Fenômeno Espriella: em alta, mesmo proibido de usar camisa da seleção

As pesquisas são perigosas, mas a diferença registrada em favor de Abelardo de la Espriella mostra estar consolidada, Segundo a AtlasIntel, a empresa brasileira que está aumentando a presença no exterior, Abelardo, como é chamado por todos, está com 50,3% das preferências, contra 42,6% para Iván Cespeda, o candidato da esquerda. É difícil reverter isso até o próximo dia 21, com todas a cautela exigida pelas condições sempre instáveis de nossos países – veja-se a situação do Peru, com suas guinadas e reviravoltas.
Por que os colombianos estão apostando num estranho ao mundo da política, um advogado engomadinho que não só desenha as próprias roupas como tem uma grife masculina, a De la Espriella Style, um salto no escuro maior ainda do que o dado pelos argentinos quando elegeram Javier Milei – e isso sem a emergência representada pelo risco de hiperinflação que havia na Argentina?
A política contemporânea está cheia de exemplos similares, de Jair Bolsonaro a Donald Trump, para ficar nos casos mais óbvios. Esse tipo de fenômeno tem múltiplas causas, mas geralmente reflete uma insatisfação com as regras do jogo tal como são praticadas pelos políticos de sempre.
Abelardo de la Espriella certamente é um observador astuto desse movimento que mistura populismo tradicional e a emergência de uma nova categoria social, criada por circunstâncias econômicas sem precedentes e o poder conferido por um celular na mão e uma porção de memes nas redes.
TIGRE FALSO
De Milei, ele emprestou o lado libertário, o horror declarado ao Estado hipertrofiado – que promete cortar em 25%, algo simplesmente impossível, mas que não impede o discurso arrebatado. Pegou também um avatar felino – o leão no caso do argentino, um tigre para o colombiano (“Falso, barato e da Temu”, sibilou um humorista de esquerda).
De Nayib Bukele, tem o visual com curadoria cuidadosa, da barba às roupas bem justas, e principalmente, a promessa de construir não apenas uma superpenitenciária, como o Cecot do presidente salvadorenho, mas nada menos que dez dessas prisões. Como um dos países mais assolados pela violência no mundo, como foco global do tráfico de cocaína e de grupos esquerdistas armados, a Colômbia é um terreno fértil para propostas de mão dura no tratamento aos criminosos.
Obviamente, esse discurso em uma forte carga de demagogia. O fato de que faça sucesso e possa vir a eleger Abelardo presidente da Colômbia é um sinal da fragilidade de nossas instituições, mas também das reservas de esperança que as novas caras ativam.
Não é errado apostar em propostas novas. Se um advogado milionário, que vivia entre Miami e Florença, pode parecer um campeão de causas populares é porque o povo precisa de soluções fora do pacote tradicional de esquerda – Estado grande, aumentos do salário mínimo que não são acompanhados por uma economia pujante, multiplicação de benefícios que, muitas vezes, se mostram vazios.
REALISMO MÁGICO
Gustavo Petro fez tudo isso, inclusive com um reajuste de 17% do salário mínimo, mas não está conseguindo eleger seu sucessor. O descompensado presidente acusa obviamente, todo mundo que não vota em Cespeda de ser fascista. A um jornalista que manifestou apoio a de la Espriella, comentou com um “Heil Hitler” e depois ainda acrescentou que se lembrava quando ele era “homossexual e livre”. É de virar o estômago e só contribui para prejudicar o candidato esquerdista – dizem as más línguas que Petro nem faz tanta questão assim de que Cespeda seja eleito e venha eventualmente a ofuscá-lo.
Petro anda tão alterado, seja lá por qual motivo ou substâncias, que brigou até com os jogadores da seleção colombiana, acusando-os de falta de entusiasmo à arenga política que disparou na despedida do time. O presidente em fim de mandato vestia uma camisa da seleção, amarela como a do Brasil, com listas vermelhas nos ombros, um estilo que uma juíza proibiu Abelardo de la Espriella e seus simpatizantes de usar – e nada surpreendentemente parecido com o de Bolsonaro.
Um tribunal superior confirmou que todos os símbolos nacionais, incluindo camisetas e bandeiras, deveriam ser retirados. Ficam proibidos até os lemas com que Abelardo se identificava, como “Firmes pela Pátria” e “Defensores da pátria”.
Parece coisa de romance de realismo mágico: proibir a massa de sair às ruas com as cores nacionais. Em vez de atrapalhar, isso evidentemente ajudou Abelardo de la Espriella, pois ele passou a parecer alvo de uma condenável politização da justiça.
Imaginem um país onde isso pode acontecer…
