Preparativos para encenação de uma peça inédita

Preparativos para encenação de uma peça inédita

PERSONAGENS
FLORA – Jovem curiosa, imaginativa e sensível. Enxerga o mundo pelas perguntas.
NILO – Jovem observador, racional e organizado. Busca compreender o mundo por meio das medidas e das respostas.
A VOZ – Presença atemporal. Nunca se revela. Interagem com os dois personagens do palco.

ESPAÇO CÊNICO
O palco é quase vazio.
Ao centro, uma grande esfera suspensa…

A FÁBULA DO PLANETA OVO
Episódio teatral brasileiro para crianças, jovens e famílias

PRÓLOGO
O teatro encontra-se completamente às escuras.
Não se vê cenário.
Não há música.
Não há personagens.
Há apenas o silêncio.
Um silêncio verdadeiro.
Um silêncio que faz o público esquecer o lado de fora.
A pausa deve durar o tempo suficiente para que a respiração da plateia desacelere.
Então…

PING.

O som cristalino de uma única gota d’água rompe a escuridão. Impacta.
Silêncio.
Ao longe, sopra um vento suave.
Não um vento de tempestade.
Um vento melodioso.
Como se atravessasse montanhas, rios, florestas e chegasse lentamente ao teatro.
O canto solitário de uma ave brasileira ecoa por um instante.
Depois…
silêncio outra vez.
Muito lentamente, uma voz começa a ocupar o espaço.
Não é masculina.
Nem feminina.
Não é jovem.
Nem velha.
Não parece vir de cima, nem de baixo.
Parece existir em todos os lugares ao mesmo tempo.
É simplesmente a voz…

A VOZ (em off)
Antes da primeira árvore…
(Pausa.)
Antes do primeiro rio encontrar o mar…
(Pausa.)
Antes do primeiro voo riscar o céu…
(Pausa.)
Antes que uma criança pronunciasse sua primeira palavra…
(Longa pausa.)
Já existia uma pergunta.

Silêncio.
Um delicado fio de luz nasce no centro do palco.
Não ilumina o ambiente.
Revela apenas uma pequena parte da grande esfera suspensa.
A luz vai crescendo quase imperceptivelmente.
É como um amanhecer.
Como quem desperta sem querer assustar o mundo.
A grande esfera, de cor indefinida, continua imóvel, suspensa.
Majestosa.
Misteriosa.
A VOZ prossegue.

VOZ OFF
Uns juravam que era um planeta.
(Pausa.)
Outros tinham certeza de que era apenas um ovo.
(Pausa.)
Houve quem tentasse medir seu tamanho.
(Pausa.)
Houve quem sonhasse em possuí-lo.
(Pausa.)
Houve até quem acreditasse que pudesse dividi-lo.

Silêncio.
A luz então já aumentou o suficiente para revelar toda a esfera.
Ela está suspensa.
Não gira.
Não balança.
Não emite brilho.
Não produz qualquer efeito.
Sua única força é existir.
Ninguém pode afirmar o que ela realmente é.
A VOZ fala mais baixo.
Quase como um segredo.

VOZ OFF
Talvez…
(Pausa.)
A verdadeira pergunta nunca tenha sido…
(Nova pausa.)
O que ela é.

Silêncio.
Mais longo.
Mais profundo.
Depois…

VOZ OFF
Talvez…
(Pausa.)
A verdadeira pergunta seja outra.

Silêncio absoluto.
O público inteiro espera.

VOZ OFF
Então:
Quem será capaz de cuidar dela…
…sem desejar ser seu dono?

