizada pelo acesso quase irrestrito e disponibilidade à apreciação coletiva, ele revela que o lambe-lambe carrega uma conotação pessoal: é sua forma de dizer, após a doença, que ‘ainda estou aqui’. “Eu tive câncer na minha língua, o que resultou na necessidade de várias cirurgias. Tive uma grande parte da minha língua removida e todo o lado esquerdo do meu pescoço foi aberto cirurgicamente para remover mais de 30 linfonodos”, explicou.
Ainda no processo de recuperação, ele, que é bacharel em Belas Artes pela Universidade de Birmingham, revelou que passou a trabalhar com lambe-lambe há apenas dois anos. “Comecei a trabalhar como artista em 2024, durante um longo afastamento do trabalho, enquanto me recuperava do câncer. Estava muito fraco, mas me apaixonei instaneamente por colar trabalhos nas ruas. Sair de casa me ajudou na cura e a ficar mais forte. Agora, por onde passo, deixo um pequeno pedaço de mim”.
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Referência no lambe-lambe
A ajuda de amigos foi importante no processo. Mas, ele, que atuava como serigrafista por 10 anos antes do diagnóstico, já tinha intenções artísticas. “Acumulava impressões com a intenção de colá-las, mas foi só quando fiquei doente que comecei a fazer isso”. Nesse caminho, ele recebeu apoio do amigo Boxitrini, artista argentino do mesmo segmento, que hoje vive em Birmingham, cidade natal de Wilko. “Ele tem mais de 20 anos de experiência na área e atuou como guia nesse processo e me ensinou as regras da arte de rua”.
Mesmo com pouco tempo de carreira, o inglês já é considerado uma referência em termos de arte de rua, com trabalhos expostos por toda Inglaterra, seu país de origem, assim como Sérvia, onde visita com frequência. O artista também já passou por Buenos Aires, na Argentina antes de visitar Goiânia, onde já está por cerca de duas semanas.
“De forma colaborativa, minhas obras já foram coladas por outros artistas pela América do Sul, Estados Unidos, Romênia, Espanha, Holanda e Montenegro… para ser honesto, não consigo lembrar de todos os lugares. Às vezes vejo alguém postar uma foto do meu trabalho que encontrou em algum lugar do mundo e não faço ideia de como ele chegou lá. Essa é uma das muitas coisas maravilhosas da cena do lambe-lambe: o seu trabalho viaja pelo mundo por meio de festivais de paste-up (lambe-lambe em inglês) e outros artistas enviam pacotes ao redor do mundo contendo o trabalho de múltiplos artistas”.
“Cidades são telas em branco”
A intensidade da relação que estabeleceu com a arte mudou a forma como Wilko passou a perceber as cidades. Para ele, a objetividade do trabalho é uma das chaves na conquista de olhares de desconhecidos. “Eu amo colar trabalhos porque é algo direto. Você está compartilhando sua arte em espaços públicos onde muitas pessoas vão ver e aproveitar. É como abrir seu caderno de desenhos, mas em vez de mostrar apenas para um amigo, você está mostrando para uma cidade inteira. Eu não diria que há uma mensagem específica que estou tentando transmitir. É mais sobre compartilhar. Vejo um prédio abandonado com janelas fechadas como uma tela em branco para eu dar vida; uma galeria a céu aberto para expor minha arte”.
‘Goiânia é acolhedora’
A relação do artista com Goiânia foi estabelecida antes mesmo desta sua primeira viagem para a América Latina. A ideia da exposição surgiu a partir da amizade e do convite feito pelo artista de rua goiano Diogo Rustoff, com o qual já trocava trabalhos por correspondência há cerca de dois anos. “No mundo do lambe-lambe, artistas que se admiram costumam enviar obras entre si. Nos últimos dois anos, Diogo e eu temos trocado trabalhos e colado esses materiais em quaisquer cidades e países que visitamos. Fiquei feliz em aceitar o convite. É uma ótima oportunidade de visitar o Brasil e compartilhar meu trabalho com as pessoas de Goiânia”.
O artista também fez uma breve passagem por Pirenópolis, onde também fez questão de colar seus murais. “São cidades acolhedoras. Todos têm sido muito receptivos e a resposta que recebi ao meu trabalho tem sido extremamente positiva. Muitas pessoas se aproximaram de mim na rua ou me enviaram mensagens gentis e fotos do meu trabalho”. Ele também fez elogios à gastronomia goiana, com destaque para um suco natural. “O almoço brasileiro do dia a dia, com arroz, feijão e carne, é saudável e delicioso. Também gostei especialmente de empadão, coxinha e pamonha, além de descobrir minha nova bebida favorita: suco de caju!”
SERVIÇO
Exposição: Lambe-lambe (paste ups) – Artista Wilko
Quando: 2 de maio, das 17h às 21h (único dia)
Onde: Müquifü Cultural – Rua 8, 497, 2º andar, Centro – Goiânia
Entrada gratuita
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