Hormônio do crescimento para trincar e ganhar músculos: faz sentido tomar?

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Nos vestiários das academias, nos grupos de WhatsApp de fisiculturistas e nas conversas de bastidor entre pacientes que buscam o suposto corpo escultural, um nome tem se repetido com frequência preocupante: o GH, o hormônio do crescimento.
O que era, até poucos anos atrás, um medicamento restrito a indicações médicas muito específicas — deficiência hormonal em crianças, síndrome de Turner, insuficiência renal crônica… — se tornou, na cultura popular da estética, uma espécie de “chave mágica” para dois objetivos que obcecam boa parte dos frequentadores de academia: ganhar massa muscular e secar a barriga.
A lógica que circula informalmente é sedutora, ainda que equivocada. Como o GH promove ações anabólicas capazes de estimular o aumento de massa muscular e também é capaz de estimular reduções nos níveis de gordura corporal, há quem conclua, por conta própria ou por indicação de “consultores” sem formação médica, que se trata de um recurso seguro para turbinar resultados de treino.
A crença é reforçada pelo fato de que, fisiologicamente, o GH desempenha papel no metabolismo e na regeneração celular também na fase adulta, alimentando a ideia de que “mais hormônio” significaria automaticamente mais definição muscular e menos gordura abdominal.
O problema é que essa lógica simplifica — e distorce — a fisiologia real. Estudos mostram que, isoladamente, os benefícios do uso de GH por pessoas saudáveis são muito mais modestos do que o marketing informal sugere: não há ganho relevante de força muscular nem melhora consistente de desempenho aeróbico, e o pequeno efeito observado em esforços curtos de alta intensidade desaparece poucas semanas após a interrupção do uso.
Ainda assim, a percepção equivocada persiste, sustentada por depoimentos, fotos de “antes e depois” sem controle nas redes sociais e pela pressão estética que atravessa academias e consultórios.
Uma prática proibida — e crescente
É importante deixar claro: no Brasil, o uso estético do GH não é aprovado e, desde 2023, o Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de hormônios com essa finalidade. Só que essa prática se espalhou de forma silenciosa.
Levantamentos apontam que entre 5% e 15% dos frequentadores de academias já utilizaram GH, geralmente em associação com esteroides anabolizantes.
O primeiro ponto que costumo reforçar a pacientes e colegas é conceitual: o GH é um hormônio metabolicamente potente, e todo hormônio potente tem efeito sistêmico, não localizado. Não existe “GH só para a barriga” ou “GH só para o bíceps”.
Do ponto de vista metabólico, o GH tem ação diretamente oposta à da insulina. Ele eleva a glicose circulante e força o pâncreas a produzir mais insulina para compensar — por isso é descrito como um hormônio “diabetogênico”, já que seu uso inadequado causa resistência à insulina e aumenta o risco de diabetes.
Pacientes que buscam o GH para “secar” podem, paradoxalmente, sair do consultório com um metabolismo mais propenso ao ganho de gordura visceral e à descompensação dos níveis de glicose.
Há também uma possível relação com o câncer, talvez a mais subestimada pelo público leigo. O GH estimula a produção de IGF-1, um fator de crescimento com forte ação proliferativa celular. Isso significa que, em pessoas com predisposição genética ou tumores ainda não diagnosticados, o hormônio pode atuar como combustível para o crescimento dessas lesões malignas.
No sistema cardiovascular, o uso indiscriminado está associado a hipertensão, cardiomegalia e insuficiência cardíaca, além de alterações das taxas de gordura no sangue.
No aparelho locomotor, são comuns dores articulares, retenção de líquidos e a temida síndrome do túnel do carpo. E, no uso prolongado e em doses elevadas, o organismo pode desenvolver sinais de acromegalia — crescimento desproporcional de mãos, pés, mandíbula e traços faciais, uma condição que, uma vez instalada, é irreversível mesmo após a suspensão do hormônio.
A responsabilidade do médico — e do paciente
Como endocrinologista, entendo a busca por resultados estéticos rápidos: ela é humana, e a pressão social por um corpo “ideal” é real. Mas é justamente por reconhecer essa pressão que insisto em um ponto que não é retórico, é clínico: o GH funciona muito bem quando tratamos deficiências reais e diagnosticadas — e se torna perigoso, sem qualquer ganho comprovado, quando usado apenas como atalho estético.
Antes de considerar qualquer intervenção hormonal, o caminho seguro passa por avaliação médica completa, exames que investiguem eventuais predisposições e, sobretudo, o reconhecimento de que massa muscular e composição corporal saudáveis se constroem com treino regular, nutrição adequada e, quando necessário, tratamento individualizado.
