3,3 mil cidades estão sem ônibus interestadual

Mais de 3,3 mil municípios brasileiros, o equivalente a mais de 60% das cidades do país, estão sem atendimento pelo transporte rodoviário regular interestadual. O dado chama ainda mais atenção diante de outro número: nos últimos dois anos, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) recebeu aproximadamente 70 mil solicitações de autorização para operação de mercados.
Os números fazem parte de um levantamento da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), elaborado a partir de dados públicos da ANTT. A entidade reúne, entre outras empresas, Buser e FlixBus e defende uma maior abertura do setor.
Enquanto cresce o interesse de empresas por novas operações, a quantidade de linhas regulares diminuiu. Eram 2.436 em 2019 e são 2.018 neste ano, uma redução de 17%. O número de passageiros também encolheu: passou de 43,1 milhões em 2023 para 36,7 milhões em 2025, queda de quase 15%.
Outro dado mostra o tamanho da judicialização do mercado. Dos cerca de 33 mil mercados vigentes em 2025, aproximadamente 25 mil, ou três quartos do total, eram resultado de decisões judiciais, segundo a Amobitec. O regime de autorizações para o transporte interestadual foi estabelecido em 2014, mas sua implementação tem sido marcada por disputas entre empresas, regulador e tribunais.
Neste ano, a ANTT tentou acelerar a abertura com a chamada 1ª Janela Extraordinária. A agência chegou a divulgar empresas aptas a operar 47.291 mercados: 38.379 considerados desassistidos e 8.912 monopolizados. O processo, porém, passou por sucessivas suspensões e retomadas e voltou a ser interrompido após questionamentos judiciais relacionados ao sistema tecnológico utilizado pela agência.
A Amobitec atribui parte da redução da oferta à concentração do mercado e às barreiras para a entrada de novos operadores. A associação calcula que cerca de 80% das rotas têm apenas uma ou duas empresas — em alguns casos pertencentes ao mesmo grupo econômico. A tese é contestada pelas companhias tradicionais do setor, que vêm recorrendo à Justiça contra mudanças nas regras de autorização.
