‘A Morte do Demônio: Em Chamas’ é um pavor apelativo

‘A Morte do Demônio: Em Chamas’ é um pavor apelativo

Um livro empoeirado, algumas palavras obviamente demoníacas e um leitor desavisado. Pela sexta vez na história do cinema, esta receita resulta em carnificina e na ascensão de um herói que, em algum ponto, empunhará uma lâmina motorizada. Nesta quinta-feira, 9, chega aos cinemas do país A Morte do Demônio: Em Chamas, novo capítulo da saga que se esforça muito na brutalidade, mas esquece da irreverência que já foi elemento chave da franquia — antes chamada Uma Noite Alucinante entre 1981 e 1992, quando ainda sob as rédeas do engenhoso Sam Raimi.

A seriedade redobrada já é comum na saga desde o remake A Morte do Demônio (2013), mas mergulha mais fundo no senso comum a cada sequência. Desta vez, a direção está nas mãos do francês Sébastien Vaniček, que se dedica por completo a um visual cinzento e sem contrastes para contar a história de Alice (Souheila Yacoub), cujo marido abusivo morre em um acidente automobilístico orquestrado pelo além. A perda não só a abala, como a força a visitar a casa dos sogros que a desprezam, circunstância desconfortável que piora quando fica claro que a família tem ligações sinistras com as criaturas presentes em todos os filmes anteriores.

Ciente de que a lógica interna da saga está mais do que consagrada, Em Chamas acerta em partir logo para a ação, mas jamais sai desse lugar frenético. A câmera inquieta impede que qualquer tensão seja de fato construída, assim como a repetição dos mesmos recursos é exaustiva. O primeiro raccord é engraçadinho; o quinto, não. E após o uso brutal de um ralador de queijo em A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), a bola da vez é criar violência gráfica com itens domésticos variados: facas em uma lava louças, velas aromáticas, bancos de carro e mais. Outrora, tamanha brutalidade poderia até ter contornos cartunescos ou mesmo chocar de verdade. Na visão de Vaniček, as imagens são apenas cruéis e previsíveis, como um adolescente emburrado que quer exibir intensidade.

Não ajuda que Em Chamas dependa por completo do desenvolvimento da personagem protagonista, que carrega em si a mensagem contrária à violência doméstica e aos mecanismos que a sustentam dentro de famílias tradicionais. A missão é digna, mas Alice tem a profundidade de um pires e Souheila Yacoub é tão carismática quanto as paredes cinzas que a cercam.

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O alívio cômico — com ênfase em alívio — segue presente apenas por meio da avó da família, interpretada por Maude Davey, que atua como se estivesse em um grande hagsploitation (subgênero do cinema B voltado a mulheres de meia-idade enlouquecidas). Para além disso e de alguns palavrões ditos por zumbis endemoniados, a identidade da franquia é descartada por completo — ou pior, hoje carrega como referencial único o factoide de que a versão de 2013 gastou de mais de 260 000 litros de sangue falso.

Se é esse o caso, o nome A Morte do Demônio pode ser aplicado a qualquer produção sangrenta com pouco a dizer, como A Maldição da Múmia ou O Primata, também lançados em 2026. Melhor seria lembrar que quantidade e qualidade não costumam vir acompanhadas.

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