Silêncio.
Nenhuma música.
Nenhum efeito.
Há som de passos.
Primeiro…
passos vindos da esquerda do palco.
Calmos.
Leves.
Curiosos.
Depois…
passos vindos da direita.
Firmes.
Precisos.
Decididos.
Pela esquerda, de roupa jovial, entra FLORA.
Carrega um mapa dobrado junto ao peito, como quem guarda um sonho.
Observa tudo ao redor com a curiosidade de quem acredita que cada caminho pode esconder uma descoberta.
Pela direita, também com trajes alegres e coloridos, entra NILO.
Traz presa ao cinto uma pequena trena, um bloco de anotações e um lápis.
Seu olhar percorre o espaço procurando padrões, medidas, respostas.
Nenhum dos dois percebe a presença do outro.
Muito menos a esfera.
Caminham em direções diferentes.
Mas seus caminhos, lentamente, convergem.
Quase ao mesmo tempo, chegam ao centro do palco.
Param.
Um silêncio.
Como se o tempo prendesse a respiração.
Os dois levantam lentamente os olhos.
Veem uma esfera suspensa no ar.
Depois…
veem um ao outro.
Nenhum deles fala.
Apenas olham.
Pela primeira vez…
não para descobrir quem está à sua frente.
Mas para compartilhar o mesmo espanto.
Inicia-se a Cena 1.

CENA 1
O ENCONTRO
Flora e Nilo permanecem imóveis.
O tempo parece suspenso.
Durante alguns instantes, nenhum dos dois consegue desviar os olhos daquela esfera suspensa na frente deles, de cor neutra.
É como se estivessem diante de alguma coisa que sempre existiu, mas que ninguém jamais havia percebido.
O silêncio não constrange.
Ele aproxima.
É Flora quem fala primeiro.

FLORA
Qual seu nome?

NILO
Meu nome é Nilo. E o seu?

FLORA
Meu nome é Flora (em seguida, quase num sussurro)
Você também está vendo?

NILO
(sem tirar os olhos da esfera)
Se nós dois estamos olhando…
acho que ela existe.

Flora sorri discretamente.

FLORA
Ainda bem.
Por um instante achei que fosse um sonho.

NILO
Se for…
é o sonho mais estranho que já tive acordado.

Silêncio.
Os dois dão, quase ao mesmo tempo, um pequeno passo em direção à esfera.
Param novamente.
Instintivamente, respeitam a distância.

FLORA
Nunca vi nada parecido.

NILO
Nem eu.
(pequena pausa)
E olha que passo boa parte da vida procurando coisas diferentes.

FLORA
Você procura coisas?

NILO
Respostas.
(sorri de leve)
Às vezes elas se escondem dentro das coisas.

FLORA
Eu procuro perguntas. Estranho, né?

Nilo finalmente olha para ela.

NILO
Perguntas?

FLORA
Quando encontro uma pergunta bonita…
quase sempre descubro alguma coisa.

Nilo ri discretamente.

NILO
Nunca conheci alguém que colecionasse perguntas.

FLORA
E eu nunca conheci alguém que colecionasse respostas.

Os dois sorriem.
A tensão diminui.
Sem combinar, começam a caminhar lentamente em torno da esfera, cada um por um lado.
Desenham uma órbita perfeita.
A esfera permanece intocada.

NILO
Ela não tem emenda.

FLORA
Nem começo.

NILO
Nem fim.

FLORA
Você reparou?

NILO
O quê?

FLORA
Ela não parece ter sido feita.
Parece…
ter nascido.

Silêncio.
Nilo observa com mais atenção.
Pela primeira vez, deixa de procurar defeitos.

NILO
Talvez…
(aproxima um pouco mais o rosto, sem tocar)
Você acha que isso é um planeta?

FLORA
Eu não sei.
(olha demoradamente para a esfera)
Mas…
eu gostaria que fosse um ovo.

NILO
Um ovo?
Desse tamanho?

FLORA
Quem disse que toda vida começa pequena?

Silêncio.
Nilo permanece olhando para a esfera.
Depois olha para Flora.
Depois volta a olhar para a esfera.

NILO
Nunca pensei nisso.

FLORA
Nem eu.
Só pensei agora.

Os dois riem.
É a primeira vez que riem juntos.

NILO
Se for um ovo…
deve existir alguma coisa aí dentro.

FLORA
Talvez.

NILO
E, se existe…
uma hora vai nascer.

FLORA
Ou talvez…
já tenha nascido.

NILO
Como assim?

FLORA
Talvez o ovo esteja vazio.
Talvez o que nasceu dele…
seja justamente o lugar onde a gente está.

Longo silêncio.
Nilo observa novamente a esfera.
Há algo naquela ideia que o desarma.

NILO
Você pensa de um jeito curioso.

FLORA
Albert Einstein disse que o importante é não parar de questionar e que a curiosidade tem sua própria razão de existir.

NILO
Eu ouvi outra coisa.

FLORA
O quê?

NILO
O primeiro homem que pisou na lua disse que o mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender. E para compreender temos que medir isso.

Nilo retira lentamente a pequena trena presa ao cinto.
Não a abre.
Apenas a observa.

FLORA
Você vai medir?

NILO
Não sei.
(olhando para a esfera)
Como vou descobrir o que ela é…
se nem sei o tamanho?

FLORA
Tem coisas…
que aumentam quando a gente mede.

NILO
Como o quê?

FLORA
A distância.

Silêncio.
Nilo ri.
Não é um riso de quem debocha.
É um riso de quem acabou de encontrar alguém diferente de todas as pessoas que conheceu.

NILO
Você é engraçada.

FLORA
E você parece gostar de colocar número em tudo.

NILO
Os números ajudam a entender o mundo.

FLORA
Nem sempre.

NILO
Como não?

FLORA
Quanto pesa um abraço?

Silêncio.
Nilo olha para a trena.
Depois para Flora.
Depois novamente para a esfera.
Sem perceber, baixa lentamente a mão que segurava a trena.
Como se entendesse, pela primeira vez, que nem toda pergunta pode ser respondida por uma medida.
Os dois permanecem lado a lado.
Não são amigos.
Ainda não.
Mas já não são estranhos.
Uma música instrumental enleva o momento.
Fim da Cena 1.

CENA 2
A PRIMEIRA ESCOLHA
O palco permanece em silêncio.
Flora e Nilo continuam diante da esfera.
Nenhum dos dois fala.
A luz parece mais quente.
Um som instrumental ecoa como a sinalizar o surgimento de uma ideia.

NILO
(sem desviar os olhos da esfera)
Engraçado…

FLORA
O quê?

NILO
Quando cheguei aqui…
eu só queria descobrir o que ela era.
(Pausa.)
Agora…
estou mais curioso para saber por que ela está aqui.

FLORA
Eu também.
(Silêncio.)
Talvez…
ela esteja esperando alguém.

NILO
Quem?

FLORA
Não faço ideia.
Mas…
não parece abandonada.
Parece…
guardada.

Silêncio.
Os dois observam a esfera por outro ângulo.

NILO
Você reparou numa coisa?

FLORA
Qual?

NILO
Ela está completamente sozinha.

FLORA
Talvez seja porque ninguém teve coragem de chegar perto.

NILO
Ou porque todo mundo passou depressa demais.
(Silêncio.)

FLORA
Meu avô dizia que quem vive correndo…
passa pela vida sem perceber onde ela floresce.

Nilo sorri.

NILO
Já o meu avô dizia que quem para demais…
perde o trem.

FLORA
Então talvez a gente precise aprender…
quando correr.
E quando parar.

Os dois sorriem.
É a primeira vez que a conversa flui naturalmente.
Nilo dá mais um pequeno passo.
Ainda sem tocar.

NILO
Você tem vontade?

FLORA
De quê?

NILO
De encostar.

Flora demora para responder.

FLORA
Tenho.
Mas tenho mais vontade…
de entender.

Silêncio.
Nilo olha para a própria mão.

NILO
Estranho…

FLORA
O quê?

NILO
Pela primeira vez…
minha curiosidade ficou maior que minha pressa.

Um suspense suave atravessa o palco.
É quase imperceptível.
A Voz surge pela primeira vez desde o prólogo.
Calma.
Serena.
Como se já estivesse ali há muito tempo.

A VOZ (em off)
Há perguntas…
Das quais teremos respostas
Se aprendermos a esperar.

Os dois se entreolham.

