Bom e barato: o vinho de 90 reais que entrou na briga dos grandes Bordeaux
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O que um depilador elétrico feminino tem a ver com a história de um grande vinho? No caso do produtor Yves Vatelot, tem tudo a ver. A história dele na vinicultura começa com a invenção de um produto industrial. Ou, mais precisamente, ao estilo do Professor Pardal, com a criação de vários produtos. Ele foi o responsável pelo lançamento do Epilady, um dos primeiros depiladores femininos elétricos, comercializados pela alemã Braun, em todo o mundo. “Como um inventor se tornou um produtor de vinho? ”, perguntei a Vatelot, durante um almoço recente no Gero, no Hotel Fasano, em São Paulo. A resposta veio sem cerimônia: ele precisava de dinheiro para comprar um château.
Vatelot vendeu sua empresa de criação de novos produtos em 1990. Com o dinheiro, comprou o Château de Reignac e começou uma longa transformação da propriedade. Foram dez anos para reorganizar a produção e construir uma nova identidade para os vinhos. Em 2001, uma degustação às cegas mudaria a percepção do mundo sobre a vinícola Reignac. Na época, o vinho de 15 euros, o equivalente a 90 reais, foi degustado às cegas com grandes nomes de Bordeaux — alguns deles custavam 1. 300 euros. O objetivo era simples: provar a qualidade sem a ajuda do rótulo, da classificação ou do preço. Entre os competidores, havia vinhos prestigiados de casas como Haut Brion, Margaux e Cheval Blanc.
Funcionou, ou melhor: surpreendeu e brilhou. Depois da degustação, conta Vatelot, o Reignac deixou de ser visto apenas como mais um vinho de Bordeaux e passou a ser comparado aos grandes ícones da região. Consumidores passaram a comprar o vinho pela internet para provar por conta própria (o preço ajudou a atiçar a curiosidade em torno do produto). Hoje, segundo ele, são cerca de 15. 000 clientes diretos. O curioso é que, mais de duas décadas depois daquela prova, a lógica continua a mesma: fazer vinho de alta qualidade sem cobrar do consumidor apenas pelo peso do nome no rótulo.
A CHEGADA DO ROSÉ
Durante o almoço no Gero, o parisiense que vive em Bordeaux e sua mulher, Stéphany, apresentaram uma novidade. Pela primeira vez, o Château de Reignac produziu um rosé. E não foi tímido: 100% Merlot, fresco, delicado e com uma acidez que pede comida. “As pessoas acreditam que vinho rosé tem que vir da Provence. Por isso não havíamos feito antes”, contou Stéphany. A estreia, porém, parece ter chegado na hora certa. Frescor, qualidade e um preço de R$ 233 vêm conquistando o público. Na mesa, foi o par perfeito para um crudo de salmão com ovas e burrata. Todos os rótulos do Reignac chegam ao Brasil pela importadora Clarets.
Entre os tintos, outro vinho chamou minha atenção: o R de Reignac (R$ 299), um Cabernet Franc da safra 2012, sem passagem por madeira. Fruta intensa, frescor e muita vocação gastronômica. Para pavor dos puristas de plantão, ficou delicioso com um robalo servido com fregola e pistache.
A estrela do almoço, porém, foi o Balthus 2016 (R$ 1. 666), 100% Merlot, que já recebeu 92 pontos do crítico Robert Parker. O nome é uma homenagem ao filho do casal, Baltazar — e também uma brincadeira com o nome de outro grande Merlot de Bordeaux: Petrus.

É um vinho que ajuda a entender a filosofia de Vatelot: fazer um grande Bordeaux, mas sem transformar a garrafa em uma peça de museu. <br< span=””> />Para a produção desse rótulo, o Professor Pardal voltou à tona. Vatelot criou e patenteou um sistema de fermentação em pequenas barricas. O equipamento foi desenhado para tornar a fermentação mais homogênea e permitir uma extração mais delicada. São lâminas, instaladas dentro da barrica, que colocam o líquido sempre em movimento. Assim, taninos são amaciados mais rapidamente pela madeira fazendo com que o vinho fique acessível para beber sem exigir tantos anos de espera.
E talvez seja justamente aí que sua trajetória, o inventor que se transformou em vigneron, faça sentido. Ele não vê tradição e inovação como inimigas. Passou 35 anos trabalhando para melhorar o Reignac e diz que nunca produziu vinhos tão bons quanto os de agora. A floresta, o lago, a biodiversidade e as novas ferramentas de vinificação fazem parte dessa equação. Quem esteve ao lado dele durante toda essa jornada foi Michel Rolland (1947–2026), o enólogo que difundiu o conceito de “flying winemaker”, porque trabalhou em 110 vinícolas em 21 países.
DNA DA TORRE EIFFEL
O château também ocupa uma posição geográfica particular, entre Bordeaux e Saint-Émilion. Vatelot gosta de lembrar que a propriedade reúne características que permitem trabalhar tanto com Cabernet Sauvignon e Franc quanto com Merlot, uvas típicas da região, ajustando o corte de acordo com o perfil de cada safra. É uma flexibilidade que parece combinar com o próprio proprietário, um parisiense extraordinariamente bem-humorado (algo raro, diriam os turistas mal-humorados).

Quando pergunto sobre a crise dos preços de Bordeaux, ele não dramatiza. Para Vatelot, o mercado está simplesmente caminhando para um novo equilíbrio. Segundo ele, os vinhos mais raros continuarão caros porque existem compradores capazes de pagar por eles. Os demais terão de encontrar novos preços – e novos consumidores.
No caso do Reignac, ele diz não sentir o mesmo impacto porque trabalha há anos diretamente com distribuidores e mantém os preços sob controle. Neste momento aparece outra ideia que aproxima o inventor do homem de negócios: qualidade precisa ser acessível o suficiente para que alguém tenha vontade de descobrir. Para os jovens, diz Vatelot, o vinho exige educação. Ninguém nasce sabendo beber vinho. O preço pode ser uma porta de entrada. Talvez por isso sua definição de vinho caro seja tão direta: “Todo vinho que não é bom é sempre muito caro”.
Outro orgulho é a propriedade. O château tem uma torre especial para degustações às cegas, com uma engenhoca que esconde as garrafas, e uma estufa projetada por Gustave Eiffel, sim, o mesmo engenheiro que projetou a torre de Paris. Atualmente, a vinícola recebe 10. 000 visitantes por ano, fica a 30 minutos de carro de Bordeaux e parece ser uma boa pedida para quem estiver pela região.
No dia do nosso almoço em São Paulo, ele estava completando 73 anos. No fim da conversa, perguntei o que ainda o entusiasma depois de mais de três décadas no Reignac. A resposta não teve nada a ver com dinheiro. Seu maior orgulho, disse, é ter realizado aquilo que imaginou quando começou, ao lado de Michel Rolland. Porque o vinho, para ele, é um projeto que atravessa gerações. A propriedade existia antes dele e, se tudo der certo, continuará existindo muito depois.
Talvez esse seja o verdadeiro invento de Yves Vatelot: não a barrica que acelera o amadurecimento, mas a ideia de que tradição também pode ser uma coisa em movimento.
