Sem agulha e sem dor muscular, nova pílula que derruba colesterol em até 60% ganha aprovação inédita

Sem agulha e sem dor muscular, nova pílula que derruba colesterol em até 60% ganha aprovação inédita

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É um novo marco no tratamento do colesterol alto. A FDA, agência regulatória americana, aprovou o Lipfendra, nome comercial do enlicitide (ou enlicitida), desenvolvido pela farmacêutica MSD. Trata-se do primeiro inibidor de PCSK9 que vem em forma de comprimido — até agora, essa classe de remédios só existia em versão injetável, como o Repatha (Amgen) e o Praluent (Sanofi).

PCSK9 é uma proteína produzida pelo fígado que atua como uma espécie de sabotadora dos receptores de LDL, o colesterol ruim, nas células — os “ganchos” que retiram a gordura da corrente sanguínea.

Quanto mais PCSK9 circulando, menos receptores disponíveis, e mais LDL acumulado no sangue. Bloquear essa proteína é, portanto, uma forma de destravar o processo natural de limpeza do organismo. Quando isso não ocorre a contento, placas podem se formar e obstruir as artérias. 

O enlicitide se liga ao PCSK9 e impede sua interação com os receptores de LDL, ampliando a capacidade das células de capturar o colesterol ruim circulante — o mesmo mecanismo dos anticorpos injetáveis, só que numa pílula tomada uma vez ao dia.

Números que impressionam

Nos estudos clínicos do programa CORALreef, que reuniu mais de 19 mil participantes com hipercolesterolemia, o enlicitide reduziu o LDL em 55,8%. Em comparações diretas contra outros remédios usados hoje, o desempenho foi ainda mais expressivo: queda de 56,7% frente ao ácido bempedoico e de 36% frente à ezetimiba, e 28,1% a mais de redução comparado ao acido bempedoico + ezetimiba sempre em pacientes que já usavam estatina.

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Vale reforçar: o enlicitide poderá ser usado junto com estatinas e outros remédios que baixam colesterol que possuem mecanismo de ação diferentes.

Sem agulha, sem dor muscular

Duas vantagens práticas explicam o entusiasmo em torno do medicamento. Primeiro, é oral — dispensa as injeções subcutâneas que afastam boa parte dos pacientes elegíveis aos inibidores de PCSK9 atuais.

Segundo, não é estatina, o que importa porque um dos efeitos colaterais mais relatados pelos usuários dessa categoria clássica de remédios é a dor muscular (mialgia), motivo frequente de abandono do tratamento.

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Nos estudos do enlicitide, esse problema não apareceu como preocupação relevante. No CORALreef Lipids, o perfil de segurança foi semelhante ao placebo. Já no ensaio CORALreef HeFH, com pacientes com aumento genético do colesterol, os efeitos adversos mais comuns acima do placebo foram diarreia (7% versus 2%) e tontura (9% versus 4%)  – nada relacionado a dores musculares.

Além disso, a proporção de pacientes que abandonou o tratamento por reação adversa foi parecida entre os grupos tratados e o placebo em ambos os estudos.

O que ainda falta mostrar 

A aprovação da FDA se baseia na capacidade do enlicitide de reduzir o LDL colesterol, não em um estudo de desfecho cardiovascular  que comprove, para esse remédio especificamente, menos infartos, AVCs ou mortes cardiovasculares.

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A lógica por trás da aprovação é a de que outras classes — estatinas e os inibidores de PCSK9 injetáveis — já demonstraram esse benefício clínico direto, e a expectativa é de que o enlicitide, atuando pelo mesmo mecanismo, repita o resultado.  Um estudo de desfechos dedicado está em andamento e em breve trará esta resposta  

Por ora, a aprovação é americana. Não há, até o momento, indicação de submissão à Anvisa — o que significa que, no Brasil, o acesso a o enlicitide ainda depende de importação ou de decisões regulatórias futuras. O entusiasmo pela nova pílula, contudo, já começou.

 

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