NILO
Você aqui?.

A VOZ
Eu nunca fui embora.

Silêncio.

FLORA
Quem é você?

A VOZ
Sou apenas uma voz.
Assim como o vento.
Vocês não o veem.
Mas sabem quando ele passa.

NILO
Você conhece esta esfera?

A VOZ
Conheço muitas histórias.
Algumas cabem dentro dela.
Outras…
cabem dentro de vocês.

Silêncio.

FLORA
Ela está viva?

A Voz demora a responder.

A VOZ
Digam vocês.
O que faz uma coisa estar viva?

Nilo pensa imediatamente.

NILO
Movimento.

FLORA
Não.
Cuidado.

Nilo olha para Flora.

NILO
Como assim?

FLORA
Tudo aquilo que precisa de cuidado…
de algum jeito…
está vivo.

Silêncio.
A Voz não responde.
Apenas deixa que a frase permaneça.

NILO
Então…
uma amizade está viva.

FLORA
Uma floresta também.

NILO
Uma cidade.

FLORA
Um rio.

NILO
Uma ideia.

FLORA
Uma esperança.

Silêncio.

A VOZ
E o que acontece…
quando deixamos de cuidar?

Os dois permanecem calados.
Ninguém responde.
A Voz não insiste.
Apenas espera.

NILO
Acho…
que ela fica sozinha.

FLORA
E tudo o que fica sozinho por muito tempo…
começa a desaparecer.

Silêncio.
A Voz fala muito baixo.

A VOZ
Então…
talvez esta esfera…
não esteja esperando alguém que descubra seu nome.
(Pausa.)
Talvez esteja esperando alguém…
que descubra como cuidar dela.

Longo silêncio.
Nilo respira fundo.

NILO
Mas…
como a gente cuida de uma coisa…
sem saber o que ela é?

A Voz sorri. Não vemos. Apenas sentimos pela mudança no tom que virá na fala seguinte.

A VOZ
Essa…
é a primeira pergunta certa.

Silêncio.
A luz sobre a esfera muda quase imperceptivelmente para uma cor esverdeada.
Não é um brilho.
É como se respirasse.
Pela primeira vez.
Muito lentamente.
Flora percebe.

FLORA
Nilo…
você viu?

NILO
Vi.

FLORA
Ela…
acabou de responder.

Os dois permanecem imóveis.
Não há medo.
Apenas maravilhamento.
A Voz encerra a cena.

A VOZ
Toda grande viagem…
começa no instante em que deixamos de perguntar…
“O que posso ganhar?”
…e passamos a perguntar…
“Do que isso precisa?”

Luzes diminuem lentamente.
Fim da Cena 2.

CENA 3
A PRIMEIRA MEMÓRIA
A luz sobre a esfera volta a ser clara
A luz permanece suave.
A esfera continua imóvel.
Flora e Nilo permanecem em silêncio.
É um silêncio diferente.
Agora eles não observam a esfera.
Escutam.
De repente…
SOM AMPLO
PING.

A mesma gota do prólogo.
Depois outra.
Depois outra.
O som parece vir de muito longe.

FLORA
Você ouviu?

NILO
A gota.

FLORA
É água.
É o caminho dela.

Nilo fecha os olhos.
Escuta novamente.

NILO
Ela está…
correndo.

FLORA
Como se procurasse alguém.

NILO
Ou alguma coisa.

Silêncio.

A VOZ (em off)
Toda água conhece o caminho de casa.
Mesmo quando os homens o esquecem.

Silêncio.

FLORA
Para onde vai uma gota…
quando ninguém a vê?

NILO
Nunca pensei nisso.

FLORA
Eu também não.
(sorri)
Acho que ela continua viajando.

NILO
Sem mapa.

FLORA
Sem trena.

Os dois riem discretamente.
Nilo guarda definitivamente a trena no cinto.
Não como quem desistiu dela.
Mas como quem percebeu que ela não serve para tudo.

A VOZ
Fechem os olhos.

Os dois obedecem.

