O príncipe encrencado: três forças diferentes atacam Arábia Saudita

O príncipe encrencado: três forças diferentes atacam Arábia Saudita

Ler Resumo

“Cortem a cabeça da serpente”, dizia o rei Abdullah, da Arábia Saudita, referindo-se ao Irã dos aiatolás. Seu sobrinho e, na prática, substituto, Mohammad Bin Salman, certamente é da mesma escola, mesmo tendo encenado uma abertura diplomática em relação aos rivais xiitas. Todo seu grande plano geopolítico – laços fortes com os Estados Unidos , sem negligenciar a China ou a Rússia – e um papel preponderante no Oriente Médio. Agora, está administrando uma situação incrivelmente mais complicada. Nem o guarda-chuva americano funcionou e ele se viu obrigado a reagir militarmente depois que a Arábia Saudita foi atacada por nada menos que três forças diferentes: o próprio Irã e seus apaniguados regionais, os hutis do Iêmen e uma das milícias xiitas do Iraque. Os bombardeios em represália podem virar uma campanha maior.

É, como se vê, uma encrenca cabeluda. O príncipe, que todo mundo conhece como MBS, preferiria ficar fora dessa e deixar os americanos fazer o trabalho pesado. Consciente da importância do papel de seu país no mercado de petróleo e no quadro regional, ele conseguiu até arrancar um acordo nuclear pelo qual os sauditas ganhavam dos americanos a tecnologia de enriquecimento de urânio. Diante da reação de pânico de Israel, Donald Trump disse que o negócio era condicionado à adesão saudita aos Acordos de Abraão, o reconhecimento de Israel em troca de várias vantagens diplomáticas e pecuniárias.

Problema: foi uma emenda a posteriori, sem combinar com os sauditas que, compreensivelmente, ficaram furiosos, O país condiciona a adesão aos Acordos de Abraão a uma futura solução sobre um Estado palestino. Faz isso para mostrar peso diplomático e também por questão de sobrevivência: nem o controle total exercido por MBS garante que não exploda uma insatisfação interna daquelas de fazer rolar cabeças se a aproximação com Israel for considerada excessiva.

Existe até um precedente momentoso: em 1975, o rei Faissal foi assassinado com três tiros no momento em que inclinava para beijar um sobrinho, durante uma assembleia tribal. Motivo: tinha promovido várias modernizações, inclusive a introdução da televisão, a mais rejeitada pelos ultrafundamentalistas por reproduzir a imagem humana, que é proibido na interpretacão mais literal Islã.

HORIZONTE COMPLICADO

O príncipe MBS é um Faissal multiplicado por mil, com múltiplas modernizações e ambiciosíssimos planos para um país pós-petróleo que se tornaria polo de atração turística e de investimentos. O afrouxamento em regras extremamente severas – mulheres só podiam sair à rua cobertas com várias camadas de vestes negras, apenas com os olhos de fora, sempre acompanhadas pelo marido ou um parente, e varadas aplicadas no ato aos comerciantes que não fechassem seus negócios cinco vezes por dia para as preces – foi bem recebido pela população em geral, principalmente os mais jovens, mas os ultrafundamentalistas fazem silenciosa oposição.

Continua após a publicidade

Nesse Oriente Médio mais flexível, haveria a normalização com Israel, um futuro Estado palestino, com garantias de que não viraria um foco de terror como Gaza, apaziguaria a opinião pública nos países árabes, o Irã abrandaria o fundamentalismo xiita e todos fariam bons negócios, em lugar dos ciclos eternamente repetidos de guerra e destruição. Nunca mais haveria barbaridades como o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, estrangulado e esquartejado, o horrendo crime cometido por prepostos do príncipe herdeiro.

Nada disso, obviamente, está acontecendo. Donald Trump está diante de um tabu para presidentes americanos – “atoleiro”, ou envolvimento sem fim no Irã -, seus aliados se sentem desprotegidos pela capacidade iraniana de bombardeá-los mesmo com as repetidas proclamações de que suas forças foram degradadas, Israel não eliminou a ameaça nuclear iraniana e vê o risco de uma deterioração na relação existencial com os Estados Unidos, agora complicada pelas divergências sobre o desarmamento do Hamas em Gaza. E a Arábia Saudita foi bombardeada por três lados diferentes. O Irã quer detonar a aliança saudita com os americanos e se afirmar como controlador do Estreito de Ormuz. Os hutis querem até que os sauditas paguem os funcionários públicos do país, um acordo que precede o conflito atual.

Até o acordo nuclear com os Estados Unidos acabou contestado. O príncipe está tendo que administrar problemas antigos, problemas novos e problemas que ainda podem surgir num horizonte altamente complicado. É possível que desfeche uma ofensiva por mar e até por terra contra os hutis, acrescentando uma nova e perigosa dimensão a um conflito cada vez mais imprevisível.

Source link

Ultimas Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *