“A novela não perdeu força. O que mudou foi como as pessoas a consomem”, diz autor português de ‘Dona Beja’

“A novela não perdeu força. O que mudou foi como as pessoas a consomem”, diz autor português de ‘Dona Beja’

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Muita gente fala que a novela perdeu o trono. Que já não para cidades, não esvazia ruas, não reúne famílias diante da televisão como fazia antigamente. Antônio Barreira discorda. Para o autor português, um dos responsáveis pela nova versão de “Dona Beja” e dos nomes mais premiados da dramaturgia lusitana, o folhetim continua pulsando, mas encontrou novos caminhos para chegar ao público.

Em conversa com VEJA, Barreira fala sobre o desafio de revisitar um clássico, a importância de olhar para personagens historicamente invisibilizados, as semelhanças entre as dramaturgias brasileira e portuguesa e a transformação dos hábitos de consumo na era do streaming.

VEJA: “Dona Beja” revisita um clássico sob uma ótica contemporânea. O que precisava ser preservado e o que precisou ser reinventado?

Antônio Barreira: A espinha dorsal da história precisava permanecer intacta. Era uma questão de respeito à obra original e também à figura histórica que inspirou a personagem. Mas, ao mesmo tempo, entendemos que era impossível olhar para essa narrativa em 2026 da mesma forma que ela foi contada em 1986. A primeira grande atualização foi ampliar o olhar sobre a sociedade da época. Pesquisamos muito e descobrimos algo que raramente aparece nos livros escolares: havia uma parcela significativa da população negra livre e influente no Brasil do século XIX. Isso nos permitiu mostrar personagens negros em posições de protagonismo e poder, sem apagar a violência da escravidão.

Também aprofundamos a questão feminina. Nossa Beja não é apenas uma mulher sedutora. Ela entende as regras do jogo social e aprende a usá-las a seu favor. É uma personagem estratégica, inteligente e muito conectada às mulheres de hoje.

O fascínio por mulheres à frente do seu tempo continua enorme. Por que Dona Beja ainda dialoga com o público de hoje?

Porque, apesar dos avanços, a igualdade ainda não é uma realidade plena. As mulheres conquistaram espaços extraordinários, mas continuam enfrentando desafios que os homens muitas vezes não enfrentam. A Beja simboliza essa luta por reconhecimento. Ela não aceita o lugar que a sociedade determina para ela. Busca construir o próprio destino. Isso continua sendo inspirador porque muitas mulheres ainda vivem batalhas semelhantes em diferentes áreas da vida.

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Você transita entre Portugal e Brasil com naturalidade. Onde essas dramaturgias se encontram e onde ainda se diferenciam?

Elas se encontram na essência do melodrama, do folhetim e das grandes emoções humanas. Também se aproximam cada vez mais na forma como abordam questões sociais. A principal diferença está na tradição industrial. O Brasil tem mais de seis décadas de experiência contínua na produção de novelas. Portugal tem pouco mais de vinte anos. Existe uma diferença significativa de estrutura, de orçamento e de escala. Mas estamos cada vez mais próximos. Há um intercâmbio constante de profissionais, de formatos e de conhecimento. Isso é muito enriquecedor para os dois lados.

Portugal conquistou reconhecimento internacional com suas novelas. O que o país entendeu sobre esse formato?

Entendeu algo muito simples e muito poderoso: quanto mais local uma história é, mais universal ela pode se tornar. Existe uma frase do escritor português Miguel Torga que eu adoro: “Fala da tua aldeia e estarás a falar com o mundo”. Foi exatamente isso que a dramaturgia portuguesa fez. Contou histórias profundamente ligadas à sua cultura, mas com sentimentos universais. Hoje vemos isso acontecer também com as novelas turcas, com os doramas coreanos e com produções de vários países. No fundo, todos nós nos conectamos através das mesmas emoções.

O mercado internacional parece mais aberto às novelas do que há vinte anos. O que mudou?

A globalização do conteúdo. Essas produções sempre existiram. O que mudou foi o acesso. As plataformas de streaming permitiram que histórias produzidas em países antes distantes chegassem ao mundo inteiro. Hoje uma novela turca pode ser um fenômeno no Brasil. Um dorama coreano pode conquistar espectadores em Portugal. A internet derrubou fronteiras. Passamos a descobrir narrativas que antes simplesmente não chegavam ao Ocidente.

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Muita gente diz que a novela perdeu relevância. Você concorda?

Não. Eu acho que a novela continua extremamente forte. O que mudou foi o comportamento do público. Antigamente, se você não assistisse ao capítulo no horário da exibição, simplesmente perdia. Hoje o espectador assiste quando quer, onde quer e no dispositivo que preferir. Os índices de audiência da televisão linear diminuíram porque o consumo se espalhou por outras plataformas. Mas as histórias continuam mobilizando as pessoas. Continuam gerando debates, memes, comunidades de fãs e enorme repercussão nas redes sociais. A novela não desapareceu. Ela apenas deixou de morar exclusivamente na televisão.

E o autor escreve de forma diferente sabendo que o público pode “maratonar” capítulos?

Sem dúvida existe uma preocupação maior com ritmo e com ganchos narrativos. Mas a maior diferença está entre escrever para TV aberta e escrever para streaming, em que você trabalha com a lógica da maratona. Cada episódio precisa criar uma urgência quase irresistível para o próximo. Na TV aberta, a dinâmica é outra. Existe uma produção contínua, prazos muito mais apertados e uma relação diferente com o público. São linguagens próximas, mas com exigências bastante distintas. No fim, porém, a essência continua a mesma: contar uma boa história. Porque, independentemente da tela, é isso que faz alguém voltar no dia seguinte. Ou apertar o play mais uma vez.

 

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