A VOZ
Não imaginem.
Escutem.

Silêncio.
Agora ouvimos:
Sons enchem o ambiente do teatro.
Uma nascente.
Depois um riacho.
Depois um rio maior.
Depois cachoeira.
Depois chuva.
Depois mar.
Depois vento.
Depois chuva novamente.
Tudo muito delicado.
Quase musical.
Quando os sons terminam…
há um longo silêncio.

A VOZ
O que vocês ouviram?

NILO
Água.

FLORA
Movimento de uma viagem.

A VOZ
Os dois ouviram a mesma coisa.
Mas enxergaram diferente.

Nilo abre lentamente os olhos.

NILO
Ela, essa água, nunca parou.

FLORA
Nem quando virou nuvem.

NILO
Nem quando virou chuva.

FLORA
Nem quando virou rio outra vez.

Silêncio.

NILO
Então…
ela nunca pertence a um lugar.

FLORA
Ela pertence ao caminho.

A Voz permanece em silêncio.
Não confirma.
Não explica.

NILO
É por isso que ninguém consegue prender um rio.

FLORA
Quando tentam…
ele procura outro caminho.

Silêncio.

A VOZ
E quando impedem todos os caminhos?

Nilo responde primeiro.

NILO
Ela transborda.

FLORA
Ou desaparece.

A Voz deixa que a resposta permaneça.

A VOZ
Agora olhem novamente para a esfera.

Os dois obedecem.

A VOZ
Imaginem…
que dentro dela exista…
a primeira gota do mundo.

Silêncio.

FLORA
Então…
cada rio que existe hoje…
já esteve ali dentro.

NILO
E cada pessoa…
bebeu um pedacinho dessa mesma história.

Silêncio.

FLORA
Isso significa…
que a água que mata minha sede…
talvez tenha passado por milhares de lugares.

NILO
Talvez tenha atravessado uma floresta.

FLORA
Talvez uma aldeia.

NILO
Talvez uma cidade enorme.

FLORA
Talvez tenha matado a sede de alguém…
muito antes de nós nascermos.

Silêncio.

NILO
Ela nunca foi minha.

FLORA
Nem minha.

A VOZ
A água nunca perguntou…
quem era o dono.
Perguntou apenas…
quem precisava dela.

Silêncio.
Flora abaixa lentamente o mapa.
Nilo olha para as próprias mãos.

NILO
Acho…
que estou começando a entender.

FLORA
O quê?

NILO
Talvez cuidar…
seja deixar as coisas continuarem a viagem delas.

Flora sorri.

FLORA
Albert Einstein iria gostar de uma resposta como essa.

NILO
O astronauta também.
Só que ele iria colocar isso numa fórmula.

Os dois riem.

FLORA
Ainda bem que estamos entendo mais agora.

NILO
Ainda bem.
Porque sem o pitaco dessa Voz eu também não saberia resolver.

Os dois voltam a olhar para a esfera.
Pela primeira vez, não procuram descobrir o que ela é.
Procuram compreender o que ela representa.
A Voz fala muito baixo.

A VOZ
Quem aprende a ouvir uma gota…
um dia será capaz de escutar um planeta inteiro.

Silêncio.
Luzes diminuem lentamente.
Fim da Cena 3.

CENA 4
O MUNDO INVISÍVEL
A luz retorna lentamente.
A esfera permanece suspensa.
Há um silêncio diferente.
Já não é o silêncio da dúvida.
É o silêncio de quem começa a compreender.
Flora e Nilo continuam próximos da esfera.
Ninguém fala durante alguns instantes.
Uma luz esverdeada atravessa o palco.

A VOZ (em off)
Há um mundo…
que quase ninguém vê.
(Silêncio.)
E, no entanto…
é ele quem sustenta todos os outros.

Flora olha ao redor.
FLORA
Onde?

A VOZ
Mais perto do que seus olhos alcançam.
(Pausa.)
Olhem para baixo.

Os dois olham o chão.
Não veem nada.

NILO
Só existe terra.

A VOZ
Só?
(Silêncio.)
Ajoelhem-se.

