Cuidado com uso de relógios inteligentes para exercícios

Cuidado com uso de relógios inteligentes para exercícios

Aplicativos de atividade física, relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis se tornaram parte da rotina de milhares de pessoas em Goiás. Embora essas tecnologias possam estimular hábitos mais saudáveis e incentivar a prática de exercícios, especialistas alertam que o monitoramento constante também pode provocar efeitos negativos, como ansiedade, culpa e até transtornos alimentares.

Pesquisas indicam que acompanhar indicadores de desempenho ajuda parte dos usuários a manter uma rotina mais ativa. No entanto, estudos também mostram um aumento nos relatos de sofrimento emocional entre pessoas que passam a depender excessivamente das métricas fornecidas pelos dispositivos.

Após uma década pesquisando o tema, um especialista destaca cinco fatores que explicam por que o uso dessas ferramentas pode deixar de ser um incentivo e se transformar em um problema.

Um dos principais exemplos é a popular meta diária de 10 mil passos. Apesar de amplamente adotada por aplicativos e relógios inteligentes, esse número surgiu em uma campanha publicitária da década de 1960 e não possui respaldo científico robusto.

Pesquisadores apontam que, para muitos adultos, cerca de 7 mil passos por dia já representam um objetivo mais compatível com benefícios à saúde. Ainda assim, a marca de 10 mil continua sendo tratada como um parâmetro universal.

Além disso, diferentes modalidades de exercício nem sempre são registradas corretamente pelos dispositivos. Atividades como musculação, ciclismo, natação, pilates e exercícios de reabilitação costumam receber menos destaque porque não geram a mesma contagem de passos, embora possam ser igualmente ou até mais importantes para determinados usuários.

Quando o exercício deixa de ser prazeroso

Especialistas também observam que a busca contínua por metas pode reduzir a satisfação proporcionada pela atividade física.

Ao transformar o exercício em uma obrigação voltada exclusivamente para cumprir números, muitos usuários acabam perdendo a motivação. Quando as metas deixam de ser alcançadas de forma recorrente, cresce a tendência de abandonar tanto o dispositivo quanto a prática de exercícios.

Segundo os pesquisadores, hábitos saudáveis tendem a ser mais duradouros quando estão associados ao prazer e ao bem-estar, e não apenas a recompensas digitais.

A ideia de que sempre é preciso fazer mais

Outro ponto de preocupação é a lógica adotada por muitos aplicativos, que associam sucesso ao aumento constante do volume de atividade física.

Notificações frequentes, medalhas virtuais e sequências de dias ativos reforçam a percepção de que mais exercício significa, necessariamente, melhor saúde.

Essa abordagem, no entanto, desconsidera fatores individuais, como condição física, experiência, recuperação de doenças, privação de sono, lesões, gravidez ou início recente da prática esportiva. Os pesquisadores alertam que os dispositivos não conseguem interpretar esse contexto e podem incentivar esforços inadequados para determinadas situações.

Um modelo único para pessoas diferentes

Os estudos também apontam limitações no desenvolvimento desses equipamentos, geralmente projetados para um perfil considerado “padrão”, que não representa a diversidade dos usuários.

Diferenças de idade, composição corporal, deficiência, histórico de saúde, objetivos pessoais e rotina diária raramente são contempladas de forma adequada.

Os pesquisadores observam ainda que métricas como o Índice de Massa Corporal (IMC) podem gerar avaliações distorcidas, classificando de forma inadequada pessoas com maior massa muscular ou reforçando padrões ultrapassados relacionados ao peso corporal e à aparência física.

A responsabilidade recai sobre o usuário

Outra crítica é que muitos dispositivos tratam a falta de atividade física como consequência exclusiva da falta de disciplina.

Segundo os especialistas, fatores como segurança nas ruas, condições climáticas, disponibilidade de tempo, renda, responsabilidades familiares, deficiência e acesso a espaços apropriados para exercícios também influenciam diretamente a prática de atividades físicas.

Quando esses aspectos são ignorados, usuários podem sentir culpa ou frustração por não conseguirem cumprir as metas estabelecidas pelos aplicativos.

Tecnologia deve servir como apoio

Os pesquisadores defendem que o monitoramento da atividade física pode ser uma ferramenta útil, desde que seja utilizado como fonte de informação e não como uma orientação absoluta.

Para reduzir possíveis impactos negativos, sugerem que fabricantes priorizem metas mais flexíveis, valorizem modalidades além da caminhada, incluam períodos de descanso como parte do planejamento e ofereçam configurações adaptadas às diferentes características físicas, capacidades e objetivos dos usuários.

A conclusão é que a tecnologia não precisa ser abandonada, mas utilizada de forma crítica. Afinal, os dados registrados por um relógio inteligente mostram apenas o que foi medido — e não necessariamente o que o corpo precisa em determinado momento.

Fonte Original Mais Goias

Ultimas Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *