A falta de fertilizantes e o efeito sobre os alimentos e a inflação

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O resultado do IPCA de abril trouxe um alívio moderado para o mercado, mas ainda distante de um cenário confortável para a economia brasileira. O economista Reinaldo Cafeo avaliou que a inflação de 0,67%, abaixo das projeções iniciais, mostra que a política monetária do Banco Central começa a produzir efeito. Para ele, a desaceleração é um sinal positivo, especialmente depois de meses de pressão intensa sobre preços de alimentos e serviços. Ainda assim, o cenário está longe de indicar tranquilidade para famílias e empresas.
Distância entre inflação e meta do BC
A preocupação maior, segundo Cafeo, continua sendo a distância entre a inflação acumulada e a meta oficial do Banco Central. O economista chamou atenção para o fato de que os 2,6% registrados nos quatro primeiros meses do ano já representam mais de 74% da meta de 3% perseguida pela autoridade monetária. Na prática, isso significa que o país precisaria conviver com índices extremamente baixos daqui para frente para encerrar o ano dentro do objetivo, algo considerado improvável diante das pressões climáticas e das tensões geopolíticas no exterior.
Fertilizantes, alimentos e inflação
E é justamente o cenário internacional que volta a assombrar a inflação brasileira. Cafeo destacou que o conflito no Oriente Médio, somado às restrições logísticas provocadas pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, reacendeu um problema antigo: a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Brasil compra cerca de 80% dos insumos usados no agronegócio fora do país, o que deixa a cadeia produtiva vulnerável a crises externas. “Nós não aprendemos a lição”, resumiu o economista ao lembrar que situação semelhante ocorreu durante a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Alerta da ONU sobre fertilizantes
O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã ameaça interromper parte importante do comércio mundial de fertilizantes, afetando diretamente países dependentes como o Brasil, segundo a ONU. Cerca de um terço dos fertilizantes do mundo passa pela região, e a redução da oferta já provoca alta nos preços agrícolas e risco de insegurança alimentar. Especialistas alertam que a normalização dos estoques pode levar meses mesmo após eventual reabertura da rota, aumentando a pressão sobre inflação, produção de alimentos e abastecimento global.
Choque nos preços
O temor é que a redução da oferta global de fertilizantes provoque um novo choque nos preços agrícolas. Quando o custo do insumo sobe, o impacto acaba chegando ao supermercado. Cafeo explica que o agronegócio já enfrenta dificuldades financeiras e terá menos espaço para absorver novas altas sem repassar parte dos custos ao consumidor final. O resultado é um ambiente de inflação persistente justamente em itens essenciais, como alimentos, pressionando ainda mais o orçamento das famílias brasileiras.
Limite para o repasse
Ao mesmo tempo, o economista observa que existe um limite para esse repasse. Segundo ele, a perda de renda e o enfraquecimento do poder de compra já mudaram o comportamento do consumidor. Muitas famílias passaram a trocar marcas tradicionais por produtos mais baratos, reduzir quantidade comprada e até substituir itens da cesta básica. É o chamado “efeito substituição”, movimento que revela como a inflação deixa de ser apenas um indicador econômico e passa a interferir diretamente nos hábitos de consumo da população.
Empresas pressionadas
Para Cafeo, esse é o retrato mais delicado do atual cenário econômico: de um lado, empresas pressionadas por custos mais altos; do outro, consumidores sem margem para absorver novos aumentos. O resultado pode ser mais um ano de inflação acima da meta, juros elevados por mais tempo e crescimento econômico limitado. E tudo isso acontecendo enquanto conflitos internacionais continuam afetando desde o transporte marítimo até o preço do alimento na mesa do brasileiro.