Os dois obedecem.
Observam o chão como quem o vê pela primeira vez.

A VOZ
Quantas vidas existem sob seus pés?

Silêncio.

NILO
Uma?

FLORA
Duas?

NILO
Talvez cinco…

A VOZ
Milhões.

Silêncio.
A luz muda discretamente.
Não há projeções.
Não há efeitos especiais.
Apenas som.
O público começa a ouvir.
Sons ecoam pelo teatro.
Folhas secas.
Insetos.
Rugido de animais.
Uma minhoca revolvendo a terra.
Raízes rompendo o solo.
Água infiltrando lentamente.
Tudo muito delicado.

FLORA
Parece…
que a terra respira.

NILO
Nunca imaginei que o silêncio tivesse tanto barulho.

Flora sorri.

FLORA
Talvez ele sempre tenha tido.
Nós é que falávamos demais.

Silêncio.

A VOZ
Uma árvore…
nunca cresce sozinha.
(Pausa.)
Antes dela…
o solo trabalhou.
A água esperou.
O vento viajou.
O sol aqueceu.
As sementes confiaram.

Silêncio.

NILO
Então…
ninguém vive sozinho.

A VOZ
Nem uma árvore.
Nem um rio.
Nem uma floresta.
(Pausa.)
Nem vocês.

Silêncio.
Flora fecha lentamente o mapa.
Não o guarda.
Apenas o segura junto ao peito.

FLORA
Meu avô dizia…
que as árvores conversavam.
Quando eu era pequena…
achei que fosse invenção dele.

NILO
O meu avô dizia…
que toda conversa precisava de uma explicação.
(Sorri.)
Hoje…
acho que algumas…
bastam ser escutadas.

Silêncio.
A Voz não responde.
Deixa a frase permanecer.

FLORA
Nilo…
olhe.

Nilo acompanha o olhar dela.
Uma pequena folha seca desliza pelo palco, levada pelo vento.
Nada extraordinário.
Mas ambos a acompanham como se observassem uma estrela.

FLORA
Ela veio de algum lugar.

NILO
E vai continuar viajando.

FLORA
Até virar terra.

NILO
Para nascer outra árvore.

Silêncio.

A VOZ
Nada termina.
Tudo continua.
Mudando de forma.

Os dois permanecem observando a folha.

NILO
A água continua.
A folha continua.
A árvore continua.

FLORA
A vida continua.

NILO
Só muda de caminho.

Silêncio.
Então, pela primeira vez, Nilo tira novamente a trena do cinto.
Ele estica a fita.
No mesmo instante…
a fita escapa da mão.
Bate de leve na esfera.
Silêncio.
Os dois congelam.
A luz muda muito discretamente.
Nada acontece.
Nilo fica desesperado.

NILO
Desculpa…
Eu não queria…

Silêncio.
Flora olha para ele.
Depois para a esfera.

FLORA
Ela não se assustou.
Você sim.

A Voz fala.
Muito suavemente.

A VOZ
Quando uma raiz alimenta outra…
não pergunta de quem ela é.
Quando um rio encontra o mar…
não pergunta quem o merece.
Quando uma árvore oferece sombra…
não escolhe quem pode descansar.
(Longa pausa.)
Talvez…
a natureza nunca tenha aprendido a palavra…
“propriedade”.

Silêncio profundo.
Flora aproxima-se da esfera.
Nilo faz o mesmo.
Os dois estendem lentamente as mãos.
Param a poucos centímetros.
Não tocam.
Agora não é medo.
É respeito.
Olham um para o outro.
Depois para a plateia.

FLORA
Você percebeu?

NILO
O quê?

FLORA
Ela nunca pediu para ser salva.
(Silêncio.)
Pediu apenas…
para não ficar sozinha.

Nilo respira profundamente.

NILO
Então…
talvez cuidar…
seja exatamente isso.
Fazer companhia à vida.

