A revolução branca do maior gênio italiano dos vinhos tintos
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Por décadas, falar em Gaja (pronuncia-se Gaia, no dialeto piemontês o “j” tem som de “i”) foi quase sinônimo de Nebbiolo, Barbaresco e tintos lendários que colocaram o Piemonte no Olimpo do vinho mundial. Angelo Gaja, o homem que Robert Parker chamou de gênio, construiu sua reputação revolucionando a viticultura italiana a partir dos anos 1960. Ele introduziu barricas francesas, controle de temperatura, seleção de crus e plantou variedades francesas no solo sagrado italiano – assim, transformou um território rural em referência global. A família Gaja vem escrevendo agora, de forma discreta, um outro capítulo para essa saga cor de sangue. Surpreendentemente, o tom da história mudou para branco. Sim, o clã vem investindo pesado na produção de vinhos brancos dentro de terras famosas pelos tintos. Soa como uma heresia aos olhos dos mais tradicionalistas. Mas os Gajas são ousados e visionários, por isso, convém levar a sério a iniciativa. O resultado disso tem potencial para balançar novamente o mercado mundial de vinhos.
A 650 metros de altitude e 15 quilômetros distante de Barbaresco, a família inaugurou um novo projeto em Alta Langa, uma área fria e muito mais biodiversa do que as colinas dominadas pela monocultura do Nebbiolo. Ali, entre bosques de avelãs, castanheiras, neblina e temperaturas até 4 °C mais baixas no verão, nasceu uma vinícola sem nome próprio — trata-se de uma extensão de Gaja dedicada exclusivamente a vinhos brancos. Antes de começar a plantar 90% dos 30 hectares com Chardonnay e Sauvignon Blanc, os bosques de avelãs foram limpos e o solo descansou por três anos. Hoje, além das variedades francesas, 10% do terreno está com uvas em teste, entre elas Pinot Bianco, Riesling, Incrocio Manzoni (que é o cruzamento das duas anteriores), e as locais Erbaluce e Timorasso. Há um hectare com Pinot Noir e meio com Nebbiolo. A ideia é ver como elas se adaptam, em caso de mudanças climáticas ainda mais inesperadas.

BRANCOS DE GUARDA
Pelas características da região, alguns produtores têm feito espumantes por lá. Por isso, logo imaginei que encontraria por lá um Champenoise enquanto percorria a sinuosa e perigosa estradinha que serpenteia a colina de Trezzo Tinella até as portas da vinícola, em meio a uma paisagem de fileiras de vinhas cercadas por neve. Chegando ao local (minha visita ocorreu em janeiro), percebi que estava completamente enganada. Giovanni Gaja, filho de 33 anos de Angelo, foi enfático ao dizer: “Este projeto não é sobre espumantes, apesar da denominação Alta Langa ser conhecida por isso. “É sobre brancos de guarda”. Isso mesmo: guarda. Palavra raramente associada ao Piemonte branco.
Nos anos 1970, quando o avô de Giovanni ainda dizia que “a única cor possível de vinho era vermelha”, Angelo Gaja plantou Chardonnay (1979) e Sauvignon Blanc (1983) na região — um gesto que causou espanto para a época. A ideia já era clara: criar vinhos brancos com a mesma identidade, profundidade e capacidade de evolução que o Nebbiolo da casa. Dessa visão nasceram dois ícones: Gaia & Rey, Chardonnay pioneiro na região, e Alteni di Brassica, Sauvignon Blanc de personalidade piemontesa. Essas uvas ganham nova dimensão nas altitudes da Alta Langa, daí a ambição do novo projeto. Com os investimentos feitos nos últimos anos, a família quer dar um passo adiante, criando variedades de brancos ainda mais impressionantes para o paladar.
Giovanni fala de vinho como quem fala de física, mas sem a afetação de enólogos do novo mundo. Suas observações são de quem vê aquelas plantas com devoção, como um homem do campo. Ele me explicou que as uvas tintas, por terem casca escura, absorvem mais calor. Resultado: mais açúcar, mais álcool, mais concentração. Em um mundo mais quente, isso é um problema. Brancos sofrem menos esse efeito. Além disso, não dependem de maturação fenólica — aquela espera longa que empurra a colheita do Nebbiolo para o fim de setembro. Chardonnay e Sauvignon podem ser colhidos já em agosto, preservando acidez, o que garante mais vivacidade e potencial de guarda aos vinhos. “Os brancos têm maior capacidade de adaptação climática”, resumiu.
