As crises que colocam o ‘Fantástico’ mais uma vez contra a parede

Com 53 anos de história, o Fantástico vive o pior momento de sua trajetória em 2026. A revista eletrônica da TV Globo se acostumou a dominar as noites de domingo, sempre trazendo uma mescla bem feita de notícias exclusivas, curiosidades científicas e entrevistas com personalidades de destaque que repercutiam ao longo de toda a semana. No entanto, esse brilho parece ter sido desfeito, com o programa tendo uma década de 2020 repleta de tropeços, com direito a tentativas malfadadas de ajustes, como uma mudança para um tom mais policial — que não deu certo — e agora se voltando ao entretenimento.
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Dados do Ibope apontam que o programa caminha para encerrar o ano com a pior audiência já registrada, chegando a marcar pífios 14,7 pontos de média no mês de julho. Nem mesmo eventos de destaque, como a Copa do Mundo, foram capazes de alavancar o programa de Maju Coutinho e Poliana Abritta, que tem sido colocado contra a parede pela ascensão dos serviços de streaming. O jornalístico chegou a acumular oito derrotas consecutivas para as plataformas nos domingos.
A situação é ainda mais tensa quando se coloca em vista que o ano de 2025 já havia sido o pior da história do Fantástico, e que a revista eletrônica está em queda livre desde 2022. Embora a TV aberta como um todo venha sofrendo com a ampla adesão à internet e ao streaming, o programa parece ter levado um golpe mais duro na comparação com outros programas da Globo. Até mesmo a capacidade de pautar o debate semanal, algo tão comum em tempos passados, parece ter se perdido. Programas com audiência inferior, como o Domingo Espetacular, têm tido mais sucesso em emplacar temas com repercussão, a exemplo da entrevista com o ator Rafael Cardoso.
Histórico de quedas
Porém, é importante destacar que o Fantástico já enfrentou momentos de crise anteriormente, e sempre conseguiu se reinventar. Em épocas analógicas, o principal obstáculo era o SBT de Silvio Santos, responsável pela primeira ameaça real ao programa: o Topa Tudo por Dinheiro. Lançado no início da década de 90, o programa de auditório contava com uma série de gincanas e brincadeiras, e chegou a superar a audiência do jornalístico da Globo em alguns momentos.
O posto foi recuperado pelo Fantástico posteriormente, sendo mantido até 2001, quando o SBT novamente lançou um programa que atingiu em cheio a revista eletrônica. Desta vez, a ameaça era o reality A Casa dos Artistas, que reunia celebridades em uma mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo. Contando com nomes como Alexandre Frota, Bárbara Paz e Supla, a atração teve grande sucesso, chegando a abrir 30 pontos de vantagem contra a emissora rival em sua grande final.
A Casa dos Artistas ainda foi responsável por uma guerra aberta entre Globo e SBT, com a emissora dos Marinho acusando a rival de roubar o formato do Big Brother, que tinha sido recém-adquirido junto à produtora holandesa Endemol. Nos anos seguintes, outras versões do reality foram lançadas, mas não conseguiram ameaçar o Fantástico como a icônica edição de 2001.
Em ambos os casos, o Fantástico conseguiu recuperar sua audiência apostando em ajustes leves e confiando na capacidade do jornalismo televisivo de se manter relevante contra ‘modas passageiras’. De fato, os programas de auditório e reality shows de celebridades foram perdendo sua força com o tempo, embora sigam importantes até os dias de hoje. No entanto, o rival agora é mais complicado de bater.
Afinal, com a população tendo um amplo acesso ao entretenimento devido à internet, fica difícil convencer o espectador a sentar para acompanhar um programa na TV. Isso se torna ainda mais complicado quando a atração em si é arrastada, com quadros cansativos como o novo Delivery com Maju ou reportagens sem sal como a cachorrinha da vilã da novela das 9. Embora a história mostre uma capacidade ímpar de se reinventar, vamos ver se o Fantástico conseguirá, novamente, recuperar seu posto junto ao público.