Silêncio.
A esfera permanece imóvel.
Mas, pela primeira vez desde o início da peça…
a luz que a envolve torna-se um pouco mais de cores quentes.
Quase imperceptivelmente.
Não porque ela mudou.
Mas porque Flora e Nilo mudaram.
Luzes diminuem lentamente.
Fim da Cena 4.

EPÍLOGO
A luz é suave.
A esfera continua suspensa no centro do palco.
Flora e Nilo permanecem diante dela.
Ninguém fala.
Os dois já não olham a esfera como quem procura respostas.
Olham para ela com carinho.
Como quem reconhece um velho amigo.
Um longo silêncio.

FLORA
Sabe…
acho que passei o tempo todo tentando descobrir se isto era um ovo…
ou um planeta.
(Pausa.)
Hoje isso já não faz tanta diferença.

NILO
Também não.
(Sorri.)
Passei a vida inteira acreditando que entender era dar nome às coisas.
Agora…
acho que entender é aprender a cuidar delas.

Silêncio.
Flora vai desdobrando lentamente o mapa que tem e olha para o mesmo.
Flora abre o mapa.
Ele está completamente em branco.
Ela sorri.

FLORA
Engraçado…

NILO
O quê?

FLORA
O caminho nunca esteve aqui.
(Leva a mão ao peito.)
Sempre esteve aqui.

Fecha o mapa.
Flora recebe de Nilo a trena.
Ela olha para a trena.
Sorri.
Ela aproxima-se do centro do palco.
Nilo faz o mesmo.
Sem qualquer cerimônia.
Colocam o mapa e a trena juntos no chão.
Lado a lado.
Ninguém abandona seus sonhos.
Apenas os compartilham.
Silêncio.
A Voz surge.
Mostra-se muito serena.
Quase um sussurro.

A VOZ (em off)
Há quem passe pela vida deixando pegadas.
Há quem deixe cicatrizes.
E há quem plante caminhos…
para que outros possam continuar.
(Silêncio.)
Cuidar…
é a maneira mais bonita de dizer:
“você pode existir depois de mim.”

Flora olha discretamente para a plateia.
Nilo faz o mesmo.
Não falam imediatamente.
É como se, pela primeira vez, enxergassem todas aquelas pessoas.

FLORA
Acho…
que ela estava esperando por vocês também.

Silêncio.

NILO
Agora…
a pergunta não é mais nossa.
(Olha para a plateia.)
É de todos nós.

Silêncio profundo.
A Voz fala. É tom onipotente que ecoa.

A VOZ
Toda criança nasce herdeira de um Brasil de rios, florestas,
cerrados, mares e gente de muitos sotaques.
Nenhuma recebe uma escritura.
Recebe apenas…
a oportunidade de decidir…
que tipo de guardiã…
ou de guardião…
deseja ser.

Longo silêncio.
Flora estende lentamente a mão.
Não para Nilo.
Para a plateia.
Nilo faz o mesmo.
Não pedem que ninguém suba ao palco.
Não pedem promessas.
Apenas oferecem um gesto.
Os dois do palco voltam-se uma última vez para a esfera.

FLORA
Até logo.

NILO
Cuide bem deles.

Silêncio.
Os dois saem lentamente por lados opostos do palco.
Exatamente pelos mesmos caminhos por onde entraram.
Agora, porém, nenhum caminho parece contrário ao outro.
As luzes acompanham sua saída.
A esfera permanece sozinha.
Silêncio absoluto.
Durante alguns segundos, nada acontece.
O público acredita que a peça terminou.
Então…
Quase imperceptivelmente…
A esfera realiza um movimento. A esfera balança.
Não mais que alguns centímetros.
Ou talvez tenha uns que podem entender que pode ter sido
apenas um reflexo da luz.
Jamais se saberá.
Mas é suficiente para que a dúvida permaneça.
A Voz sussurra, quase desaparecendo junto com a luz.

A VOZ
Talvez…
ela nunca estivesse esperando uma resposta.
(Pausa.)
Talvez…
estivesse esperando…
um gesto.

Escuridão total.
FIM

Fonte Original Oeste Goiano

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