DE OLHO NO FUTURO
Portanto, não é moda. É estratégia de longo prazo. Tudo ocorre sob o comando do pai dele. Aos 85 anos, o irrequieto Angelo, que já foi eleito “Homem do Ano”, em 2024 pela respeitada Wine Spectator, não descansa. Ele quer deixar aos filhos mais esse legado e seu olhar visionário aponta para a migração global do consumo de vinhos. Mais brancos, mais frescor, mais elegância. Giovanni reforça o sentido da aposta mencionando algo que a indústria do vinho, principalmente na Itália, ainda custa a admitir: em vários mercados, especialmente na Ásia, mulheres lideram o consumo e preferem os vinhos brancos. Assim, Gaja não está apenas respondendo ao clima. Está lendo comportamento, antevendo ondas que vão se formando e serão capazes de mudar a paisagem atual.

Tive o privilégio de fazer uma degustação só com os brancos da nova vinícola, que teve as salas de prova inauguradas em setembro do ano passado. O aroma ali ainda era de móveis novos. Na vinícola totalmente subterrânea, a vista era de uma neblina branca que se podia cortar e neve, muita neve. Em dias de sol, Giovanni garante que é possível ver todo o vale, com as colinas de Barolo. Provei vinhos que ainda não estavam finalizados, uma cortesia de Giovanni. Ele fez questão de apresentar essas garrafas que só vão chegar ao mercado dentro de 3 a 4 anos para que eu pudesse entender a essência do projeto. Os brancos plantados em Barbaresco em 1989, a 280 metros de altitude, são mais volumosos na boca, têm uma fruta bem madura e até traços tropicais. Subimos para 380 metros e o vinho fica mais austero, mineral. O Chardonnay do vinhedo de Alta Langa é de uma acidez vibrante, de frescor cortante, com um leve perfil vegetal. Quando misturados na taça os vinhos provenientes de diferentes vinhedos de Alta Langa, o resultado é anda mais impactante. A diferença não é sutil. É geografia líquida. Tive ali uma aula prática de terroir ou, mais especificamente, de cru, o termo francês que designa uma parcela específica do vinhedo, reconhecido pela alta qualidade e características únicas.
A nova vinícola foi projetada para produção de 250 mil garrafas por ano. “Estamos muito distantes desse número hoje, mas já construímos pensando nos próximos 20 anos”, contou Giovanni. O Brasil compra entre 2% a 3% da produção de Gaja, mas eles consideram o país um mercado importante e em expansão. Os vinhos brancos que já fazem parte do catálogo deles chegam aqui pela Mistral, Um Gaja Rossi-Bass 2019 (Chardonnay e Sauvignon Blanc dos vinhedos de Barbaresco e Serraunga d’Alba) e o icônico Gaja Gaia & Rey Langhe Chardonnay 2021 (proveniente de vinhedos de Treiso e Serralunga, plantados em 1979 e 1989) ficam na faixa de 1 200 reais. No caso dos tintos raros, os valores podem ultrapassar 10 000 reais.
TUDO COMEÇOU NA TRATTORIA
Em Barbaresco, ao lado da torre medieval construída originalmente nos anos 800, que hoje também pertence à família Gaja, é possível visitar a vinícola e degustar seis rótulos a 380 euros por pessoa. Se vale? Sim, cada centavo de euro. Melhor: todo valor arrecadado com as visitações (100%) é doado para obras sociais da região, desde que o enoturismo começou por lá.
A ironia histórica é deliciosa. Tudo começou em 1859 com um restaurante à beira do rio Tanato, “um restaurante de vapor”, como se chamavam os estabelecimentos que ficavam às margens e atendiam os barcos que atravessavam de um lado para o outro. A comida da trattoria não era lá essas coisas, mas o vinho fez a fama da casa. Aos poucos, os clientes pararam de pedir os pratos, só queriam beber. O restaurante fechou. Ficou a vinícola. Hoje, mais de 160 anos depois, a família que ensinou o mundo a respeitar o Barbaresco está fazendo algo igualmente transformador: ensinando o Piemonte a levar vinho branco a sério.
Se o século XX foi a era em que Gaja provou que Nebbiolo podia ser grande como os grandes Borgonhas, o século XXI pode ser lembrado como o momento em que a família mostrou que o futuro do Piemonte é branco, e não vermelho.
Considerando-se o histórico de Gaja, isso pode ser entendido como uma profecia.
