ARTIGO – Sucessão Profissional: Herança ou Escolha?
Ao abordarmos o tema da sucessão familiar nos tempos atuais, marcados por intensas mudanças geracionais, observamos com frequência conflitos de pensamento. Isso ocorre especialmente na forma como se compreende a sucessão profissional, tradicionalmente passada de pai para filho.
Utilizo como exemplo minha própria experiência. Meu filho tornou-se contador, assim como eu — decisão que não foi imposta, mas construída de forma natural e consensual. Sempre o criamos com liberdade para escolher sua profissão. No entanto, a convivência diária e sua entrada, aos 16 anos, em nosso escritório — onde eu e minha esposa atuávamos — despertaram nele o interesse pela área, levando-o a optar por seguir a mesma carreira.
Entretanto, essa não é a realidade de todas as famílias. É comum observarmos situações em que filhos são direcionados a cursos considerados de maior prestígio social, como medicina. Em muitos casos, isso resulta em profissionais frustrados, que abandonam a carreira e, somente após conquistarem sua independência, buscam realização ao seguir aquilo que realmente desejavam.
Retomando minha trajetória, iniciei minha vida profissional aos 14 anos, trabalhando como transportador de leite na cidade de Iporá-GO, entre 1986 e 1990, assumindo a função de meu pai em razão de sua enfermidade. Paralelamente, comecei o curso Técnico em Contabilidade no Colégio Elias Araújo Rocha, sempre incentivado por meus pais, mas nunca de forma impositiva.
Embora tenha atuado na mesma atividade de meu pai, optei por não dar continuidade, pois vislumbrava novos horizontes — decisão que contou com total apoio deles, inclusive quando me mudei para Goiânia para prosseguir com meus estudos e carreira.
Um dos principais desafios de qualquer processo sucessório é evitar a troca abrupta de comando. A sucessão não deve ser vista como um evento isolado, mas sim como um processo gradual, de médio a longo prazo.
No âmbito da sucessão profissional, é essencial separar os interesses familiares dos pessoais, permitindo que os filhos exerçam seu livre-arbítrio na escolha de seus caminhos. O sucesso desse processo está diretamente ligado à inclusão do sucessor desde cedo nas responsabilidades, delegando funções e incentivando a inovação. Isso possibilita que ele desenvolva afinidade, experiência e segurança para decidir, de forma consciente, sua trajetória profissional.
Lidar com a resistência — ou até insistência — de pais que desejam que seus filhos sigam suas profissões, bem como com a insegurança dos próprios sucessores, é fundamental para que a sucessão ocorra de maneira equilibrada e bem-sucedida.
Embora eu não tenha sucedido meu pai na profissão de leiteiro, jamais abandonei minha ligação com a vida no campo. Como diz o ditado: “Saí da roça, mas a roça nunca saiu de mim.” Da mesma forma, minha cidade natal sempre esteve presente em minha vida. Saí de Iporá, mas Iporá nunca saiu de mim. Sempre que possível, retorno — seja para visitar meus pais ou tratar de assuntos profissionais.
Como mensagem final às novas gerações: nunca desistam de seus sonhos, independentemente da profissão escolhida. É preferível ser um profissional com menor remuneração, mas realizado, do que alcançar altos ganhos financeiros à custa de frustração pessoal e insatisfação com a própria trajetória.
Texto de autoria de:
Arnon Geraldo Ferreira, contador, pos graduado em biodiverdade e sustentabilidade ambiental, presidente da associação da classe contabil de Goiás, presidente da associação ambiental de Ipora, produtor e especialista na contabilidade e adminstração de instituições do terceiro setor (igrejas – associações e afins)
